sexta-feira, 12 de outubro de 2007

NO AR, MAS UM VICE CAMPEÃO DE AUDIÊNCIA. TRANSCRITO DA REVISTA VEJA


A Record dobrou seu faturamento em três anos
e ultrapassou o SBT no segundo posto de audiência.
Seu dono, o bispo Edir Macedo, quer ir mais longe
- e tem os meios da Igreja Universal para isso

Nos últimos doze anos, Edir Macedo manteve-se longe dos holofotes. Líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record, ele se devotou a suas atividades religiosas e empresariais da maneira mais discreta possível desde que foi atingido por dois escândalos, em 1995. Um deles foi o "chute na santa", a série de pontapés desferida em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, pelo bispo Sérgio von Helde, num programa de sua emissora. O outro, a divulgação de um vídeo em que ensinava aos bispos de sua igreja, com palavras chulas, como arrecadar dinheiro dos fiéis. Mas agora Edir Macedo está de volta à cena. E com barulho. No próximo dia 15, lança uma biografia em que dá sua versão sobre as polêmicas que cercam sua vida. Há dez dias, ressurgiu no horário nobre da televisão para lançar o Record News, o primeiro canal inteiramente noticioso da TV aberta brasileira. Diante do presidente Lula e de autoridades como o governador de São Paulo, José Serra, ele não se limitou a celebrar o novo empreendimento.

Fez um discurso agressivo, referindo-se à líder de audiência do país, a Rede Globo, sem citá-la nominalmente: "Fomos injustiçados por muitos anos por um grupo de comunicação que tinha e mantém o monopólio da notícia no Brasil. Daí nosso desejo de dar fim a esse monopólio". Na semana passada, a Record voltou à carga – por meio de um editorial em seu principal noticiário, acusou a rival de ter feito gestões para impedir a inauguração da Record News. A saída do casulo e o ânimo de briga têm razão de ser. Além do novo canal de notícias, Macedo celebra feitos consideráveis da Rede Record, a jóia central de seu império de comunicações. Em agosto, a emissora tornou-se a segunda rede brasileira em ibope, superando o SBT em todas as faixas de horário. Além disso, de três anos para cá a Record dobrou seu faturamento publicitário – que já supera a marca de 1 bilhão de reais.

Quem olha os números de audiência nestas páginas constata que ainda existe uma enorme distância entre a Globo e suas competidoras. A Globo ostenta 21 pontos de ibope na média diária – o triplo da medição que a Record acaba de alcançar. Mas essa liderança mais do que confortável não evitou que a emissora carioca reagisse aos ataques de Macedo e da Record nos últimos dias. Ela respondeu no mesmo tom ao editorial do Jornal da Record, afirmando numa nota que agressões desse tipo eram de esperar vindas de "um grupo que lucra com a manipulação da fé religiosa". Trata-se de uma resposta que aponta as circunstâncias nebulosas que alavancaram a Record, mas não há dúvida de que por trás dela existe outro fato: o desafio imposto pelo canal do bispo Macedo é o mais duro que a Globo já enfrentou. O SBT nunca representou o mesmo tipo de ameaça: 10 pontos de audiência média sempre foram suficientes para que Silvio Santos mantivesse uma estrutura empresarial que lhe convinha. Não é assim com Edir Macedo. Ele é um homem muito mais ambicioso do que o dono do Baú da Felicidade – e a Record tem um papel central na realização de suas ambições. Ao mesmo tempo, a Igreja Universal oferece à Record recursos para prosperar: 300 milhões de reais por ano, por meio da compra de horários na programação. Esse dinheiro, proveniente do dízimo pago espontaneamente pelos fiéis da igreja, equivale a um terço de tudo o que a emissora arrecada no mercado publicitário. Trata-se de uma vantagem competitiva que nenhuma outra emissora desfruta.

Dizer que a Record só avança por causa do dinheiro da Universal é enxergar apenas uma parte do fenômeno. Sua arrancada deveu-se a uma mudança de filosofia ocorrida em 2004. A emissora já passara por duas fases. Da compra por Edir Macedo, em 1989, até o triste episódio do "chute na santa", o televangelismo dominou a programação. Na fase seguinte, a Record assumiu um perfil popularesco, em que o sensacionalismo do Cidade Alerta e do Programa do Ratinho era a grande atração. A guinada que agora começa a dar frutos foi desfechada há três anos. Por sugestão do então recém-contratado diretor comercial Walter Zagari, a rede optou por fazer uma operação muito comum nas televisões de todo o mundo. Decidiu-se "clonar" a programação da Globo e ter o famoso "padrão de qualidade" da emissora do Jardim Botânico como a meta a ser atingida.

A Record adotou um conceito de programação semelhante ao da concorrente. Investiu pesado na criação de um telejornal com o objetivo de emular o Jornal Nacional. A emissora do bispo despejou 300 milhões de reais na criação de uma indústria de novelas própria. Estava armado o bote. Antes que ele produzisse efeitos sensíveis no ibope, a Globo percebeu que havia uma ameaça nova no ar, algo que oferecia muito mais perigo do que o simpático mas pouco inventivo e acomodado SBT. Em três anos, a Record tirou sessenta jornalistas da Globo. Na área de teledramaturgia, a ousadia foi sinalizada pela compra dos antigos estúdios do humorista Renato Aragão, no Rio de Janeiro. A Record pagou 15 milhões de reais pelas instalações.

O RecNov, nome do complexo, simboliza essa fase exuberante da Record. Quando foi comprado, ele contava apenas com três galpões modestos. Hoje tem oito que, em tecnologia, pouco ficam a dever aos da Globo. O plano é dobrar esse número nos próximos anos. Os recursos técnicos de iluminação e de efeitos especiais de última geração logo começaram a aparecer na tela da Record. A atual novela das 10 da emissora, Caminhos do Coração, é onde isso aparece de forma mais clara. As cenas de ação e as crianças com superpoderes da trama são bastante convincentes. A Record inflacionou o mercado de técnicos e operadores de câmera. Muitos deles receberam ofertas salariais três vezes superiores ao que ganhavam na Globo. Atores, atrizes e diretores globais passaram a ser assediados com propostas financeiras tentadoras e a promessa de manutenção do padrão estético a que foram acostumados na emissora dos Marinho.

O acirramento da competição na televisão apenas raramente leva a melhorias na qualidade da programação. A atual investida da Record parece ser um desses raros casos. A emissora se propõe igualar e até superar, como dizem seus mais animados executivos, o padrão Globo de qualidade. Não só nas novelas. A mesma filosofia deve inspirar a área de variedades com aposta em programas populares, mas que não apelem para o grotesco. O objetivo é atrair um público qualificado, com poder de compra e que justifique cobrar caro pelos comerciais. O programa matinal Hoje em Dia mistura jornalismo e entretenimento e pode ser tomado como um exemplo dessa tentativa da Record. Decalcado de um formato da rede americana ABC, Good Morning America, o programa tem conseguido juntar diante da tela um porcentual de espectadores das classes A e B bastante expressivo para o horário. Nele se projetou a modelo Ana Hickmann, que tem batido em audiência os programas das loiras Ana Maria Braga e Xuxa – razão pela qual a Globo já estuda formas de revigorar o horário. Decidida a se profissionalizar, a Record não mexe uma palha atualmente sem fazer pesquisas de opinião. O Hoje em Dia foi feito sob medida para atender a um público adulto, em um horário em que Globo e SBT oferecem apenas opções para a criançada.

