por Augusto Nunes
Em novembro de 1984, por não enxergar diferenças entre Paulo Maluf e Tancredo Neves, o Partido dos Trabalhadores optou pela abstenção no Colégio Eleitoral que escolheria o primeiro presidente civil depois do ciclo dos generais. Em janeiro de 1985, por entenderem que não se tratava de um confronto entre iguais, três parlamentares do PT ─ Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes ─ votaram em Tancredo. Foram expulsos pela direção.
Em 1988, num discurso em Aracaju, o deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o presidente José Sarney de “o grande ladrão da Nova República”. No mesmo ano, a bancada do PT na Constituinte rejeitou o texto da nova Constituição.
Em 1989, derrotados no primeiro turno da eleição presidencial, Ulysses Guimarães, candidato do PMDB, e Mário Covas, do PSDB, declararam que ficariam ao lado de Lula na batalha final contra Fernando Collor. Imediatamente recusado, o apoio acabou aceito por insistência dos parceiros repudiados. Num comício em frente do estádio do Pacaembu, Ulysses e Covas apareceram no palanque ao lado do candidato do PT. Foram vaiados pela plateia companheira.
Em 1993, a ex-prefeita Luiza Erundina, uma das fundadoras do partido, aceitou o convite do presidente Itamar Franco para assumir o comando de um ministério. Foi expulsa. Em 1994, ainda no governo de Itamar Franco, os parlamentares do PT lutaram com ferocidade para impedir a aprovação do Plano Real. No mesmo ano, transformaram a revogação da providencial mudança de rota na economia numa das bandeiras da campanha presidencial.
Entre o começo de janeiro de 1995 e o fim de dezembro de 2002, a bancada do PT votou contra todos os projetos, medidas e ideias encaminhados ao Legislativo pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Todos, sem exceção. Uma das propostas mais intensamente combatidas foi a que instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em janeiro de 1999, mal iniciado o segundo mandato de Fernando Henrique, o deputado Tarso Genro, em nome do PT, propôs a deposição do presidente reeleito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O lançamento da campanha com o mote “Fora FHC!” foi justificado por acusações, desacompanhadas de provas, que Tarso enfeixou num artigo publicado pela Folha de S. Paulo. Trecho: Hoje, acrescento que o presidente está pessoalmente responsabilizado por amparar um grupo fora da lei, que controla as finanças do Estado e subordina o trabalho e o capital do país ao enriquecimento ilegítimo de uns poucos. Alguns bancos lucraram em janeiro (evidentemente, por ter informações privilegiadas) US$ 1,3 bilhão, valor que não lucraram em todo o ano passado!
O que diriam Tarso, Lula e o resto da companheirada se tal acusação, perfeitamente aplicável ao atual chefe de governo, fosse subscrita por alguém do PSDB, do DEM ou do PPS? Coisa de traidor da pátria, inimigo da nação, gente que aposta no quanto pior, melhor, estariam berrando todos. “Tem gente que torce pra que tudo dê errado”, retomaria Lula a ladainha entoada há quase sete anos.
Faz sentido. Desde a ressurreição da democracia brasileira, a ação do PT oposicionista foi permanentemente orientada por sentimentos menores, miúdos, mesquinhos. É compreensível que os Altos Companheiros acreditem que todos os políticos são movidos pelo mesmo combustível de baixíssima qualidade.
Desfigurado pela metamorfose nauseante, o chefe de governo não teria sossego se o intratável chefe da oposição ainda existisse. O condutor do rebanho não tem semelhanças com o Lula do século passado, mas continua ouvindo o som dos balidos aprovadores. O caçador de gatunos hoje é padroeiro da quadrilha federal. O parlamentar que recusou a conciliação proposta por Tancredo é o presidente que se reconcilia com qualquer abjeção desfrutável. O moralizador da República presidiu e abafou o escândalo incomparável do mensalão.
Mas não admite sequer criticas formuladas sem aspereza pelo antecessor que atacava com virulência. É inveja, Lula deu de gritar agora. O espelho reflete o contrário. Nenhum homem culto prefere ser ignorante, nenhum homem educado sonha com a grosseria, gente honrada não quer conversa com delinquentes.
