segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Quando o latido é maior do que o cachorro
Ainda não sei dizer exatamente quanto tempo vai durar a euforia mundial em torno da eleição de Barack Obama. Talvez dure o suficiente para causar muitos estragos e desenganos entre os milhões que votaram desejando mudança. Ou não. Talvez, quem sabe, nem dure tanto tempo assim, pois as principais peças do tabuleiro de xadrez já começaram a se mexer.
Com seu neoliberalismo afiado e suas guerras assassinas, a Era Bush deixou na história uma enorme mancha de sangue, um déficit fiscal gigantesco e um recorde de impopularidade. Amargando uma rejeição de mais de 70%, o xerife texano acabou sujando demais a imagem da espoliação imperialista. Os milhões que disseram “sim” ao Barack estavam, na verdade, dizendo “não” à política representada por Bush. Não foi à toa que a campanha de Obama se apoiou no slogan de “mudança”.
Tudo o que a grande burguesia norte-americana desejava era um novo rosto para camuflar sua política de rapina pelo mundo. Precisava de alguém que pudesse segurar a crescente onda de insatisfação no planeta, alguém que criasse esperanças de dias melhores nos corações de uma infinidade de pessoas. Era preciso alguém que fizesse tudo isso, e que continuasse com os saques do imperialismo. A burguesia norte-americana encontrou no jovem, negro e carismático senador de Illinois o rosto ideal.
Entretanto, muitos podem argumentar: “Ora, mas você vai negar que a eleição do primeiro presidente negro dos EUA é um marco na história desse país?”. Não, de modo algum. Isto é inegável, sobretudo em um lugar que tem a história marcada pela desgraça do racismo. Mas o fato é que, em alguns momentos da vida, é preciso ceder um pouco para não perder tudo. O imperialismo fez uma concessão histórica ao permitir que um negro chegasse à presidência. No entanto, só o fez porque estava em jogo algo mais importante do que a cor da pele. “Negócios são negócios. E não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos.”, imagino que estejam dizendo agora os magnatas.
De todo modo, Obama sofreu bem menos do que a maioria dos negros pobres de seu país. Formou-se em Direito em Harvard e se tornou um patrício. É um fiel defensor dos interesses capitalistas. E isso também não se pode negar. Ele e McCain foram financiados pelos mesmos senhores. O setor financeiro, por exemplo, agraciou os dois candidatos com quantias semelhantes. Os bancos, seguradoras e imobiliárias deram a McCain cerca de US$ 15 milhões. Obama recebeu US$ 16 milhões.
O que há ao redor de Obama é uma grande ilusão, em especial por parte dos trabalhadores negros e latinos. E isso é outra coisa inegável. O problema com as ilusões é que elas, além de atrasar as vidas, costumam deixar profundas decepções entre as pessoas. Obama passou toda a campanha ligando seu nome à palavra mudança. No discurso da vitória, reforçou a idéia com a frase “a mudança chegou à América”. Não há o que estranhar até aqui. Esquisito seria se ele ganhasse as eleições dizendo a verdade. Algo como “Olhem, eu sou o continuísmo! Atenção! Vou salvar os capitalistas e deixar os pobres e negros a ver navios!”. Isso, sim, seria estranho. Obama é a representação típica daquela imagem na qual o latido é maior do que o cachorro. Com promessas mentirosas e apoiado num discurso de transformação, o democrata latiu muito alto e acabou gerando ilusões. Mas, definitivamente, não é o cachorro grande que os povos oprimidos pensam que ele é.
Bush vai sair e deixar um pepino para Obama descascar. O aprofundamento da crise econômica não irá permitir titubeações. Ou se estará de um lado ou se estará do outro. E o presidente eleito nem de longe se assemelha a um vacilante. Antes mesmo de assumir a Casa Branca, já deu demonstrações do lado que escolheu. Ainda durante a campanha, enquanto milhões de famílias perdiam suas casas, Obama aprovou o plano de Bush de US$ 700 bilhões para socorrer os bancos. No que diz respeito às guerras, falou em tirar tropas do Iraque e colocar no Afeganistão, o que na prática não muda nada. Também já engrossou o discurso pra cima do Paquistão e do Irã, prometendo apontar os canhões de sua “democracia” para este último se continuar insistindo com essa história de pesquisa nuclear.