Faz parte do marketing da emissora emergente mostrar-se independente da Igreja Universal. O vínculo da Record com a Universal, no entanto, é indelével não apenas na origem e na coincidência de nomes com poder em ambas as instituições. Os cargos-chave são ocupados por bispos da Universal ou "obreiros", como são chamados os funcionários menos graduados. Um bispo cuida da tecnologia e outro coordena as vendas internacionais de novelas. Ofertam-se bolsas de estudo a funcionários ligados à igreja, para que estudem administração ou jornalismo e assim se credenciem a postos atualmente ocupados por leigos. A maioria dos seguranças e faxineiros também é da Universal. No topo dessa estrutura está um homem de confiança de Edir Macedo: o bispo Honorilton Gonçalves (leia abaixo a entrevista com ele).

O lado menos visível da guerra entre Record e Globo aflorou há dez dias, com o fogo cruzado deflagrado durante o lançamento da Record News. Nos últimos seis meses, o presidente Lula foi informado pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, sobre o andamento das negociações para a instalação do canal. Costa ficou em meio a duas demandas. De um lado, a Globo o fazia saber que a abertura da emissora feriria certos aspectos da legislação, em especial a proibição de que um mesmo grupo tenha dois canais abertos na mesma cidade – no caso, São Paulo. De outro, políticos ligados à Universal, como o senador Marcelo Crivella e o vice-presidente José Alencar, assediavam Costa com a informação de que existe uma saída jurídica para o impasse. Ao final, Costa sugeriu à Record que mudasse a composição societária da Rede Mulher, emissora que deu lugar à Record News. Mudança feita, o canal foi autorizado a operar.

A guerra subterrânea entre a Record e a Globo tem a programação da Igreja Universal nas madrugadas como ponto nevrálgico. O fato de a Record receber a injeção de cerca de 300 milhões de reais anuais da Igreja Universal a título de venda desse espaço é visto pela concorrente como uma vantagem indevida. A Universal paga 140.000 reais por hora em uma faixa de horário em que a Globo não arrecada mais do que 40.000 reais, mesmo obtendo uma audiência quatro vezes maior do que a concorrente. A título de comparação, a igreja de Edir Macedo paga apenas 55.000 reais por hora para a RedeTV! na compra de horário no começo da tarde naquela emissora. Não mais do que 5% do faturamento das TVs abertas vem do espaço comercial vendido durante a programação da madrugada. Chama a atenção do mercado o fato de na Record, ao contrário do que ocorre nas demais emissoras, a madrugada produzir 30% do faturamento. Mas se existe alguma ilegalidade na transferência de renda da igreja para a emissora ela ainda não foi argüida nos tribunais. A Receita Federal investiga atualmente cinco igrejas evangélicas, entre elas a Universal, pelo uso de dinheiro originário da fé (livre de tributos) sendo investido por seus líderes em empreendimentos temporais (tributáveis). A Receita não sabe ainda se há prejuízo para o Fisco na transação e trata a operação como uma "nova modalidade financeira" que deverá merecer, em breve, regras mais explícitas de funcionamento. Seja como for, uma concorrente turbinada por uma fonte generosa e garantida de recursos é uma novidade para a Globo. Os espectadores ficam na torcida para que da guerra resultem opções cada vez melhores no vídeo. A frase famosa de Newton Minow, presidente da NAB, a Associação Nacional de Emissoras dos Estados Unidos, dita em 1961, explica o porquê da torcida pela qualidade: "Quando a televisão é boa, nada é melhor do que ela. Quando ela é ruim, nada é pior".

A GLOBO TEM MEDO

Bispo licenciado da Igreja Universal, o carioca Honorilton Gonçalves, 47 anos, é vice-presidente da Record e responsável por sua parte artística. Mas o cargo não descreve com exatidão sua importância na emissora. Gonçalves é a voz de Edir Macedo na Record – aquele que implementa as idéias do bispo no campo da televisão. Temido pelos artistas, ele cultiva a fama de inacessível. Deu a seguinte entrevista a VEJA:

O SENHOR ACREDITA REALMENTE QUE UM DIA A RECORD PODE EMPARELHAR COM A GLOBO NO IBOPE?

Não vamos só emparelhar. Vamos passar a Globo. Esse dia não está longe. A Globo tem medo.

COMO O SENHOR AVALIA O MOMENTO ATUAL DO SBT?

Não estamos preocupados com o SBT. É um tema que a gente nem discute nas reuniões.

A RECORD PERTENCE AO LÍDER DA IGREJA UNIVERSAL, TEM BISPOS EM SEU COMANDO E BENEFICIA-SE DA LOCAÇÃO DE HORÁRIOS NA MADRUGADA PARA A IGREJA. MAS TEM SE ESFORÇADO PARA DESVINCULAR SUA IMAGEM DA IGREJA. POR QUÊ?

A Universal é um cliente como todos os demais. Nunca houve a identificação entre a igreja e a TV a que as pessoas se referem. Acredito que a sabedoria do senhor Edir Macedo em separar suas atividades de empresário das de líder religioso deixa muita gente irada, talvez até com certa frustração.

RECENTEMENTE, A RECORD ASSUMIU PUBLICAMENTE A POSIÇÃO PRÓ-ABORTO – QUE COINCIDE COM A VISÃO DA UNIVERSAL SOBRE O TEMA. POR QUE ADOTAR ESSA POSIÇÃO?

Foi uma orientação direta do senhor Edir Macedo, que nos pediu que conscientizássemos a sociedade da importância de a mulher poder decidir sobre o seu próprio destino.

O SENHOR CONFIRMA QUE A UNIVERSAL INJETA AO MENOS 300 MILHÕES DE REAIS POR ANO NA RECORD?

A Record não divulga o investimento dos seus clientes. Os valores da Universal são condizentes com as práticas de mercado. Por diversas vezes, a igreja procurou a Rede Globo e o SBT para colocar sua programação nas madrugadas dessas emissoras. Elas recusaram a proposta, dizendo que não faz parte de sua política de comercialização. Na Record não existe essa barreira.

AS NOVELAS SÃO, NO MOMENTO, AS MENINAS-DOS-OLHOS DA RECORD. VALE TANTO A PENA INVESTIR NELAS?

Por meio de pesquisas, descobrimos que não há nada como as novelas para atrair o público. E então decidimos fazer isso da melhor forma possível.

A RECORD ADOTOU A TÁTICA DE IMITAR O PADRÃO DE NOVELAS DA GLOBO. ATÉ QUE PONTO ELAS SÃO UMA REFERÊNCIA?

}Não são. Tentamos fazer novelas com a receita de que as pessoas gostam. Se a Globo também faz isso, talvez ela é que esteja imitando a gente.

ANTES DA RECORD, VÁRIAS EMISSORAS TENTARAM, EM VÃO, CRIAR INDÚSTRIAS PRÓPRIAS DE NOVELAS. POR QUE SE DEVE ACREDITAR QUE COM A RECORD SERÁ DIFERENTE?

Porque investimos em infra-estrutura. Nossa estratégia é de longo prazo. Estamos nos preparando com instalações, equipamentos e profissionais.

COMO O SENHOR AVALIA A PROGRAMAÇÃO EVANGÉLICA DAS MADRUGADAS DA RECORD?

Ela atende a seu propósito, que é mostrar que a Igreja Universal tem a mente aberta. Está preparada para discutir qualquer assunto: aborto, planejamento familiar, adoção de crianças por homossexuais.

EM QUE MEDIDA O BISPO EDIR MACEDO SE ENVOLVE NA ADMINISTRAÇÃO DA RECORD?

Todo dono espera resultado. É o que ele cobra.