Lula não esquece que foi derrotado por FHC duas vezes, ambas no primeiro turno. E sabe que o vencedor nunca inveja o vencido.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
MENSALÃO
No que depender do presidente Lula, a história do mensalão – o esquema de corrupção montado no governo dele para subornar parlamentares com dinheiro desviado dos cofres públicos – será integralmente reescrita. Na nova versão, o PT, o governo, os deputados e o próprio presidente da República teriam sido vítimas de uma terrível conspiração planejada e executada pela oposição. Marcos Valério, aquele publicitário mágico que fazia aparecer dinheiro no caixa do partido, seria um sabotador a serviço dos inimigos. O escândalo do mensalão foi o momento mais dramático enfrentado por Lula em sete anos de governo. Seus principais assessores caíram por corrupção e respondem a processo por formação de quadrilha. Acuado, o presidente chegou a ser aconselhado por aliados a desistir da reeleição em troca da preservação de seu primeiro mandato. Lula conseguiu contornar a crise, reeleger-se e tornar-se o presidente mais popular da história. Agora, quer aproveitar a onda para limpar também a mancha na biografia. Em entrevista a um programa político da RedeTV!, o presidente disse que o mensalão foi uma tentativa de golpe: "Foi a maior armação já feita contra o governo".
Reescrever a história é uma tentação muito comum de governos autoritários. Em democracias, a tarefa é um pouco mais complicada. Não basta repetir uma versão amalucada qualquer para transformá-la em verdade. Perguntado sobre os detalhes da teoria da conspiração, o presidente diz que vai se inteirar do assunto apenas depois de deixar o Planalto. Vai ser uma investigação histórica interessante. Que conspiração levaria um banco a abrir uma agência em Brasília apenas para atender parlamentares de diversos partidos? Que conspiração obrigaria parlamentares a formar filas no caixa desse banco para receber dinheiro vivo, sem origem conhecida? Que conspiração faria com que o PT aceitasse espontaneamente que a campanha de Lula fosse paga pelo "espião Valério" com recursos depositados em contas clandestinas no exterior? Se o presidente Lula não sabia de nada sobre o mensalão, como sempre garantiu, ele foi realmente vítima de um golpe, mas um golpe conduzido pelos seus próprios companheiros de partido e aliados políticos.
O deputado José Genoíno era o presidente do PT e assinou os contratos que serviram de fachada para justificar o dinheiro do mensalão. O deputado João Paulo Cunha era presidente da Câmara e foi o responsável por introduzir Marcos Valério nas hostes petistas. Os dois estão entre os quarenta réus do processo que corre no Supremo Tribunal Federal, acusados de corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, evasão de divisas e formação de quadrilha. Mas, no mundo de Lula, são vítimas de uma conspiração dos tucanos. Assim, tocam sua vida e hoje são deputados influentes da base governista e na campanha de Dilma Rousseff. Perderam o status, mas não o poder. Agindo nos bastidores, João Paulo e Genoíno continuam no centro das principais articulações que envolvem o governo e a sucessão presidencial.
A dupla também tem planos de resgate da própria biografia. Genoíno, que disse ter assinado sem ler o contrato do mensalão, trabalha para ser o líder da bancada do PT em 2010. João Paulo, que mandava a própria esposa entrar na fila da agência do banco do mensalão e ainda disse que ela ia lá para pagar a conta da TV por assinatura, quer voltar à presidência da Casa em 2011. Ambos já foram tratados como injustiçados pelo presidente. Em sua tentativa de escrever a história ao seu modo, Lula desmente até a pessoa em quem mais confia – Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete. Em entrevista a VEJA, em 2008, Gilberto revelou como Lula foi aconselhado a abrir mão da reeleição em troca da manutenção de seu mandato. Lula disse que jamais recebeu tal proposta.
Reescrever a história é uma tentação muito comum de governos autoritários. Em democracias, a tarefa é um pouco mais complicada. Não basta repetir uma versão amalucada qualquer para transformá-la em verdade. Perguntado sobre os detalhes da teoria da conspiração, o presidente diz que vai se inteirar do assunto apenas depois de deixar o Planalto. Vai ser uma investigação histórica interessante. Que conspiração levaria um banco a abrir uma agência em Brasília apenas para atender parlamentares de diversos partidos? Que conspiração obrigaria parlamentares a formar filas no caixa desse banco para receber dinheiro vivo, sem origem conhecida? Que conspiração faria com que o PT aceitasse espontaneamente que a campanha de Lula fosse paga pelo "espião Valério" com recursos depositados em contas clandestinas no exterior? Se o presidente Lula não sabia de nada sobre o mensalão, como sempre garantiu, ele foi realmente vítima de um golpe, mas um golpe conduzido pelos seus próprios companheiros de partido e aliados políticos.
O deputado José Genoíno era o presidente do PT e assinou os contratos que serviram de fachada para justificar o dinheiro do mensalão. O deputado João Paulo Cunha era presidente da Câmara e foi o responsável por introduzir Marcos Valério nas hostes petistas. Os dois estão entre os quarenta réus do processo que corre no Supremo Tribunal Federal, acusados de corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, evasão de divisas e formação de quadrilha. Mas, no mundo de Lula, são vítimas de uma conspiração dos tucanos. Assim, tocam sua vida e hoje são deputados influentes da base governista e na campanha de Dilma Rousseff. Perderam o status, mas não o poder. Agindo nos bastidores, João Paulo e Genoíno continuam no centro das principais articulações que envolvem o governo e a sucessão presidencial.