Já eleito, Obama começou a montar sua equipe de governo. Em meio aos escolhidos, alguns republicanos estão cotados para o governo. É pra acabar com essa conversa de que há diferenças entre democratas e republicanos. A confusão vai ficar mesmo é na cabeça de quem achou que a mudança havia chegado.
Mundo afora, as revistas estampam manchetes nas quais ponderam: seria Barack Obama um messias? Talvez. Mas um messias que veio para salvar apenas um dos lados, pois a história dos homens já mostrou a impossibilidade de salvar os dois. O mundo adora Obama. E o capitalismo também.
sábado, 25 de outubro de 2008
Por que Lula acordou na crise
Três motivos levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a acordar em relação à crise econômica internacional e os seus efeitos sobre o Brasil.
Na viagem internacional da semana passada, quando visitou cinco países em três continentes, Lula viu que a crise tinha atravessado não apenas o Atlântico, mas também o Índico e o Pacífico. Ou seja, era global mesmo.
Ouviu na Índia, segundo auxiliares, que o país já sentia efeitos na economia real. A Índia é um dos países emergentes que mais crescem no mundo. Na visita de um ano antes, Lula encontrara uma nação muito confiante no cenário econômico. O cenário agora é outro.
De volta ao Brasil, Lula teve contato com o segundo dos motivos que o fizeram abandonar o tom otimista e assumir uma avaliação pública mais realista.
O setor financeiro brasileiro fora vendido ao presidente como sólido, mas essa informação estava parcialmente incorreta. Ele ficou sabendo que há, sim, riscos pontuais. Medidas já adotadas pelo Banco Central haviam surtido pouco efeito. Pequenos bancos estavam sofrendo muito, e poderia sobrar até para instituição de grande porte.
Ou seja, confusão no sistema financeiro neste momento, quando o crédito começa a destravar, seria um tiro no pé do crescimento econômico do ano que vem.
O terceiro motivo tocou na alta popularidade. Empresas da chamada economia real fizeram chegar ao governo que poderiam viver fortes problemas no segundo semestre de 2009. Essas companhias empregam muita gente. Tudo o que Lula não deseja é uma onda de desemprego na virada de 2009 para 2010, seus dois últimos anos no poder. O petista espera deixar o Palácio do Planalto com boa avaliação e sonha eleger a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como sucessora.
Reunidos, os três motivos explicam a rápida edição da medida provisória 443, articulada no intervalo d e uma semana. Essa MP tem alcance mais amplo do que medidas adotadas em países ricos. O governo brasileiro não possui a munição dos EUA nem da Inglaterra, mas criou um instrumento legal que permite aos bancos oficiais se tornar sócios de qualquer empresa brasileira em dificuldade.
A MP 443 é uma medida pontual que vale por um pacote.
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Maré baixa e maré alta
A medida provisória 443 tem sido chamada de MP da estatização. Mas Lula foi bem claro. Se necessário, vai usar os bancos oficiais para comprar participação acionária de empresas, sobretudo da economia real. No entanto, deseja vender tais ações na maré alta e mostrar que usou dinheiro público de forma responsável.
Ressalva: eventuais compras do Banco do Brasil no setor financeiro que reforcem o cacife da instituição do ponto de vista estratégico poderão ser definitivas.
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Em ondas
Um integrante do governo Lula que participou das crises na administração FHC fez um alerta importante ao Palácio do Planalto. Crises internacionais acontecem em ondas. Por isso, o governo não deveria baixar a guarda e achar que o Brasil sofreria apenas uma marola.
Kennedy Alencar, 40, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.Também é comentarista do telejornal "RedeTVNews", no ar de segunda a sábado às 21h10.
E-mail: kalencar@folhasp.com.br
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
O que é preciso para ser candidato
O que leva uma pessoa a se candidatar a prefeito de uma cidade, de qualquer porte, é algo a se pensar com muita atenção. O candidato deve ter algum tipo de desvio, não é possível que assim não seja. Em sã consciência, quem gostaria de ser comparado a juiz de futebol ou gastar um dinheirão para se eleger, sabendo que não vai receber de volta e que por mais que se esforce não vai agradar a todos.