Edir Macedo: a Universal já está em mais países que o McDonald's

A VERSÃO DO BISPO EDIR MACEDO

Com lançamento previsto para a segunda-feira 15, O Bispo – A História Revelada de Edir Macedo (Larousse; 275 páginas; 39,90 reais) ostenta a maior tiragem que já se viu no mercado editorial brasileiro. São 700.000 exemplares (metade dos quais, é verdade, será distribuída nos templos da Igreja Universal do Reino de Deus). A expectativa se justifica: a autobiografia marca o fim de um silêncio de doze anos. Traz a versão de Macedo para as polêmicas que cercam seu nome e a Universal, da política à guerra com a Globo. Escrita por dois funcionários de Edir Macedo – Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da Record, e a repórter Christina Lemos –, a obra oferece uma visão parcial dos fatos. O Edir Macedo que emerge das páginas é um homem obstinado e que se julga perseguido. A exceção é o episódio do "chute na santa". Edir faz mea-culpa pelo erro de um de seus pastores. Sobre outros assuntos, silêncio. Ele não responde às dúvidas que pairam a respeito de sua igreja e de seus negócios. Mas por meio do livro é possível conhecer um pouco mais sobre sua visão de mundo, além de obter informações sobre o império que Macedo construiu. A obra faz um inventário da Igreja Universal no Brasil – são 4.748 templos e 9.660 pastores, além de um complexo econômico que inclui construtoras, seguradoras, uma empresa de táxi aéreo, agências de turismo e consultorias. Mostra também a força conquistada pela Universal no exterior. Hoje, a igreja opera em 172 países (o McDonald's, a maior rede de fast-food do mundo, está em 118). Conforme se verá nestas páginas, O Bispo expõe a intimidade (e até a vida sexual) de Macedo – e também sua versão de episódios como a compra da Record.

SEXO E CASAMENTO

"O bispo não brinca quando o assunto é casamento. A união no altar é rigorosamente levada a sério dentro de sua instituição religiosa. Pastores somente crescem na hierarquia do grupo quando são bem casados. (...) Entre solteiros também há normas. Noivas de pastores passam por uma espécie de estágio ao conviver até doze meses com casais mais religiosos, mais experientes. (...) Para o bispo, sexo é uma dádiva. E pilar do casamento.

– Sexo não foi criado pelo diabo, mas por Deus. É o momento de aliviar as tensões – opina ele, dizendo-se radicalmente contra o celibato. – Quando faço sexo, vou para o altar mais forte."

ATROFIA NAS MÃOS

"O quarto filho da família Macedo Bezerra nasceu com deficiência na mão esquerda. Didi, como Edir era chamado pelos irmãos, tem uma pequena atrofia nos dedos. Seus indicadores são finos. Os polegares, um pouco maiores. Todos se movem pouco. Apenas os outros três dedos têm movimentos normais. O problema é hereditário. Sua avó, mãe de Henrique, tinha menos dedos em cada mão. Na infância, o defeito gerou complexos de inferioridade no menino Didi.

– Eu era o patinho feio da família. Tinha a sensação de que tudo o que eu fazia dava errado: era a pipa cortada, eram os balões que pegavam fogo. Às vezes me sentia um estorvo – lembra Edir Macedo. "

SUBMISSÃO DA MULHER

"Prevalece em nosso universo, sim. Mas não se trata de submissão imposta, é algo natural. O homem não é nada sem a mulher, e a mulher não é nada sem o homem. A mulher não deve se submeter à vontade do homem. O homem é que deve colocar-se como líder numa relação conjugal. Esse entendimento nasce à luz da Bíblia. O homem é a cabeça, e a mulher o corpo. Imagine um corpo sem cabeça ou vice-versa. Impossível existir relacionamento. Na direção da Igreja Universal, conhecemos exemplos desse tipo. Quando a mulher manda no marido, o pastor não cresce. Ela domina e não dá certo. No meu caso, quem manda dentro de casa é a Ester. Na igreja, sou eu. Um não pode ultrapassar o limite do outro. Em casa, eu só mando no meu escritório, e até lá ela mexe de vez em quando."

A PRIMEIRA VEZ

"Edir sempre foi muito namorador. A deficiência nas mãos nunca foi barreira para exercitar o papel de galanteador. Apesar da timidez, tinha conversa sedutora. Vaidoso com a aparência, dono de farta cabeleira, lisa e comprida, chegou à maioridade com muitas namoradas. Mas teve sua primeira relação sexual dois anos antes, aos 16, numa farra com colegas de escola no bairro do Catumbi.

– Foi antes do casamento, antes da minha conversão. Foi num bordel em frente ao colégio em que eu estudava à noite. "

CHUTE NA SANTA

"– Na hora soube que foi um erro... Nosso maior erro. (...) O Sérgio criou um problema na igreja. Atrasou nosso trabalho em dez anos. Ficamos parados no tempo por causa daquele chute. Atrapalhou a igreja, atrapalhou todos os nossos projetos. Nós estaríamos lá na frente, poderíamos ter ajudado muito mais gente se não fosse aquele ato impensado."

O ataque a Nossa Senhora: o maior erro

O DÍZIMO

"O que justifica a cobrança do dízimo?

Veja o exemplo da terra arrendada a um trabalhador: depois de cultivada, 50% do que dela se retira é do dono da terra, a outra metade é do arrendatário. Na igreja, os primeiros 10% são colocados na obra de Deus. Ele é o dono da terra, de nossa vida. Esse gesto é um sinal de consideração, de respeito e de fé. Não é um ato abstrato, teórico. É um compromisso que revela a fé prática. A de que Deus fica obrigado a esse compromisso com a pessoa que deu o dízimo, fica obrigado a cumprir a promessa que está na Bíblia: 'Trazei o dízimo e eu abrirei as janelas do céu.' Além disso, não impomos nada. Não cobramos o dízimo de ninguém. Apenas conscientizamos as pessoas dessa prática. É questão de colocar Deus em primeiro lugar na vida. (...) "

A BANCADA EVANGÉLICA

"A bancada evangélica hoje é respeitável, embora tenha diminuído nos últimos tempos. Tem representantes nas principais esferas do Poder Legislativo. São sete deputados federais, dezenove deputados estaduais, 91 vereadores e um senador da República integrantes da Universal. (...)

– Os políticos são para defender a causa do Evangelho. Para fazer frente a todos os movimentos de perseguição que enfrentamos. Edir Macedo assegura: apesar das especulações, nunca pensou em candidatar-se à Presidência da República.

– Mas, se eu fosse presidente, este país seria outro. Meu primeiro ato seria proibir o gasto de um centavo sem a minha autorização. Você iria ver este país mudar. Os corruptos iriam passar fome."

O PAPA BENTO XVI

"Exclusivamente um político. Mais nada. O que ele e o restante do clero fazem o tempo todo é apenas ditar regras, impor normas, em sua maioria contrárias à Bíblia. É só checar. São regras e mais regras, uma atrás da outra. Não pode fazer sexo, não pode usar camisinha, não pode planejar a família, a mulher não pode ter o direito de abortar, o segundo casamento é uma praga, sexo é somente para procriação, a Igreja Católica é a única verdadeira igreja de Cristo, os evangélicos são uma seita e por aí vai. Como ter uma opinião diferente?"

A COMPRA DA RECORD

"A transação era ousada. Entrou para a história como o maior negócio no setor de comunicações do país até então. As cifras assustaram especialistas do mercado. Não era comum uma empresa de rádio e televisão ser vendida por aquele valor no Brasil. No total, Edir Macedo assumiu uma dívida de 45 milhões de dólares ao adquirir a Record. Da quantia acertada, 14 milhões deveriam ser depositados logo no início. O restante, 31 milhões, seria pago à família Machado de Carvalho e a Silvio Santos ao longo de dois anos."

"A expressão do bispo Macedo muda ao recordar de uma manhã em seu escritório na Rádio Copacabana, centro do Rio de Janeiro. Sobre sua mesa, após horas de reuniões, os números da dívida da Record. O bispo pediu licença, trancou-se sozinho no banheiro e rezou.

– Coloquei minha cara no chão e chorei, chorei. (...)