A dupla também tem planos de resgate da própria biografia. Genoíno, que disse ter assinado sem ler o contrato do mensalão, trabalha para ser o líder da bancada do PT em 2010. João Paulo, que mandava a própria esposa entrar na fila da agência do banco do mensalão e ainda disse que ela ia lá para pagar a conta da TV por assinatura, quer voltar à presidência da Casa em 2011. Ambos já foram tratados como injustiçados pelo presidente. Em sua tentativa de escrever a história ao seu modo, Lula desmente até a pessoa em quem mais confia – Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete. Em entrevista a VEJA, em 2008, Gilberto revelou como Lula foi aconselhado a abrir mão da reeleição em troca da manutenção de seu mandato. Lula disse que jamais recebeu tal proposta.
sábado, 14 de novembro de 2009
Para quem é pai/mãe e para aqueles que o serão...
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Autor desconhecido
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê a pazinha de brincar de areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal? A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali, estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio, subiam a serra e iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos.
Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas “pestes”. Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que conquistem do modo mais completo possível. O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós..."
Autor desconhecido
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê a pazinha de brincar de areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal? A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali, estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio, subiam a serra e iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos.
Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas “pestes”. Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que conquistem do modo mais completo possível. O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós..."
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
DOIS BRASIS
Luciano Pires
Meu amigo Nuno Mindelis diz que o Brasil não é um, mas dois. Existe um Brasil que consome as porcariadas que a mídia dissemina e que os marqueteiros inventam para ganhar dinheiro. É um Brasil pobre de espírito, conformado em ser dirigido. Um Brasil ignorante, que faz dessa ignorância fonte de poder e lucro. Um Brasil onde regras têm pouco significado, onde o que vale é tirar proveito, é a malandragem. O Brasil dos Pocotós.
O outro Brasil é composto de gente que exerce seu poder de escolha. É um Brasil intelectualizado naquilo que essa palavra tem de mais importante: a sede pelo conhecimento. Um Brasil que tem bom gosto, que consome cultura, que respeita regras e que em nada difere de outros países mais “desenvolvidos”.
O Brasil dos Pocotós é gigantesco. Foi construído ao longo de 500 anos e reproduz-se numa velocidade impressionante, pela combinação de uma educação deficiente com uma mídia alienada e burra que dissemina a ignorância. O segundo Brasil é menor. Resistiu ao longo do tempo e tornou-se privilégio da elite que tem mais facilidades para adquirir o conhecimento. Mas nesse Brasil privilegiado, vivem também brasileiros de poucas posses, que conseguiram extrair de sua educação os valores que lhes possibilitam praticar um julgamento consciente entre o que é ou não é capaz de agregar valor ao seu crescimento intelectual.
Uma reflexão interessante, não é? Deve ter seus críticos, mas é instigante.
Pois ando suspeitando que o Brasil despocotizado é maior do que parece...
Ainda não recuperado do impacto da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, fico sabendo que foram abertas as inscrições para a 11ª edição da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Você sabia que esse evento existia? Não? Pois saiba que 4.500 vagas, disponibilizadas pela Internet, esgotaram-se em 40 minutos. Quatro mil e quinhentas vagas para um evento de literatura esgotadas em 40 minutos! Parece ingresso pra show de Zezé di Camargo e Luciano...
Isso imediatamente me remeteu a um filósofo contemporâneo, chamado Ludwig Wittgenstein, que disse: “O mundo do homem feliz é diferente do mundo do infeliz”. Eu dou uma ajeitada e transformo em “O Brasil do homem feliz é diferente do Brasil do infeliz”.
Mas é o mesmo Brasil! Como pode ser diferente? Simples: o mundo, e por conseqüência o Brasil, é uma interpretação que fazemos da realidade, baseados nos nossos conhecimentos e experiências. Cada um vê o mundo – e o Brasil - conforme seu repertório. Em outras palavras: o Brasil que você vê vem do seu interior e não lá de fora... Conforme você vai vivendo, provando novas experiências, enriquecendo seu repertório, essa imagem do Brasil vai mudando...
Pense nisso. Não é assustador? Repentinamente perceber que a escolha é sua? E que essa escolha não depende de dinheiro, de padrinhos ou de poder? Depende de sua atitude?
Em qual Brasil você vive, hein? O amargo Brasil dos pocotós ou aquele outro mais...Nutritivo?
Aliás, a pergunta correta é outra.
Em qual Brasil você ESCOLHEU viver?