O candidato é uma figura digna de estudo dos mais renomados psicólogos lá do Mont Serrat, que disputam com os profissionais da Boa Viagem o cetro de melhores cérebros da Cidade Baixa. Um candidato para conseguir voto bebe na mesma caneca do banguela. Aceita tomar café em copo com o fundo sujo e cheio de borra. Almoça várias vezes no mesmo dia e come de buchada de bode a meninico de carneiro, sem direito a fazer cara feia, mesmo sendo vegetariano.
O candidato come comida sem sal, come comida com muito sal. Come feijoada fria e toma cerveja quente. Come em lata de goiabada fazendo a vez de prato, e tira um cochilo no colchão de onde o dono da casa expulsa Rex e suas pulgas. Aperta mão de cotó, beija criança remelenta e chama de “minha linda” menina que de tão feia o espelho arrebenta. Bate pênalti ou dá o primeiro chute em torneio de futebol dentro do curral.
Para piorar tem de dar bom dia a maluco, abraço no bêbado e acenar para os desconhecidos, como se fossem amigos de infância. Tem sempre de estar com uns trocados no bolso, pois sempre vai aparecer aquela mãe com a criança no colo pedindo dinheiro pro remédio ou para comprar leite e aproveitar para falar mal do marido ausente.
Candidato bom vai a velório de quem não conhece, nunca ouviu falar e nem sabe quem é, faz discurso tão tocante que até mesmo ele acredita e chora de verdade, deixando filhos e viúva abestalhados de ver e ouvir e vaidosos pela presença tão ilustre num momento de dor. È preciso mostrar que é macho e, portanto, tem de subir no lombo do jegue e participar da corrida. Tem de matar um boi para acalmar a fome dos acólitos. Tem de conviver dentro de casa com todo tipo de gente, que o chama pelo nome, come o que tem no fogão, bebe o que tem na geladeira e ainda mexe com suas filhas. Caras que nunca viu na vida, mas candidato não pode fechar as portas.
Coisa ruim de agüentar é carregar nos braços afilhado da hora, e ali mesmo, ter de comprar o enxoval do bebê, pois não basta o candidato ser compadre. Tem de participar. Pior é quando seguram em seu braço e à voz pequena alguém, garante no pé do ouvido, que soube de boca pequena que ele está eleito. E pede um adjutório. Muitos garantem ter milhares de votos e na hora do vamos ver nem ele votou no candidato. Mas não deixou de pegar uma graninha para a gasolina.
Candidato tem de participar de debate em escolinha, vendo que a diretora da escola está feliz com sua presença e a criançada esperando o sinal de ir embora. É preciso ajudar a bater laje, mesmo sabendo que vai ter de se encher de antiinflamatório para diminuir as dores da hérnia de disco. Tem de pisar na lama e pular cerca. Tem de subir escadas que vão dar no céu e enfrentar cachorro vira-lata. Não pode esquecer de chamar todo mundo pelo nome. Candidato bom tem de ter boa memória.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
CONTABILIDADE DELIRANTE
As Olimpíadas de Pequim terminram, mas os jornais e sites continuam realizando uma contabilidade delirante sobre a relação entre os investimentos do país nos chamados esportes amadores e o número de medalhas obtidas. Numa conta digna do Chapeleiro Maluco, de Alice no país das maravilhas, alguns jornalistas argumentam que o Brasil teria investido R$ 654,7 milhões, logo cada medalha custaria R$ 50,4 milhões. Suponhamos que você tenha cinco filhos se preparando para o vestibular e gastou, durante um ano, R$ 60 mil reais. Ao final do ano, só três passaram pela triagem do vestibular, portanto, cada filho aprovado custou R$ 20 mil reais.
Enquanto isso, as questões verdadeiramente relevantes não entram na pauta e escapam de nossa atenção. Somente vozes isoladas e lúcidas têm clamado no deserto para lembrar que o ranking que deveria efetivamente nos preocupar era o da educação, da saúde e distribuição de renda. Uma dessas vozes é a do Juca Kfouri e a outra é a do senador Cristovam Buarque. Juca acha que, em vez de ficarmos ressabiados, nós deveríamos dar graças aos deuses pelo fato do Brasil ter ganho só três medalhas de ouro. O Brasil precisa é associar uma política de esporte a educação, saúde e inclusão social. As medalhas são apenas conseqüência. Ele lembra que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cada dólar investido em esporte economiza três em saúde.