Mas o inacreditável aconteceu meses depois, pontualmente no dia 15 de março de 1990, com o lançamento do Plano Collor. (...) As prestações do bispo Macedo, baseadas na cotação da moeda estrangeira, despencaram. As dívidas da compra da Record, antes exorbitantes, acabaram pagas com facilidade. Edir passou a zerar duas, até três prestações em um único mês. Antes de 1992, o bispo Macedo já quitara integralmente a dívida.

– Fui salvo pelo gongo. O Plano Collor só ajudou a mim no Brasil inteiro, mais ninguém. Sorte? Coincidência? Cada um acredite no que quiser. Eu tenho certeza que foi Deus. "

"Perguntamos se enfrentaria tudo novamente pela compra da Record.

– Não. Sinceramente, acho que não. Hoje eu não iria agüentar. Ninguém imagina o que passei, nem minha mulher sabe o que vivi.

Edir larga os talheres apoiados no prato, escorrega a mão direita pela cabeça e nos mira por cima dos óculos.

A resposta ganha tom de confissão:

– Quer saber a verdade? Se eu não cresse no meu Deus, teria dado um tiro na cabeça."

No ar, mais um vice-campeão. REVISTA VEJA


A Record dobrou seu faturamento em três anos
e ultrapassou o SBT no segundo posto de audiência.
Seu dono, o bispo Edir Macedo, quer ir mais longe
- e tem os meios da Igreja Universal para isso

Nos últimos doze anos, Edir Macedo manteve-se longe dos holofotes. Líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record, ele se devotou a suas atividades religiosas e empresariais da maneira mais discreta possível desde que foi atingido por dois escândalos, em 1995. Um deles foi o "chute na santa", a série de pontapés desferida em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, pelo bispo Sérgio von Helde, num programa de sua emissora. O outro, a divulgação de um vídeo em que ensinava aos bispos de sua igreja, com palavras chulas, como arrecadar dinheiro dos fiéis. Mas agora Edir Macedo está de volta à cena. E com barulho. No próximo dia 15, lança uma biografia em que dá sua versão sobre as polêmicas que cercam sua vida. Há dez dias, ressurgiu no horário nobre da televisão para lançar o Record News, o primeiro canal inteiramente noticioso da TV aberta brasileira. Diante do presidente Lula e de autoridades como o governador de São Paulo, José Serra, ele não se limitou a celebrar o novo empreendimento.

Fez um discurso agressivo, referindo-se à líder de audiência do país, a Rede Globo, sem citá-la nominalmente: "Fomos injustiçados por muitos anos por um grupo de comunicação que tinha e mantém o monopólio da notícia no Brasil. Daí nosso desejo de dar fim a esse monopólio". Na semana passada, a Record voltou à carga – por meio de um editorial em seu principal noticiário, acusou a rival de ter feito gestões para impedir a inauguração da Record News. A saída do casulo e o ânimo de briga têm razão de ser. Além do novo canal de notícias, Macedo celebra feitos consideráveis da Rede Record, a jóia central de seu império de comunicações. Em agosto, a emissora tornou-se a segunda rede brasileira em ibope, superando o SBT em todas as faixas de horário. Além disso, de três anos para cá a Record dobrou seu faturamento publicitário – que já supera a marca de 1 bilhão de reais.

Quem olha os números de audiência nestas páginas constata que ainda existe uma enorme distância entre a Globo e suas competidoras. A Globo ostenta 21 pontos de ibope na média diária – o triplo da medição que a Record acaba de alcançar. Mas essa liderança mais do que confortável não evitou que a emissora carioca reagisse aos ataques de Macedo e da Record nos últimos dias. Ela respondeu no mesmo tom ao editorial do Jornal da Record, afirmando numa nota que agressões desse tipo eram de esperar vindas de "um grupo que lucra com a manipulação da fé religiosa". Trata-se de uma resposta que aponta as circunstâncias nebulosas que alavancaram a Record, mas não há dúvida de que por trás dela existe outro fato: o desafio imposto pelo canal do bispo Macedo é o mais duro que a Globo já enfrentou. O SBT nunca representou o mesmo tipo de ameaça: 10 pontos de audiência média sempre foram suficientes para que Silvio Santos mantivesse uma estrutura empresarial que lhe convinha. Não é assim com Edir Macedo. Ele é um homem muito mais ambicioso do que o dono do Baú da Felicidade – e a Record tem um papel central na realização de suas ambições. Ao mesmo tempo, a Igreja Universal oferece à Record recursos para prosperar: 300 milhões de reais por ano, por meio da compra de horários na programação. Esse dinheiro, proveniente do dízimo pago espontaneamente pelos fiéis da igreja, equivale a um terço de tudo o que a emissora arrecada no mercado publicitário. Trata-se de uma vantagem competitiva que nenhuma outra emissora desfruta.

Dizer que a Record só avança por causa do dinheiro da Universal é enxergar apenas uma parte do fenômeno. Sua arrancada deveu-se a uma mudança de filosofia ocorrida em 2004. A emissora já passara por duas fases. Da compra por Edir Macedo, em 1989, até o triste episódio do "chute na santa", o televangelismo dominou a programação. Na fase seguinte, a Record assumiu um perfil popularesco, em que o sensacionalismo do Cidade Alerta e do Programa do Ratinho era a grande atração. A guinada que agora começa a dar frutos foi desfechada há três anos. Por sugestão do então recém-contratado diretor comercial Walter Zagari, a rede optou por fazer uma operação muito comum nas televisões de todo o mundo. Decidiu-se "clonar" a programação da Globo e ter o famoso "padrão de qualidade" da emissora do Jardim Botânico como a meta a ser atingida.

A Record adotou um conceito de programação semelhante ao da concorrente. Investiu pesado na criação de um telejornal com o objetivo de emular o Jornal Nacional. A emissora do bispo despejou 300 milhões de reais na criação de uma indústria de novelas própria. Estava armado o bote. Antes que ele produzisse efeitos sensíveis no ibope, a Globo percebeu que havia uma ameaça nova no ar, algo que oferecia muito mais perigo do que o simpático mas pouco inventivo e acomodado SBT. Em três anos, a Record tirou sessenta jornalistas da Globo. Na área de teledramaturgia, a ousadia foi sinalizada pela compra dos antigos estúdios do humorista Renato Aragão, no Rio de Janeiro. A Record pagou 15 milhões de reais pelas instalações.

O RecNov, nome do complexo, simboliza essa fase exuberante da Record. Quando foi comprado, ele contava apenas com três galpões modestos. Hoje tem oito que, em tecnologia, pouco ficam a dever aos da Globo. O plano é dobrar esse número nos próximos anos. Os recursos técnicos de iluminação e de efeitos especiais de última geração logo começaram a aparecer na tela da Record. A atual novela das 10 da emissora, Caminhos do Coração, é onde isso aparece de forma mais clara. As cenas de ação e as crianças com superpoderes da trama são bastante convincentes. A Record inflacionou o mercado de técnicos e operadores de câmera. Muitos deles receberam ofertas salariais três vezes superiores ao que ganhavam na Globo. Atores, atrizes e diretores globais passaram a ser assediados com propostas financeiras tentadoras e a promessa de manutenção do padrão estético a que foram acostumados na emissora dos Marinho.

O acirramento da competição na televisão apenas raramente leva a melhorias na qualidade da programação. A atual investida da Record parece ser um desses raros casos. A emissora se propõe igualar e até superar, como dizem seus mais animados executivos, o padrão Globo de qualidade. Não só nas novelas. A mesma filosofia deve inspirar a área de variedades com aposta em programas populares, mas que não apelem para o grotesco. O objetivo é atrair um público qualificado, com poder de compra e que justifique cobrar caro pelos comerciais. O programa matinal Hoje em Dia mistura jornalismo e entretenimento e pode ser tomado como um exemplo dessa tentativa da Record. Decalcado de um formato da rede americana ABC, Good Morning America, o programa tem conseguido juntar diante da tela um porcentual de espectadores das classes A e B bastante expressivo para o horário. Nele se projetou a modelo Ana Hickmann, que tem batido em audiência os programas das loiras Ana Maria Braga e Xuxa – razão pela qual a Globo já estuda formas de revigorar o horário. Decidida a se profissionalizar, a Record não mexe uma palha atualmente sem fazer pesquisas de opinião. O Hoje em Dia foi feito sob medida para atender a um público adulto, em um horário em que Globo e SBT oferecem apenas opções para a criançada.