Luciano Pires
e-mail: luciano@lucianopires.com.br
Meu amigo Nuno Mindelis diz que o Brasil não é um, mas dois. Existe um Brasil que consome as porcariadas que a mídia dissemina e que os marqueteiros inventam para ganhar dinheiro. É um Brasil pobre de espírito, conformado em ser dirigido. Um Brasil ignorante, que faz dessa ignorância fonte de poder e lucro. Um Brasil onde regras têm pouco significado, onde o que vale é tirar proveito, é a malandragem. O Brasil dos Pocotós.
O outro Brasil é composto de gente que exerce seu poder de escolha. É um Brasil intelectualizado naquilo que essa palavra tem de mais importante: a sede pelo conhecimento. Um Brasil que tem bom gosto, que consome cultura, que respeita regras e que em nada difere de outros países mais “desenvolvidos”.
O Brasil dos Pocotós é gigantesco. Foi construído ao longo de 500 anos e reproduz-se numa velocidade impressionante, pela combinação de uma educação deficiente com uma mídia alienada e burra que dissemina a ignorância. O segundo Brasil é menor. Resistiu ao longo do tempo e tornou-se privilégio da elite que tem mais facilidades para adquirir o conhecimento. Mas nesse Brasil privilegiado, vivem também brasileiros de poucas posses, que conseguiram extrair de sua educação os valores que lhes possibilitam praticar um julgamento consciente entre o que é ou não é capaz de agregar valor ao seu crescimento intelectual.
Uma reflexão interessante, não é? Deve ter seus críticos, mas é instigante.
Pois ando suspeitando que o Brasil despocotizado é maior do que parece...
Ainda não recuperado do impacto da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, fico sabendo que foram abertas as inscrições para a 11ª edição da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Você sabia que esse evento existia? Não? Pois saiba que 4.500 vagas, disponibilizadas pela Internet, esgotaram-se em 40 minutos. Quatro mil e quinhentas vagas para um evento de literatura esgotadas em 40 minutos! Parece ingresso pra show de Zezé di Camargo e Luciano...
Isso imediatamente me remeteu a um filósofo contemporâneo, chamado Ludwig Wittgenstein, que disse: “O mundo do homem feliz é diferente do mundo do infeliz”. Eu dou uma ajeitada e transformo em “O Brasil do homem feliz é diferente do Brasil do infeliz”.
Mas é o mesmo Brasil! Como pode ser diferente? Simples: o mundo, e por conseqüência o Brasil, é uma interpretação que fazemos da realidade, baseados nos nossos conhecimentos e experiências. Cada um vê o mundo – e o Brasil - conforme seu repertório. Em outras palavras: o Brasil que você vê vem do seu interior e não lá de fora... Conforme você vai vivendo, provando novas experiências, enriquecendo seu repertório, essa imagem do Brasil vai mudando...
Pense nisso. Não é assustador? Repentinamente perceber que a escolha é sua? E que essa escolha não depende de dinheiro, de padrinhos ou de poder? Depende de sua atitude?
Em qual Brasil você vive, hein? O amargo Brasil dos pocotós ou aquele outro mais...Nutritivo?
Aliás, a pergunta correta é outra.
Em qual Brasil você ESCOLHEU viver?
Luciano Pires
e-mail: luciano@lucianopires.com.br
terça-feira, 3 de novembro de 2009
O CRACK E A MIDIA
Nossos jornalões e as TVs descobriram que o crack tem culpados: é o governo Lula e os favelados. Se derrubar o Lula e tacar fogo nas favelas, tudo se resolve. É o que se conclui das recentes reportagens, e o que dizem alguns comentaristas nos portais de notícias. Em nenhuma matéria há um dedo sobre informações históricas sobre essa droga que efetivamente destrói em pouco tempo seus usuários, e que foi criada para acabar com o forte movimento dos Panteras Negras nos EUA, obra do próprio estado americano. Inventei? Teoria da conspiração? Não. Quem disse foi esta mesma mídia gorda em uma série de reportagens do San Jose Mercury News, assinadas pelo valoroso e premiado repórter Gary Webb, em 1996.
Webb seguiu os passos do caso Irã-Contras, um dos momentos em que, por um descuido, a cortina que encobre o sistema é levantada e podemos ver a fábrica de salsichas funcionando. Simplesmente o governo americano, via sua central de inteligência, vendia armas para seu inimigo aiatolá Komeini e arrumava mais um bom troco no mercado negro de drogas. Tudo para financiar os caros mercenários que combatiam a revolução sandinista. Uma revista em Beirute deu o flagra, espanou o mau cheiro e deu em uma longuíssima CPI no Congresso Americano.