Se não me engano, no ano passado, um grupo de uma das torcidas organizadas do Corinthians visitou o campo aonde os jogadores treinavam e fez a ameaça: “Ô meu, nossa alegria de fim de ano depende de vocês. Vocês não podem perder porque senão nós vamos sofrer gozações da torcida do Palmeiras”. Que pobreza de espírito! É assim que nós estamos nos relacionando com o esporte. Nós queremos transferir e purgar todas as nossas frustrações históricas no futebol ou nos esportes olímpicos. Em vez de espaço para aprender a ganhar, perder e superar, o esporte se degradou em campo para o exercício do ódio.
Por isso, em respeito ao seu amor pelo futebol, o cantor Lobão decidiu se desconectar completamente dos estádios, da televisão e do Flamengo. Não agüentou mais ver a camisa do seu time invadida pela logomarca do patrocinador, um torcedor do Flamengo querendo matar o outro só porque este torcia para o Vasco, os jogadores saindo na revista Caras e virando pagodeiros mauricinhos: “Logo eles compram um carro Mitsubishi e se envolvem em um desastre igual às duplas de música sertaneja. Depois, um faz a carreira solo e o outro a carreira subsolo”.
Com certeza, existe uma relação entre a deterioração dos esportes e a ausência de uma política de educação. Somente 12% das escolas brasileiras contam com uma quadra de esportes. Enquanto isso, o que rouba a cena é a discussão se os brasileiros “amarelam” ou não na hora da decisão. As meninas do vôlei deram uma bela lição do esporte como espaço de educação, superação, aprendizagem com os revezes. E sem perder a singularidade brasileira.
Francamente, não tenho inveja nenhuma daqueles e daquelas robôs programados para sentirem a emoção na hora certa. Foi sensacional as meninas do vôlei mandando beijos para a avó, a tia e a mãe depois da vitória. É isso que nós não podemos perder. Está tudo virado de cabeça para baixo. O ranking que nós não podemos perder é o da educação, da saúde, da inclusão social e do trabalho.
sábado, 2 de agosto de 2008
O MUNDO JÁ NÃO É MAIS O MESMO
Autor desconhecido.
O mundo já não é mais o mesmo há muito tempo. O chavão popular, repetido pelos mais velhos naquela singela comparação, "no meu tempo era melhor", nunca vestiu tão perfeito tal qual uma luva como em 2008., "os dias passam voando" - a sensação de que vivemos o século XXI nunca foi tão presente. A velocidade domina o cotidiano com uma sucessão de pequenos dramas, grandes tragédias, momentos ternos, palavras doces, outras nem tanto. Entre quedas, empurrões e arranhões, aos trancos e barrancos, regado a lágrimas ou iluminado em sorrisos, lá se vai 2008
E as promessas de ano novo? Para alguns o mundo prometeu ser um "tiquinho" mais leve, outro "tantinho" mais lento, que é para dar tempo de contemplar.
Olhando para o álbum de fotografias (digital, lógico), do ano velho, cenas que, à primeira vista, parecem, jamais serão esquecidas. Com certeza serão, dentro de mais um ano, talvez dois, depende do grau de apego de cada um às suas lembranças. O certo, certíssimo mesmo, é que, quando começar a faxina do armário e a limpeza do corpo e da alma para esperar 2009, os fatos de 2008 aparecerão meio descoloridos, esquálidos e espremidinhos lá nos recônditos da memória, sufocados pelo excesso de informação que 2009, ainda nem nascido, já traz na bagagem.
"O que passou, passou". Outro chavão? Aaaaah, mas assim fica fácil escrever um texto que se pretende um abre alas para a retrospectiva de 2007. De chavão em chavão se faz um editorial. Mas, neste ano veloz, em que a TV Digital engatinha no Brasil, nada vai passar assim tão depressa. Talvez, a faxina para liberar espaço no disco rígido e receber 2010, opa, avancei demais no tempo, "rebubina a fita", para receber 2009, precise de doses generosas de sal grosso, litros de alfazema e caixas com tampas resistentes para guardar momentos que, lá vai um chavão: "ficarão marcados na história".