Faz parte do marketing da emissora emergente mostrar-se independente da Igreja Universal. O vínculo da Record com a Universal, no entanto, é indelével não apenas na origem e na coincidência de nomes com poder em ambas as instituições. Os cargos-chave são ocupados por bispos da Universal ou "obreiros", como são chamados os funcionários menos graduados. Um bispo cuida da tecnologia e outro coordena as vendas internacionais de novelas. Ofertam-se bolsas de estudo a funcionários ligados à igreja, para que estudem administração ou jornalismo e assim se credenciem a postos atualmente ocupados por leigos. A maioria dos seguranças e faxineiros também é da Universal. No topo dessa estrutura está um homem de confiança de Edir Macedo: o bispo Honorilton Gonçalves (leia abaixo a entrevista com ele).

O lado menos visível da guerra entre Record e Globo aflorou há dez dias, com o fogo cruzado deflagrado durante o lançamento da Record News. Nos últimos seis meses, o presidente Lula foi informado pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, sobre o andamento das negociações para a instalação do canal. Costa ficou em meio a duas demandas. De um lado, a Globo o fazia saber que a abertura da emissora feriria certos aspectos da legislação, em especial a proibição de que um mesmo grupo tenha dois canais abertos na mesma cidade – no caso, São Paulo. De outro, políticos ligados à Universal, como o senador Marcelo Crivella e o vice-presidente José Alencar, assediavam Costa com a informação de que existe uma saída jurídica para o impasse. Ao final, Costa sugeriu à Record que mudasse a composição societária da Rede Mulher, emissora que deu lugar à Record News. Mudança feita, o canal foi autorizado a operar.

A guerra subterrânea entre a Record e a Globo tem a programação da Igreja Universal nas madrugadas como ponto nevrálgico. O fato de a Record receber a injeção de cerca de 300 milhões de reais anuais da Igreja Universal a título de venda desse espaço é visto pela concorrente como uma vantagem indevida. A Universal paga 140.000 reais por hora em uma faixa de horário em que a Globo não arrecada mais do que 40.000 reais, mesmo obtendo uma audiência quatro vezes maior do que a concorrente. A título de comparação, a igreja de Edir Macedo paga apenas 55.000 reais por hora para a RedeTV! na compra de horário no começo da tarde naquela emissora. Não mais do que 5% do faturamento das TVs abertas vem do espaço comercial vendido durante a programação da madrugada. Chama a atenção do mercado o fato de na Record, ao contrário do que ocorre nas demais emissoras, a madrugada produzir 30% do faturamento. Mas se existe alguma ilegalidade na transferência de renda da igreja para a emissora ela ainda não foi argüida nos tribunais. A Receita Federal investiga atualmente cinco igrejas evangélicas, entre elas a Universal, pelo uso de dinheiro originário da fé (livre de tributos) sendo investido por seus líderes em empreendimentos temporais (tributáveis). A Receita não sabe ainda se há prejuízo para o Fisco na transação e trata a operação como uma "nova modalidade financeira" que deverá merecer, em breve, regras mais explícitas de funcionamento. Seja como for, uma concorrente turbinada por uma fonte generosa e garantida de recursos é uma novidade para a Globo. Os espectadores ficam na torcida para que da guerra resultem opções cada vez melhores no vídeo. A frase famosa de Newton Minow, presidente da NAB, a Associação Nacional de Emissoras dos Estados Unidos, dita em 1961, explica o porquê da torcida pela qualidade: "Quando a televisão é boa, nada é melhor do que ela. Quando ela é ruim, nada é pior".

A GLOBO TEM MEDO

Bispo licenciado da Igreja Universal, o carioca Honorilton Gonçalves, 47 anos, é vice-presidente da Record e responsável por sua parte artística. Mas o cargo não descreve com exatidão sua importância na emissora. Gonçalves é a voz de Edir Macedo na Record – aquele que implementa as idéias do bispo no campo da televisão. Temido pelos artistas, ele cultiva a fama de inacessível. Deu a seguinte entrevista a VEJA:

O SENHOR ACREDITA REALMENTE QUE UM DIA A RECORD PODE EMPARELHAR COM A GLOBO NO IBOPE?

Não vamos só emparelhar. Vamos passar a Globo. Esse dia não está longe. A Globo tem medo.

COMO O SENHOR AVALIA O MOMENTO ATUAL DO SBT?

Não estamos preocupados com o SBT. É um tema que a gente nem discute nas reuniões.

A RECORD PERTENCE AO LÍDER DA IGREJA UNIVERSAL, TEM BISPOS EM SEU COMANDO E BENEFICIA-SE DA LOCAÇÃO DE HORÁRIOS NA MADRUGADA PARA A IGREJA. MAS TEM SE ESFORÇADO PARA DESVINCULAR SUA IMAGEM DA IGREJA. POR QUÊ?

A Universal é um cliente como todos os demais. Nunca houve a identificação entre a igreja e a TV a que as pessoas se referem. Acredito que a sabedoria do senhor Edir Macedo em separar suas atividades de empresário das de líder religioso deixa muita gente irada, talvez até com certa frustração.

RECENTEMENTE, A RECORD ASSUMIU PUBLICAMENTE A POSIÇÃO PRÓ-ABORTO – QUE COINCIDE COM A VISÃO DA UNIVERSAL SOBRE O TEMA. POR QUE ADOTAR ESSA POSIÇÃO?

Foi uma orientação direta do senhor Edir Macedo, que nos pediu que conscientizássemos a sociedade da importância de a mulher poder decidir sobre o seu próprio destino.

O SENHOR CONFIRMA QUE A UNIVERSAL INJETA AO MENOS 300 MILHÕES DE REAIS POR ANO NA RECORD?

A Record não divulga o investimento dos seus clientes. Os valores da Universal são condizentes com as práticas de mercado. Por diversas vezes, a igreja procurou a Rede Globo e o SBT para colocar sua programação nas madrugadas dessas emissoras. Elas recusaram a proposta, dizendo que não faz parte de sua política de comercialização. Na Record não existe essa barreira.

AS NOVELAS SÃO, NO MOMENTO, AS MENINAS-DOS-OLHOS DA RECORD. VALE TANTO A PENA INVESTIR NELAS?

Por meio de pesquisas, descobrimos que não há nada como as novelas para atrair o público. E então decidimos fazer isso da melhor forma possível.

A RECORD ADOTOU A TÁTICA DE IMITAR O PADRÃO DE NOVELAS DA GLOBO. ATÉ QUE PONTO ELAS SÃO UMA REFERÊNCIA?

}Não são. Tentamos fazer novelas com a receita de que as pessoas gostam. Se a Globo também faz isso, talvez ela é que esteja imitando a gente.

ANTES DA RECORD, VÁRIAS EMISSORAS TENTARAM, EM VÃO, CRIAR INDÚSTRIAS PRÓPRIAS DE NOVELAS. POR QUE SE DEVE ACREDITAR QUE COM A RECORD SERÁ DIFERENTE?

Porque investimos em infra-estrutura. Nossa estratégia é de longo prazo. Estamos nos preparando com instalações, equipamentos e profissionais.

COMO O SENHOR AVALIA A PROGRAMAÇÃO EVANGÉLICA DAS MADRUGADAS DA RECORD?