O jornalista fez seu trabalho com competência. Seguiu passos de traficantes, deu nomes, mostrou rotas de tráfico que eram do conhecimento da CIA, e exibiu todo o cenário. Depois, a série foi transformada em livro: Dark Alliance: The CIA, the Contras, and the Crack Cocaine Explosion. Bastou para o mundo cair sobre sua cabeça. Foi acusado por todos os lados de usar falsas fontes, de manipular informações, sua vida virou um inferno. Perdeu o emprego e entrou em lista negra na mídia americana. Morreu em 2004. Segundo a polícia e a mídia, foi suicídio.
Claro, a nossa mídia aqui não lembrou do fato agora. É muito complexo entrar em um terreno tão polêmico. Imagina então pesquisar, que absurdo.
Ah, só um detalhe, certamente sem relevância jornalística: Gary Webb cometeu suicídio com dois tiros na cabeça.
Webb seguiu os passos do caso Irã-Contras, um dos momentos em que, por um descuido, a cortina que encobre o sistema é levantada e podemos ver a fábrica de salsichas funcionando. Simplesmente o governo americano, via sua central de inteligência, vendia armas para seu inimigo aiatolá Komeini e arrumava mais um bom troco no mercado negro de drogas. Tudo para financiar os caros mercenários que combatiam a revolução sandinista. Uma revista em Beirute deu o flagra, espanou o mau cheiro e deu em uma longuíssima CPI no Congresso Americano.
O jornalista fez seu trabalho com competência. Seguiu passos de traficantes, deu nomes, mostrou rotas de tráfico que eram do conhecimento da CIA, e exibiu todo o cenário. Depois, a série foi transformada em livro: Dark Alliance: The CIA, the Contras, and the Crack Cocaine Explosion. Bastou para o mundo cair sobre sua cabeça. Foi acusado por todos os lados de usar falsas fontes, de manipular informações, sua vida virou um inferno. Perdeu o emprego e entrou em lista negra na mídia americana. Morreu em 2004. Segundo a polícia e a mídia, foi suicídio.
Claro, a nossa mídia aqui não lembrou do fato agora. É muito complexo entrar em um terreno tão polêmico. Imagina então pesquisar, que absurdo.
Ah, só um detalhe, certamente sem relevância jornalística: Gary Webb cometeu suicídio com dois tiros na cabeça.
sábado, 10 de outubro de 2009
No País de Seu Cabral
No País de Seu Cabral
Joilson Kariry Rodrigues
Seu Cabral, um velho marinheiro português, estava perdido quando achou de achar um país novinho em folha. Bem arborizado, de frente para o mar, uma imensidão de litoral que não acabava mais, e melhor: quase sem dono. Ora, pois! Que maravilha! Era só descer da nau e tomar posse. Deus nasceu aqui e decerto passa férias aqui, pensou o velho lobo do mar admirado do seu achado e bendizendo os ventos que o empurraram para aquele canto do oceano. Conta a lenda que o primeiro dizer dele, ainda em bordo, foi: - Bunda à vista!... Quero dizer... É... Terra à vista! Tudo meu, tudo meu... As bundas, acredita-se, eram das nativas. As terras também, mas isso era negociável. De lá para cá nos tornamos o país das bundas. A força do DNA do velho Cabral em nosso sangue nos mantém nessa cultura. Duvidou que as terras do colega Cristovão, mais ao norte, fossem melhores do que aquelas. Ah, isso não era mesmo! Por isso solicitou a um amigo letrado, um tal de Pero, que escrevesse uma carta ao Rei e outra (sob sigilo) ao italiano. A primeira, séria, comunicando o achado, que fora depois adquirido a troco de algumas quinquilharias, e se desculpando pela demora da viagem a Índia. A segunda era só um bilhete tirando um sarrinho de Colombo. Haha... Ninguém é de ferro! O certo é que nem um nem outro achou o novo atalho marítimo para as índias. E que se danasse a Índia de lá, as índias daqui eram mais sexy. (digo ‘eram’ porque já não são mais, foram dizimadas. Mas ainda temos a Juliana Paes que não é índia, mas é boa também) Aqui em tudo se plantando tudo dá, pensou o tataravô Cabral. Mas em se arrancando o que já está plantado dá mais ainda, pesou melhor. E assim foi. Enfim tomou posse das terras. Mudou o nome, porque Pindorama não era lá um nome muito adequado e exigiu, como parte do acordo de aquisição, que os antigos proprietários trabalhassem (forçado) para o desenvolvimento do novo país. Ah, que isso não deu certo não. Se seu Cabral não queria trabalhar, os índios muito menos. Logo um pajé esperto fez um acordo com os jesuítas: em troca da proteção converteriam todos ao catolicismo. E pode ter sido esse mesmo pajé quem sugerira que fossem buscar guerreiros negros na África para realizar tal mão de obra. Como todo