E de 2007?
Dá para esquecer que a Fonte Nova desabou? Naquela que já é considerada uma das piores tragédias do esporte baiano, talvez até nacional? E o estoicismo de D. Luiz Flávio Cappio, 23 dias seguidos sem botar um naco de pão na boca, tudo em prol de levar a Bahia e o resto do Brasil a refletir sobre a faraônica obra de transposição do rio São Francisco? Com certeza os livros de história vão guardar registros, nem que seja num cantinho de pé de página, do embate entre as vontades do bispo e do presidente Lula. Nessa queda de braço compassada pelas contas do rosário, ganhou a vontade do presidente.
Alguém vai conseguir esquecer que 2007 foi o ano das tragédias aéreas? Caiu avião da TAM, caiu avião na Tailândia, caiu boeing na Nigéria, caiu bimotor na Bahia. Dois: um em Maracangalha - coitado de Caymmi, ainda bem que ele não vai mais lá e se for, que não vá de avião - e outro pertinho, ali mesmo no aeroporto internacional de Salvador.
Que a voz de "Tutto" Pavarotti não vai mais embalar as propagandas de cartão de crédito e carro do ano, vocês lembram? E que Boris Yeltsin se foi, levando com ele os ecos de uma era? E os artistas e músicos e bailarinos e cineastas e jogadores de futebol, heim? Paulo Autran, Nair Belo, Maurice Bejárt, Ingmar Bergman, o meia Cléber... todos deixam uma lacuna futuramente preenchida pelas “promessas da nova geração”.
Dá para ignorar o mico presidencial assistido em cadeia nacional pelo mundo todo? “Por que no te calas”. De um lado o rei Juan Carlos, investido de toda a sua antiqüíssima majestade espanhola. Do outro, Hugo Chávez, um homem que consegue misturar de uma só vez as qualidades de herói do povo e pedra no sapato, sem falar na chatice, porque Chávez é uma mala.
Outro contêiner pesado em 2007, George Bush, que merece o troféu Sem Noção de Ouro. Na boca do presidente americano só falta ouvirmos a frase celebrizada pelo ratinho do desenho animado: “Amanhã faremos o que fizemos hoje, tentar dominar o mundo Pink”.
Mas, como diz um amigo meu, repetindo a frase já passada de boca em boca à exaustão por milhares de brasileiros: “A Copa de 2014 é nossa”. Se o caneco virá, aguerridamente conquistado nos gramados nacionais, só o futuro sabe. Mas ao sonhar com 2014, ao planejar os estádios de 2014, ao construir os hotéis de 2014, ao escolher o uniforme canarinho de 2014, não estamos avançando no futuro e trazendo-o para cá, para seis anos antes, para o nosso presente?
Pois então, que 2008 passe para a história da memória coletiva mundial como o ano em que os ponteiros do tempo endoidaram e o século XXI desfilou inteirinho bem diante dos nossos incrédulos olhos.