Ela atende a seu propósito, que é mostrar que a Igreja Universal tem a mente aberta. Está preparada para discutir qualquer assunto: aborto, planejamento familiar, adoção de crianças por homossexuais.

EM QUE MEDIDA O BISPO EDIR MACEDO SE ENVOLVE NA ADMINISTRAÇÃO DA RECORD?

Todo dono espera resultado. É o que ele cobra.

Edir Macedo: a Universal já está em mais países que o McDonald's

A VERSÃO DO BISPO EDIR MACEDO

Com lançamento previsto para a segunda-feira 15, O Bispo – A História Revelada de Edir Macedo (Larousse; 275 páginas; 39,90 reais) ostenta a maior tiragem que já se viu no mercado editorial brasileiro. São 700.000 exemplares (metade dos quais, é verdade, será distribuída nos templos da Igreja Universal do Reino de Deus). A expectativa se justifica: a autobiografia marca o fim de um silêncio de doze anos. Traz a versão de Macedo para as polêmicas que cercam seu nome e a Universal, da política à guerra com a Globo. Escrita por dois funcionários de Edir Macedo – Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da Record, e a repórter Christina Lemos –, a obra oferece uma visão parcial dos fatos. O Edir Macedo que emerge das páginas é um homem obstinado e que se julga perseguido. A exceção é o episódio do "chute na santa". Edir faz mea-culpa pelo erro de um de seus pastores. Sobre outros assuntos, silêncio. Ele não responde às dúvidas que pairam a respeito de sua igreja e de seus negócios. Mas por meio do livro é possível conhecer um pouco mais sobre sua visão de mundo, além de obter informações sobre o império que Macedo construiu. A obra faz um inventário da Igreja Universal no Brasil – são 4.748 templos e 9.660 pastores, além de um complexo econômico que inclui construtoras, seguradoras, uma empresa de táxi aéreo, agências de turismo e consultorias. Mostra também a força conquistada pela Universal no exterior. Hoje, a igreja opera em 172 países (o McDonald's, a maior rede de fast-food do mundo, está em 118). Conforme se verá nestas páginas, O Bispo expõe a intimidade (e até a vida sexual) de Macedo – e também sua versão de episódios como a compra da Record.

SEXO E CASAMENTO

"O bispo não brinca quando o assunto é casamento. A união no altar é rigorosamente levada a sério dentro de sua instituição religiosa. Pastores somente crescem na hierarquia do grupo quando são bem casados. (...) Entre solteiros também há normas. Noivas de pastores passam por uma espécie de estágio ao conviver até doze meses com casais mais religiosos, mais experientes. (...) Para o bispo, sexo é uma dádiva. E pilar do casamento.

– Sexo não foi criado pelo diabo, mas por Deus. É o momento de aliviar as tensões – opina ele, dizendo-se radicalmente contra o celibato. – Quando faço sexo, vou para o altar mais forte."

ATROFIA NAS MÃOS

"O quarto filho da família Macedo Bezerra nasceu com deficiência na mão esquerda. Didi, como Edir era chamado pelos irmãos, tem uma pequena atrofia nos dedos. Seus indicadores são finos. Os polegares, um pouco maiores. Todos se movem pouco. Apenas os outros três dedos têm movimentos normais. O problema é hereditário. Sua avó, mãe de Henrique, tinha menos dedos em cada mão. Na infância, o defeito gerou complexos de inferioridade no menino Didi.

– Eu era o patinho feio da família. Tinha a sensação de que tudo o que eu fazia dava errado: era a pipa cortada, eram os balões que pegavam fogo. Às vezes me sentia um estorvo – lembra Edir Macedo. "

SUBMISSÃO DA MULHER

"Prevalece em nosso universo, sim. Mas não se trata de submissão imposta, é algo natural. O homem não é nada sem a mulher, e a mulher não é nada sem o homem. A mulher não deve se submeter à vontade do homem. O homem é que deve colocar-se como líder numa relação conjugal. Esse entendimento nasce à luz da Bíblia. O homem é a cabeça, e a mulher o corpo. Imagine um corpo sem cabeça ou vice-versa. Impossível existir relacionamento. Na direção da Igreja Universal, conhecemos exemplos desse tipo. Quando a mulher manda no marido, o pastor não cresce. Ela domina e não dá certo. No meu caso, quem manda dentro de casa é a Ester. Na igreja, sou eu. Um não pode ultrapassar o limite do outro. Em casa, eu só mando no meu escritório, e até lá ela mexe de vez em quando."

A PRIMEIRA VEZ

"Edir sempre foi muito namorador. A deficiência nas mãos nunca foi barreira para exercitar o papel de galanteador. Apesar da timidez, tinha conversa sedutora. Vaidoso com a aparência, dono de farta cabeleira, lisa e comprida, chegou à maioridade com muitas namoradas. Mas teve sua primeira relação sexual dois anos antes, aos 16, numa farra com colegas de escola no bairro do Catumbi.

– Foi antes do casamento, antes da minha conversão. Foi num bordel em frente ao colégio em que eu estudava à noite. "

CHUTE NA SANTA

"– Na hora soube que foi um erro... Nosso maior erro. (...) O Sérgio criou um problema na igreja. Atrasou nosso trabalho em dez anos. Ficamos parados no tempo por causa daquele chute. Atrapalhou a igreja, atrapalhou todos os nossos projetos. Nós estaríamos lá na frente, poderíamos ter ajudado muito mais gente se não fosse aquele ato impensado."

O ataque a Nossa Senhora: o maior erro

O DÍZIMO

"O que justifica a cobrança do dízimo?

Veja o exemplo da terra arrendada a um trabalhador: depois de cultivada, 50% do que dela se retira é do dono da terra, a outra metade é do arrendatário. Na igreja, os primeiros 10% são colocados na obra de Deus. Ele é o dono da terra, de nossa vida. Esse gesto é um sinal de consideração, de respeito e de fé. Não é um ato abstrato, teórico. É um compromisso que revela a fé prática. A de que Deus fica obrigado a esse compromisso com a pessoa que deu o dízimo, fica obrigado a cumprir a promessa que está na Bíblia: 'Trazei o dízimo e eu abrirei as janelas do céu.' Além disso, não impomos nada. Não cobramos o dízimo de ninguém. Apenas conscientizamos as pessoas dessa prática. É questão de colocar Deus em primeiro lugar na vida. (...) "

A BANCADA EVANGÉLICA

"A bancada evangélica hoje é respeitável, embora tenha diminuído nos últimos tempos. Tem representantes nas principais esferas do Poder Legislativo. São sete deputados federais, dezenove deputados estaduais, 91 vereadores e um senador da República integrantes da Universal. (...)

– Os políticos são para defender a causa do Evangelho. Para fazer frente a todos os movimentos de perseguição que enfrentamos. Edir Macedo assegura: apesar das especulações, nunca pensou em candidatar-se à Presidência da República.

– Mas, se eu fosse presidente, este país seria outro. Meu primeiro ato seria proibir o gasto de um centavo sem a minha autorização. Você iria ver este país mudar. Os corruptos iriam passar fome."

O PAPA BENTO XVI

"Exclusivamente um político. Mais nada. O que ele e o restante do clero fazem o tempo todo é apenas ditar regras, impor normas, em sua maioria contrárias à Bíblia. É só checar. São regras e mais regras, uma atrás da outra. Não pode fazer sexo, não pode usar camisinha, não pode planejar a família, a mulher não pode ter o direito de abortar, o segundo casamento é uma praga, sexo é somente para procriação, a Igreja Católica é a única verdadeira igreja de Cristo, os evangélicos são uma seita e por aí vai. Como ter uma opinião diferente?"