posseiro que se preza seu Cabral foi aos poucos empurrando sua cerca para dentro das terras do vizinho, os espanhóis. Estes eram vizinhos lá, vizinhos aqui, parecia uma maldita perseguição. Os otários acreditaram num tal Tratado de Tordesilhas... Hahahaha. Daí para cá nos tornamos o país dos espertos, 171 tremendo. E ele só não avançou Argentina adentro porque não queria o Maradona na seleção brasileira, dizem. E se tivesse abocanhado também a Venezuela o Huguinho era bem mais que só sobrinho do Donald, era oposição ao Luizinho. (ou aliado, sei lá...) e a família do pato estaria completa se juntassem a um Zezinho qualquer (... o Dirceu ou o Genoíno). Daí talvez fosse mais fácil enfrentar Napoleão e deixar que a família Real ficasse por lá mesmo. Com Napoleão nos calcanhares o velho Cabral teve que correr acovardado e fixar moradia por aqui de vez. Até que não foi de tudo tão ruim assim. Era só fingir que aqui era lá, só que mais quente e com mosquitos. Divirta-se matando índios, distribuindo chicotadas nos negros e enforcando dentistas radicais e nem vai sentir saudades das terras civilizadas. Já que ia ficar por aqui mesmo seu Cabral cortou de vez os laços com os patrícios portugueses. Mas deu uma cochilada e perdeu o controle. Assim perdeu também um bom pedaço de terra lá no sul. Os cisplatinos, só para contrariar, deram ao velho Cabral o mesmo gostinho que ele dera aos portugueses. Hahahaha... Essa eu gostei! Gostei, mas me calo decepcionado com os cisplatinos. Esses caíram no conto do velho português e juntos com a seleção argentina foram tentar abocanhar as terras do Paraguai. Que coisa feia! Por que não decidiram essa parada no Maracanã? Apesar de tudo o novo país de seu Cabral ia bem, obrigado. Mas dava um trabalhão danado administrar isso tudo. Então o velho teve uma idéia: alugaria o país. E, apesar disso aqui ser um negócio da China, foi aos Ingleses que ele entregou, de porteira fechada. Os ingleses forçaram a libertação dos negros (como eram bonzinhos!). O pajé, que havia sugerido que escravizassem os africanos, tremeu de medo achando que agora era a vez dele trabalhar. Agarrou-se a um crucifixo e jurou que era católico. Foi eliminado com o Cristo nas mãos e Tupã no coração. Importaram então mão de obra italiana e japonesa. E a senzala inteira sorriu aliviada, saboreando a desforra. Agora era a vez dos brancos e amarelos trabalharem. Mas não foi bem assim não. Os importados ganhavam para trabalhar. Que merda! O suor do africano só tinha valor se fosse derramado de graça, misturado ao sangue das chicotadas. Quando chegou a vez de faturar chamaram os gringos.
Joilson Kariry Rodrigues
Seu Cabral, um velho marinheiro português, estava perdido quando achou de achar um país novinho em folha. Bem arborizado, de frente para o mar, uma imensidão de litoral que não acabava mais, e melhor: quase sem dono. Ora, pois! Que maravilha! Era só descer da nau e tomar posse. Deus nasceu aqui e decerto passa férias aqui, pensou o velho lobo do mar admirado do seu achado e bendizendo os ventos que o empurraram para aquele canto do oceano. Conta a lenda que o primeiro dizer dele, ainda em bordo, foi: - Bunda à vista!... Quero dizer... É... Terra à vista! Tudo meu, tudo meu... As bundas, acredita-se, eram das nativas. As terras também, mas isso era negociável. De lá para cá nos tornamos o país das bundas. A força do DNA do velho Cabral em nosso sangue nos mantém nessa cultura. Duvidou que as terras do colega Cristovão, mais ao norte, fossem melhores do que aquelas. Ah, isso não era mesmo! Por isso solicitou a um amigo letrado, um tal de Pero, que escrevesse uma carta ao Rei e outra (sob sigilo) ao italiano. A primeira, séria, comunicando o achado, que fora depois adquirido a troco de algumas quinquilharias, e se desculpando pela demora da viagem a Índia. A segunda era só um bilhete tirando um sarrinho de Colombo. Haha... Ninguém é de ferro! O certo é que nem um nem outro achou o novo atalho marítimo para as índias. E que se danasse a Índia de lá, as índias daqui eram mais sexy. (digo ‘eram’ porque já não são mais, foram dizimadas. Mas ainda temos a Juliana Paes que não é índia, mas é boa também) Aqui em tudo se plantando tudo dá, pensou o tataravô Cabral. Mas em se arrancando o que já está plantado dá mais ainda, pesou melhor. E assim foi. Enfim tomou posse das terras. Mudou o nome, porque Pindorama não era lá um nome muito adequado e exigiu, como parte do acordo de aquisição, que os antigos proprietários