domingo, 27 de julho de 2008
OBAMA, CANDIDATO DO MUNDO, E UMA FALA DE JABOR
| Se em meu ofício, ou arte severa,/ Vou labutando, na quietude/ Da noite, enquanto, à luz cantante/ De encapelada lua jazem/ Tantos amantes que entre os braços/ As próprias dores vão estreitando —/ Não é por pão, nem por ambição,/ Nem para em palcos de marfim/ Pavonear-me, trocando encantos,/ Mas pelo simples salário pago/ Pelo secreto coração deles. (Dylan Thomas – Tradução de Mário Faustino) |
| Sábado, Julho 26, 2008 |
Sempre se disse, num rasgo hiperbólico, que o presidente dos Estados Unidos é tão importante e tem tanta influência que deveria ser eleito numa espécie de pleito mundial. Pois é. Tanto Barack Obama como John McCain — e o democrata com mais sucesso — parecem querer fazer valer essa máxima. Estão interessados em conquistar o olhar estrangeiro, como a marcar o encerramento de oito anos do suposto isolacionismo de George W. Bush. Um se encontra com o presidente da Colômbia e com o dalai-lama. Outro discursa em Berlim e posa depois ao lado de Sarkozy, na França. Há, evidentemente, uma diferença brutal de carisma entre eles — o democrata, um janota negro a quem certo entusiasmo pretende atribuir virtudes redentoras, vai seduzindo milhões por onde passa. Se eu pudesse votar, vocês sabem em quem eu votaria: em McCain. Até agora, não entendi de onde vem tanto encanto com Obama. Entendo, claro, que as esquerdas do mundo o vejam como o anti-Bush — e, pois, um suposto avesso de tudo o que faz, sei lá, a direita nojenta... Mas a verdade é que ele também não é exatamente o que dele se diz. Admiro muita coisa em Arnaldo Jabor. Já tivemos uma conversa agradável, cordial, simpática. Mas o comentário que ele fez ontem, no Jornal da Globo, parece-me ser o emblema de uma ilusão que não é só dele. Reproduzo e comento em seguida: “O mal sempre vence. Ou quase sempre. Mas pode ser que história, às vezes, se canse do erro e tenha espasmos de mudança. Depois de uma década do que Norman Mailer chamou de ‘tempestade de bosta’, de egoísmo, de elogio da guerra, desprezo pelos pobres, atraso mental, fundamentalismos estúpidos, pode ser que Obama seja um desejo histórico novo, não só do maior país, mas do mundo. Obama encarna os melhores temas do progresso humano, psicológicos, filosóficos, éticos. Ele representa a diferença diante do mesmo. A diferença que a razão trouxe para a humanidade e que o negro trouxe para a América. O que seria da América sem o jazz? E não é apenas a pessoa do Obama. Obama é que pode eleger uma nova América, que estava anestesiada sob os pés dos reacionários. Não só a América, mas o mundo também tem uma possibilidade de riquezas, hoje, de milagres científicos, culturais, que estão sendo subusados, esmagados pela estupidez dos velhos reacionários, como Bush e esse McCain, maquiado de democrata, mas da mesma laia. Um vento novo como Obama pode não apenas combater o mal do mundo, mas restaurar um bem perdido. Se bem que, às vezes, a gente pensa: é bom demais para ser verdade” Essa fala de Jabor explica as 200 mil pessoas em Berlim e o sucesso que o homem faz mundo afora. Acostumamo-nos a ver o nosso comentarista e cineasta a desconstruir o óbvio. Quando ele o repete, vê-se que o faz também com talento, embora a gente sinta falta da novidade, não é? Comentarei, abaixo, trecho a trecho a sua fala. Ele agora em vermelho e eu em azul. O mal sempre vence. Ou quase sempre. Mas pode ser que história, às vezes, se canse do erro e tenha espasmos de mudança. Depois de uma década do que Norman Mailer chamou de ‘tempestade de bosta’, de egoísmo, de elogio da guerra, desprezo pelos pobres, atraso mental, fundamentalismos estúpidos, pode ser que Obama seja um desejo histórico novo, não só do maior país, mas do mundo. Poderia ser só força de expressão, mas não é: Jabor realmente trabalha com a idéia de que a história tem uma espécie de cérebro — irracional quase sempre, racional às vezes. Um dos mitos do pensamento de esquerda, de que, parece, ele ainda não se livrou, é o de que a história tem um sentido e se move segundo uma ética — ainda que perversa. Pensar Obama segundo essa perspectiva não deixa de ser encantador porque seríamos tentados a vê-lo como um demiurgo. Mas, infelizmente, a história não tem cérebro nem sentido predeterminado. Não concordo que o mundo tenha vivido sob os auspícios do "desprezo pelos pobres" (o mundo nunca comeu tanto), do "elogio da guerra" (estou entre os que a consideraram necessária) ou do "atraso mental". Mas isso é questão de gosto. O que repudio, a aí com muita dureza, é o registro dos “fundamentalismos estúpidos”. Parece-me que Jabor esta se referindo