A COMPRA DA RECORD

"A transação era ousada. Entrou para a história como o maior negócio no setor de comunicações do país até então. As cifras assustaram especialistas do mercado. Não era comum uma empresa de rádio e televisão ser vendida por aquele valor no Brasil. No total, Edir Macedo assumiu uma dívida de 45 milhões de dólares ao adquirir a Record. Da quantia acertada, 14 milhões deveriam ser depositados logo no início. O restante, 31 milhões, seria pago à família Machado de Carvalho e a Silvio Santos ao longo de dois anos."

"A expressão do bispo Macedo muda ao recordar de uma manhã em seu escritório na Rádio Copacabana, centro do Rio de Janeiro. Sobre sua mesa, após horas de reuniões, os números da dívida da Record. O bispo pediu licença, trancou-se sozinho no banheiro e rezou.

– Coloquei minha cara no chão e chorei, chorei. (...)

Mas o inacreditável aconteceu meses depois, pontualmente no dia 15 de março de 1990, com o lançamento do Plano Collor. (...) As prestações do bispo Macedo, baseadas na cotação da moeda estrangeira, despencaram. As dívidas da compra da Record, antes exorbitantes, acabaram pagas com facilidade. Edir passou a zerar duas, até três prestações em um único mês. Antes de 1992, o bispo Macedo já quitara integralmente a dívida.

– Fui salvo pelo gongo. O Plano Collor só ajudou a mim no Brasil inteiro, mais ninguém. Sorte? Coincidência? Cada um acredite no que quiser. Eu tenho certeza que foi Deus. "

"Perguntamos se enfrentaria tudo novamente pela compra da Record.

– Não. Sinceramente, acho que não. Hoje eu não iria agüentar. Ninguém imagina o que passei, nem minha mulher sabe o que vivi.

Edir larga os talheres apoiados no prato, escorrega a mão direita pela cabeça e nos mira por cima dos óculos.

A resposta ganha tom de confissão:

– Quer saber a verdade? Se eu não cresse no meu Deus, teria dado um tiro na cabeça."

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

ENTENDENDO A INTERNET


Marcial Salaverry

Para entender a Internet, vamos considerá-la como sendo um daqueles convidados que chegam para um papinho de 5 minutos, e acabam se hospedando em nossa casa, ocupando o banheiro com a porta aberta, roncando alto e, convenhamos, realmente enche o saco, porque começa a tomar conta de nossa casa...

Mas, apesar do pesares, é uma pessoa muito simpática, que nos faz rir (às vezes), que acaba se tornando figura importante dentro de casa. Quando fica doente então, é um autentico Deus nos acuda (como vou viver sem ela ?). Eu estou pensando seriamente em criar um Convênio Internético, para tratamento de computadores. Que acham dessa idéia ? Vamos bolar a coisa. Afinal, acho que associados é o que não vai faltar.

Bem, analisemos a utilidade encontrada para essa, digamos, essa COISA.

Tem gente que só a quer como passatempo, pois tem um montão de joguinhos bacanas, e para quem tem paciencia, tem uma tal de paciencia, que acaba com a paciencia de quem não a tem, e resolve jogar um pouquinho.

Tem gente que a quer como companheira fiel, pois aceita tudo que você quer falar, e não discute, nem discorda, nem diz...nada. Por vezes cala-se completamente e sai fora do ar. E é aí que mora o problema.

Tem gente que a quer como amante, com o tal do sexo virtual (sou muito mais o método antigo...).

Tem gente que a quer como fonte de recursos, então vasculha todas as suas possibilidades para faturar algum. Até agora quem ganhou alguma coisinha com isso, foi um tal de Bill...não sei das quantas...Watergate ?

Tem gente que a quer como psicóloga. Então a usa para desabafos. Realmente, é uma das boas finalidades, pois sempre é bom desabafar, pois se a resposta do, digamos, receptor não agrada ao desabafante, basta deletar.

Tem gente que quer para reclamar, xingar, espernear. Aí, é ótima, pois basta descobrir-se o e-mail do objeto de nossas queixas, e tome pau. Como é à distancia, a reação fica complicada. Se bem que geralmente tais broncas se perdem no espaço, pois o destinatário ao ver que vai se chatear, limita-se a deletar, e ponto final.

Infelizmente, tem também aqueles que a desejam só para fazer o mal. E tome propagação de vírus, e tome hackers fazendo sandices, e tome clonagem de e-mails, e uma pá de coisas difíceis de digerir.

Bem, anda existe muita coisa para ser analisado sobre essa maquininha de fazer doidos, mas para não dar mais um motivo de reclamações, vou parando por aqui, pois todos estão carecas de conhecer os prós e os contras da coisa, mas eu tinha que falar alguma coisa.

Ainda sobre computador: Caso alguém não saiba, a grande diferença que existe entre HARDWARE e SOFTWARE: Soft, é a parte que você só xinga, e Hard, é a parte que você chuta.

Realmente, essa tal de Internet é, como diria famoso dirigente esportivo, "uma faca de dois legumes", pois se por um lado favorece nosso desenvolvimento tecnológico e nossos conhecimentos, por outro lado também favorece os instintos predadores de muitos idiotas que procuram especializar-se somente em espalhar o mal, seja através de vírus, seja através de brincadeiras daninhas, ou (pior ainda), procurando explorar a boa fé e os sentimentos de outras pessoas. Tem alguns que só procuram soltar "correntes de felicidade", prometendo benesses àqueles que espalharem. O lamentável em alguns desses casos, é que essas tais correntes, por vezes trazem mensagens lindíssimas que merecem ser espalhadas, mesmo sem as benesses prometidas. Então, para que abusar da boa fé? Se querem dizer algo de belo e aproveitável, passem aos amigos, que estes se encarregarão de espalhar, se realmente valer a pena.

Outro ponto negativo são algumas das "solicitações de ajuda". Infelizmente não se pode saber qual é a solicitação "séria", e qual a simples tentativa de "spam". Tem muitas pessoas que à simples visão de alguma solicitação de ajuda para alguém, já deleta o e-mail, pois não acredita mais em nada. Isto deveria ser encarado com mais seriedade.

Agora o outro "legume". Que coisa bacana é a Internet bem usada, nem vou falar das facilidades de comunicação, e otras cositas más. Só quero salientar que, na minha opinião, o melhor da Internet, é que as pessoas se animam mais a certos desabafos, a contar certas mágoas ou problemas que, pessoalmente, cara a cara, sempre fica mais difícil falar. Mas, via Internet, com as pessoas longe, podemos "soltar a franga", contar problemas que nos afligem. Sempre alguém tem alguma coisa de bom para ser dito. E só o fato de soltarmos o que estava preso lá dentro, já alivia o problema.

Além disso, notei outra coisa muito interessante. Tenho encontrado muitas pessoas com uma grande afinidade de idéias, que pensam de uma maneira semelhante, possibilitando diálogos interessantíssimos e isso, sem essa tal de Internet, não seria possível.

O mais certo seria que eu nunca, jamais, em tempo algum, teria conhecimento da existência de um número cada vez maior de doidos e doidas que pensam da mesma maneira. E não tenho dúvidas de que outras mais virão. Vocês não acham que é ótimo descobrir que você não está sozinho no mundo?

E com essas idéias, vamos aproveitar a Internet, para desejar a um montão de gente, UM LINDO DIA.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

COMO ALCANÇAR A FAMA (ou se cansar tentando...)


(Antonio Brás Constante)

Para se alcançar à fama hoje em dia (mesmo que por alguns minutos), podemos recorrer aos chamados “se vira nos trinta” que são exibidos por aí. Até um pretenso escritor (assim como eu), poderia tentar tornar seu nome conhecido. Bastaria entrar no palco e desafiar alguém da platéia a sugerir um tema qualquer, que seria transformado em um pequeno poema nos poucos segundos permitidos. Porém, tal idéia dificilmente passaria pela produção dos programas de televisão, que não teriam interesse em incitar as pessoas a buscarem prazer na literatura.