trabalhassem (forçado) para o desenvolvimento do novo país. Ah, que isso não deu certo não. Se seu Cabral não queria trabalhar, os índios muito menos. Logo um pajé esperto fez um acordo com os jesuítas: em troca da proteção converteriam todos ao catolicismo. E pode ter sido esse mesmo pajé quem sugerira que fossem buscar guerreiros negros na África para realizar tal mão de obra. Como todo posseiro que se preza seu Cabral foi aos poucos empurrando sua cerca para dentro das terras do vizinho, os espanhóis. Estes eram vizinhos lá, vizinhos aqui, parecia uma maldita perseguição. Os otários acreditaram num tal Tratado de Tordesilhas... Hahahaha. Daí para cá nos tornamos o país dos espertos, 171 tremendo. E ele só não avançou Argentina adentro porque não queria o Maradona na seleção brasileira, dizem. E se tivesse abocanhado também a Venezuela o Huguinho era bem mais que só sobrinho do Donald, era oposição ao Luizinho. (ou aliado, sei lá...) e a família do pato estaria completa se juntassem a um Zezinho qualquer (... o Dirceu ou o Genoíno). Daí talvez fosse mais fácil enfrentar Napoleão e deixar que a família Real ficasse por lá mesmo. Com Napoleão nos calcanhares o velho Cabral teve que correr acovardado e fixar moradia por aqui de vez. Até que não foi de tudo tão ruim assim. Era só fingir que aqui era lá, só que mais quente e com mosquitos. Divirta-se matando índios, distribuindo chicotadas nos negros e enforcando dentistas radicais e nem vai sentir saudades das terras civilizadas. Já que ia ficar por aqui mesmo seu Cabral cortou de vez os laços com os patrícios portugueses. Mas deu uma cochilada e perdeu o controle. Assim perdeu também um bom pedaço de terra lá no sul. Os cisplatinos, só para contrariar, deram ao velho Cabral o mesmo gostinho que ele dera aos portugueses. Hahahaha... Essa eu gostei! Gostei, mas me calo decepcionado com os cisplatinos. Esses caíram no conto do velho português e juntos com a seleção argentina foram tentar abocanhar as terras do Paraguai. Que coisa feia! Por que não decidiram essa parada no Maracanã? Apesar de tudo o novo país de seu Cabral ia bem, obrigado. Mas dava um trabalhão danado administrar isso tudo. Então o velho teve uma idéia: alugaria o país. E, apesar disso aqui ser um negócio da China, foi aos Ingleses que ele entregou, de porteira fechada. Os ingleses forçaram a libertação dos negros (como eram bonzinhos!). O pajé, que havia sugerido que escravizassem os africanos, tremeu de medo achando que agora era a vez dele trabalhar. Agarrou-se a um crucifixo e jurou que era católico. Foi eliminado com o Cristo nas mãos e Tupã no coração. Importaram então mão de obra italiana e japonesa. E a senzala inteira sorriu aliviada, saboreando a desforra. Agora era a vez dos brancos e amarelos trabalharem. Mas não foi bem assim não. Os importados ganhavam para trabalhar. Que merda! O suor do africano só tinha valor se fosse derramado de graça, misturado ao sangue das chicotadas. Quando chegou a vez de faturar chamaram os gringos.
domingo, 20 de setembro de 2009
Pode bater, que o gigante é manso
REVISTA VEJA
: Com amigos como estes...
Os presidentes populistas da América do Sul esbravejam o tempo todo contra os Estados Unidos. Contam-se nos dedos de uma só mão, contudo, as medidas concretas contra interesses americanos adotadas por esses governos. Em lugar disso, quando querem agitar uma causa nacionalista para unir a nação em torno do presidente, o golpe é desferido contra o Brasil. Fazem isso com total desfaçatez, pois a experiência dos últimos anos demonstrou que o vizinho grandalhão engole passivamente as humilhações. Na semana passada, Rafael Correa, presidente do Equador, expulsou a Odebrecht, seqüestrou os bens da construtora, ocupou com tropas quatro de suas obras e proibiu quatro diretores de deixar o país. Dois deles escaparam a tempo de volta para o Brasil. Os outros dois buscaram refúgio às pressas na casa do embaixador brasileiro em Quito. Os engenheiros brasileiros que permanecem nas obras passaram a ser escoltados e dormem em quartos de hotel com soldados vigiando no corredor. Por fim, Correa ameaçou não pagar um empréstimo de 243 milhões de dólares concedido pelo BNDES. Mediante tal flagrante desrespeito às regras internacionais e aos direitos humanos, a diplomacia brasileira tratou mais uma vez de defender os direitos nacionais... dos equatorianos. "Houve, digamos, ações preventivas por parte do Equador. Não houve conflito", desconversou o chanceler Celso Amorim.