a dois: ao islâmico, de Osama Bin Laden, e ao cristão, de George W. Bush. Aí deixa de ser questão de gosto ou de diferença de análise. No primeiro ano do governo Bush, os EUA foram vítimas de ataques planejados quando Clinton era o presidente. Ainda que os americanos tivessem ido à guerra em nome da cruz, restaria a Jabor demonstrar que o “terrorismo cristão” ameaça a estabilidade do mundo tanto quanto o islâmico. Não dá! Postas as coisas assim, terroristas e vítimas ficam em pé de igualdade moral. E eu abomino esse pensamento. Obama encarna os melhores temas do progresso humano, psicológicos, filosóficos, éticos. Ele representa a diferença diante do mesmo. Por quê? O que ele exibe, até hoje, além do discurso? E não faz tanta diferença, não, Jabor. Ele já recuou de sua promessa de retirar tropas do Iraque. Já falou em aumentar a presença americana no Afeganistão. Disse que, se preciso, invade até o aliado Paquistão — e aí você veria o que é, de fato, o inferno. E diz ao Irã rigorosamente o que anda dizendo George Bush. Ele só não quebrou a cara até agora porque sabe, quando necessario, representar a "mesmice diante do mesmo". A diferença que a razão trouxe para a humanidade e que o negro trouxe para a América. O que seria da América sem o jazz? Epa! Não seria difícil demonstrar que a razão matou tanto quanto a crença — na verdade, mais. Os maiores assassinos da história não estavam a serviço de um fundamentalismo religioso, mas de uma razão de estado. Eu não sei o que seria da América sem o jazz ou do Brasil sem o samba. O que sei é que a pele negra de Obama vem das terras tomadas pelo Islã, que é, vamos dizer, bem pouco musical... E não é apenas a pessoa do Obama. Obama é que pode eleger uma nova América, que estava anestesiada sob os pés dos reacionários. Não só a América, mas o mundo também tem uma possibilidade de riquezas, hoje, de milagres científicos, culturais, que estão sendo subusados, esmagados pela estupidez dos velhos reacionários, como Bush e esse McCain, maquiado de democrata, mas da mesma laia. Se eu pedisse para Jabor dizer quais são os grandes progressos da América e do mundo que aguardam Bush deixar o poder para sair da gaveta, ele certamente não conseguiria dizer. Porque inexistem. Ainda que ele me dissesse que Bush não dá dinheiro oficial, sei lá, para pesquisas com células-tronco embrionárias, a gente sabe que o país não depende do dinheiro oficial para fazer ciência — mesmo quando moralmente condenável. Jabor gosta de Obama e não gosta de McCain. Ok. Mas não é verdade — e não é porque os fatos o desmentem — que o candidato republicano seja “da mesma laia” de Bush. Ele foi mais crítico dos desacertos da guerra no Iraque do que Obama. Só não é irresponsável o bastante para dizer que vai tirar as tropas do país neste ou naquele prazos. Porque esta será uma das promessas que Obama não vai cumprir se for eleito. Um vento novo como Obama pode não apenas combater o mal do mundo, mas restaurar um bem perdido. Se bem que, às vezes, a gente pensa: é bom demais para ser verdade” Isso de combater o “mal do mundo” é só flerte com o messianismo. Qual é “o” mal do mundo? McCain teria ajudado a fazer um “bem” ao mundo se sua posição — contrária ao pacote agrícola votada pelo Congresso Americano e contrária ao imposto de importação do etanol brasileiro — tivesse saído vitoriosa. Mas ele foi derrotada pelos democratas, com o voto entusiasmado de Obama, que se mostrou nada menos do que um democrata protecionista de velha estirpe. Não tem nada de “bom demais pra ser verdade”, não. A parte de mim que pondera torce para que Obama perca a eleição. Uma outra, um tanto cínica, torce por sua vitória apenas para ver desvanecer-se uma ilusão. Por que comento a fala de Jabor? Só para torrar a sua paciência? Não! Este seu texto está sendo redigido, com variantes de estilo e segundo o talento de cada autor, em várias partes do mundo. Nunca um político de trajetória tão curta — e um tanto controversa — despertou tantas simpatias como Obama. E jamais se cobrou tão pouco de alguém. Dele jamais se exige que diga como vai fazer isso e aquilo. Basta que diga que vai fazer. E se abre, então, um mundo de esperanças. |
terça-feira, 8 de julho de 2008
Escola das Américas. Lula e Chávez não são tão diferentes", afirma Wallerstein
HERANÇA MALDITA
ANA FLOR
colaboração para a Folha, em Nairóbi
A chegada ao poder das esquerdas em muitos países latino-americanos ocorreu por conta de uma perda real de poder político dos EUA. A opinião é do sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, 76, pesquisador sênior na Universidade Yale e autor de "O Declínio do Poder Americano".