Outra alternativa seria tentar o BBB, onde geralmente escolhem gente jovem e com barriga de “tanquinho”. Como não disponho desses atributos físicos, poderia argumentar que todas as pessoas são jovens, indiferente de terem oito ou oitenta anos, pois a juventude repousa em nossas mentes, através de um estado de espírito que pode perdurar a vida inteira. Diria que apesar da beleza física agradar aos olhos, se não houver o chamado brilho interior, ela se deteriora, perdendo totalmente o encanto. Quanto à barriga tanquinho, me apresentaria como um homem moderno, que exibe uma barriga do tipo: “lavadora-de-roupas-extragrande” (muito superior a qualquer tanquinho). Ainda assim, acredito que estes argumentos não sensibilizariam os tais caça-talentos a procura de bombados.

Restaria ainda uma opção voltada para planos mais marginais. Por exemplo, se eu assassinasse de alguma forma a língua portuguesa, poderia ganhar espaço no programa “linha direta”. Cheguei a fazer uns testes discretos, como no caso do texto sobre caminhadas, onde ao invés de “suaram” escrevi “soaram”. Esperei pelo pior, mas apenas o Boni (amigo e leitor), me avisou do erro, referindo-se a ele como uma licença poética (?) vinda de minha parte. Também lembrei que no Brasil as pessoas se deparam com todo tipo de violência. Sendo assim, provavelmente não dariam qualquer importância aos erros de português que porventura depreciassem a imagem de um humilde aprendiz de escritor.

A ultima alternativa seria publicar a biografia não autorizada de alguém que estivesse disposto a proibi-la. Mas, para não ter que efetuar anos de pesquisa e correr riscos quanto a sua não proibição, escreveria uma biografia não autorizada de mim mesmo. Depois me processaria (sem utilizar serviços de advogados). Por fim lançaria uma cópia na internet e ficaria torcendo para que a opinião pública adorasse ou odiasse tal atitude, divulgando-a ou criticando-a em todos os veículos de comunicação existentes.

Enfim, muitos acham que para se conquistar à fama vale tudo. Porém, o que realmente importa é reconhecermos nossa própria vocação, utilizando-a como algo positivo em nossas vidas. Pois fama e sucesso podem ser alcançados através do dinheiro. Já o talento é algo que não se compra. Não é um mero enfeite de estante, é uma ferramenta que fica guardada dentro de nós, pronta para ser usada na busca da felicidade.

DAR SEM RECEBER, NÃO É UMA TROCA JUSTA


Ninguém sabe o ponto certo de se doar e quanto vale a pena. É verdade... Às vezes, não vale. A gente se dá sem querer nada em troca. Por quanto tempo conseguimos encher copos de água para o outro, enquanto morremos de sede? Não será essa atitude uma maneira de simplesmente alimentar o egoísmo do outro?

É cômodo apenas receber...

(Débora Böttcher)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

REFLEXÕES


Autora: Sara Maria Binatti dos Anjos

Sou uma pessoa comum. Fui criada com princípios morais comuns.

Quando criança, ladrões tinham a aparência de ladrões e nossa única preocupação em relação à segurança era a de que os "lanterninhas" dos cinemas nos expulsassem devido às batidas com os pés no chão quando uma determinada música era tocada no início dos filmes, nas matinês de domingo.

Mães, pais, professores, avós, tios, vizinhos eram autoridades presumidas, dignas de respeito e consideração. Quanto mais próximos, e/ou mais velhos, mais afeto. Inimaginável responder deseducadamente a policiais, mestres, idosos, autoridades. Confiávamos nos adultos porque todos eram pais/mães de todas as crianças da rua, do bairro, da cidade. Tínhamos medo apenas do escuro, de sapos, de filmes de terror.

Ouvindo hoje o jornal da noite, deu-me uma tristeza infinita por tudo que perdemos. Por tudo o que meu filho precisa temer. Pelo medo no olhar de crianças, jovens, velhos e adultos. Matar os pais, os avós, violentar crianças, sequestrar jovens, roubar, enganar, passar a perna, tudo virou banalidades de notícias policiais, esquecidas após o primeiro intervalo comercial.

Agentes de trânsito multando infratores são exploradores, funcionários de indústrias de multas. Policiais em blitz são abuso de autoridade.

Regalias em presídios são matéria votada em reuniões. Direitos humanos para criminosos, deveres ilimitados para cidadãos honestos. Não levar vantagem é ser otário. Pagar dívidas em dia é bancar o bobo, anistia para os caloteiros de plantão. Ladrões de terno e gravata, assassinos com cara de anjo, pedófilos de cabelos brancos.

O que aconteceu conosco? Professores surrados em salas de aula, comerciantes ameaçados por traficantes, grades em nossas portas e janelas. Crianças morrendo de fome, gente com fome de morte.

Que valores são esses? Carros que valem mais que abraço, filhos querendo-os como brindes por passar de ano. Celulares nas mochilas dos que recém largaram as fraldas. TV, DVD, telefone, video game, o que vai querer em troca desse amasso, meu filho? Mais vale um Armani do que um diploma. Mais vale um telão do que um papo. Mais vale um baseado do que um sorvete. Mais valem dois vinténs do que um gosto.

Que lares são esses? Bom dia, boa noite, até mais. Jovens ausentes, pais ausentes, droga presente e o presente uma droga.

O que é aquilo? Uma árvore, uma galinha, uma estrela. Quando foi que tudo sumiu ou virou ridículo?

Quando foi que senti amor pela última vez? Quando foi que esqueci o nome do meu vizinho? Quando foi que olhei nos olhos de quem me pede roupa, comida, calçado sem sentir medo? Quando foi que fechei a janela do meu carro? Quando foi que me fechei?

Quero de volta a minha dignidade, a minha paz e o lugar onde o bem e o mal são contrários, onde o mocinho luta com o bandido e o único medo é de quem infringe, de quem rouba e mata. Quero de volta a lei e a ordem. Quero liberdade com segurança. Quero tirar as grades da minha janela para tocar as flores. Quero sentar na calçada, e minha porta aberta nas noites de verão. Quero a honestidade como motivo de orgulho. Quero a retidão de caráter, a cara limpa e o olho no olho. Quero a vergonha, a solidariedade e a certeza do futuro. Quero a esperança, a alegria.

Eu quero ser gente e não peça de um jogo manipulado por TV a cabo.

Eu quero a notícia boa, a descoberta da vacina, a plantação do arroz. Eu quero ver os colonos na terra, as crianças no colégio, os jovens divertindo-se, os velhinhos contando histórias.

Eu quero um emprego decente, um salário condizente, uma oportunidade a mais. Uma casa para todos, comida na mesa, saúde a mil.

Quero livros e cachorros e sapatos e água limpa. Não quero listas de animais em extinção. Não quero clone de gente, quero cópia das letras de música.

Eu quero voltar a ser feliz! Quero dizer basta a esta inversão de valores e ideais.

Quero mandar calar a boca quem diz "a nível de", "neste país", "enquanto pessoa", "eles tem que", "é preciso que".

Quero xingar quem joga lixo na rua, quem fura a fila, quem rouba um lápis, quem ultrapassa a faixa, quem não usa cinto, quem não paga a conta, quem não dignifica meu voto. Quero rir de quem acha que precisa de silicone, lipoaspiração, implante, dieta, cirurgia plástica, conta no banco, carro importado, laptop, bolsa XYZ, calça ZYX para se sentir inserido no contexto ou ser "normal".

Abaixo a ditadura do "tem que", as receitas de bolo para viver melhor, as técnicas para pensar, falar, sentir! Abaixo o especialista, o sabe-tudo rodeado de microfones e câmeras!

Abaixo o "ter", viva o "ser"!

E viva o retorno da verdadeira vida, simples como uma gota de chuva, limpa como um céu de abril, leve como a brisa da manhã!

E definitivamente comum, como eu.