Depois de chegar ao poder, os governos de esquerda na região enfrentam o desafio de se manter no poder, o que só ocorrerá, segundo Wallerstein, se trabalharem para construir progresso social. O sociólogo compara Lula a Chávez e diz: "Eles não são tão diferentes assim". Presença assídua no Fórum Social, Wallerstein falou à Folha, em Nairóbi, no Quênia.
FOLHA - O sr. é um freqüentador assíduo do Fórum Social Mundial. Qual o mérito do encontro?
IMMANUEL WALLERSTEIN - Foi um feito enorme, que começou com uma iniciativa de um grupo de brasileiros, mas teve uma aceitação global porque preencheu uma necessidade de indivíduos e grupos sociais que lutam contra opressão, globalização e neoliberalismo. É o acontecimento mais importante de resistência na atualidade".
FOLHA - Como o sr. vê a situação atual da América Latina?
WALLERSTEIN - Nós vimos, nos últimos cinco anos, o crescimento de movimentos de esquerda da América Latina, com menor simpatia e influência dos EUA. Isto não teria acontecido algum tempo atrás por causa da influência e poder dos EUA na região no passado. É desconfortável para os EUA ter tantos governos de esquerda no seu quintal. O que mudou? Não o pensamento na América Latina, nem a política dos EUA. O que mudou foi o declínio de poder político real dos EUA no mundo. A região se beneficiou da distração dos EUA em outras partes do mundo para fazer um movimento mais à esquerda. Os EUA vivem uma perda real de poder político.
FOLHA - Quais os desafios desses novos governos?
WALLERSTEIN - O desafio atual dos governos de esquerda da América Latina é o de se sustentarem e, se quiserem se manter no poder, mostrar progresso social de verdade. Foi isso que colocou Lula numa situação difícil, as expectativas do povo e as promessas não cumpridas. Mas ele recebeu uma segunda chance. Terá de mostrar resultados reais se quiser manter seu grupo no poder. Este é o desafio em todos os países: como se manter no poder sendo de esquerda. A alternativa é que deixem de ser de esquerda, mas não é desejável.
FOLHA - Na sua opinião, o presidente Lula ainda é de esquerda?
WALLERSTEIN - Sim, acredito que ainda é um líder de centro-esquerda. Tanto que reúne movimentos sociais --o MST o critica, mas o apóia-- e intelectuais, como Emir Sader, que é um crítico do governo, mas ainda acredita na proposta de Lula. Comparado a [Hugo] Chávez [presidente da Venezuela], Lula pode não parecer de esquerda. Mas eles não são tão diferentes. Lula fala bem de Chávez e Chávez fala bem de Lula. Por mais que outras forças tentem colocá-los em pontas diferentes, eles compartilham uma proximidade.
Em 2005, no Fórum de Porto Alegre, Chávez foi recebido por uma massa enorme da esquerda no Brasil. Ao discursar, ele disse que apesar de eles não gostarem do que iam ouvir, ele falaria que Lula era um homem bom. O público não gostou, mas Chávez fez questão de ir ao Brasil e mostrar que apóia Lula.
A "IstoÉ" que chega às bancas neste fim de semana revela que o governo Lula continuou mandando soldados para a famiferada Escola das Américas, aquela que treinou torturadores e militares de várias ditaduras latino-americanas, inclusive a brasileira, nos anos de chumbo.
Desde 2004, segundo a reportagem de Francisco Alves Filho, foram enviados, pelo menos, 15 militares.
A escola mudou de nome, mas ainda é alvo de protestos de entidades ligadas a direitos humanos mundo afora. Hoje, faz propaganda da doutrina Bush de antiterrorismo, guerra ao narcotráfico e prepara soldados latinos para a guerra no Iraque. Argentina, Bolívia, Venezuela e Uruguai, por considerá-la antidemocrática, diz a "IstoÉ", deixaram de enviar soldados para a "School of the Americas", hoje rebatizada de "Whinsec"
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