As vítimas mais expostas dessa excessiva tolerância do governo petista em relação aos abusos cometidos pelos hermanos são as empresas e os cidadãos brasileiros nos países vizinhos. "O Brasil está pagando o preço por ter uma economia saudável, em crescimento e aberta para o mundo", disse a VEJA o advogado americano Allen Weiner, professor da Universidade Stanford e ex-diplomata. "Países vizinhos que não gozam do mesmo sucesso naturalmente pensam que isso ocorre porque os brasileiros estão tirando vantagem deles. A tendência é isso aumentar cada vez mais." O momento anuncia um drama pior. No Paraguai, os produtores brasileiros de soja foram escolhidos como alvos prioritários da reforma agrária do novo presidente. Na semana passada, brasileiros que vivem em dois departamentos da fronteira foram intimados a dar explicações ao Indert, o instituto de terras paraguaio. Eles terão de dizer quando compraram suas terras, de quem e quanto pagaram por elas. Na Bolívia, em duas reuniões da Federação dos Camponeses do Norte de Santa Cruz, ficou decidido que as primeiras terras a ser invadidas serão as dos brasileiros.
Desde que Evo Morales ocupou impunemente com tropas duas refinarias da Petrobras em 2006, bater primeiro, conversar depois virou a regra nas relações bilaterais. Na época, Lula defendeu a ação como direito da Bolívia – como se o Brasil também não tivesse direitos previstos nos acordos assinados. Desta vez, ele usou uma metáfora familiar para explicar o imobilismo. "Você imagina, na sua casa, quando você morava com três ou quatro irmãos menores, você podia estar com a razão, mas eles ficavam te cobrando coisas", disse o presidente. O Equador seria esse irmão menor, que não tem razão, mas precisa ser tolerado. Correa alegou que problemas no funcionamento da usina hidrelétrica de San Francisco, parada há três meses por motivos técnicos, haviam motivado a medida. Segundo a Odebrecht, a culpa é dos técnicos equatorianos que fizeram o projeto da usina. Eles não levaram em conta a existência do vulcão Tungurahua, a 20 quilômetros da unidade. Uma erupção em agosto de 2006 aumentou em 35 vezes a concentração de sedimentos na água do Rio Pastaza, os quais danificaram as turbinas.
Nas doze reuniões tensas que ocorreram nas últimas quatro semanas para encontrar uma solução, a construtora se comprometeu a colocar a usina em funcionamento no dia 4 de outubro, nesta semana. Os funcionários equatorianos deixaram claro que cumpriam ordens diretas do presidente e que um acordo não seria possível. Correa precisou de um factóide nacionalista para aprovar seu projeto de Constituição em um referendo no domingo 28. Se conseguir metade mais um dos votos, terá poderes para dissolver o Congresso e poderá se reeleger. Azar do Brasil. "Ao expulsar a Odebrecht e ameaçar brasileiros, Correa solapou o Judiciário e agiu como se estivesse em estado de sítio", diz a advogada Maristela Basso, especialista em direito internacional e professora da Universidade de São Paulo (USP). "É preciso deixar de considerar esses presidentes como amigos camaradas para vê-los como realmente são, chefes de estado que subvertem o estado de direito." Em outras palavras, chega de apanhar calado.
: Com amigos como estes...
Os presidentes populistas da América do Sul esbravejam o tempo todo contra os Estados Unidos. Contam-se nos dedos de uma só mão, contudo, as medidas concretas contra interesses americanos adotadas por esses governos. Em lugar disso, quando querem agitar uma causa nacionalista para unir a nação em torno do presidente, o golpe é desferido contra o Brasil. Fazem isso com total desfaçatez, pois a experiência dos últimos anos demonstrou que o vizinho grandalhão engole passivamente as humilhações. Na semana passada, Rafael Correa, presidente do Equador, expulsou a Odebrecht, seqüestrou os bens da construtora, ocupou com tropas quatro de suas obras e proibiu quatro diretores de deixar o país. Dois deles escaparam a tempo de volta para o Brasil. Os outros dois buscaram refúgio às pressas na casa do embaixador brasileiro em Quito. Os engenheiros brasileiros que permanecem nas obras passaram a ser escoltados e dormem em quartos de hotel com soldados vigiando no corredor. Por fim, Correa ameaçou não pagar um empréstimo de 243 milhões de dólares concedido pelo BNDES. Mediante tal flagrante desrespeito às regras internacionais e aos direitos humanos, a diplomacia brasileira tratou mais uma vez de defender os direitos nacionais... dos equatorianos. "Houve, digamos, ações preventivas por parte do Equador. Não houve conflito", desconversou o chanceler Celso Amorim.
As vítimas mais expostas dessa excessiva tolerância do governo petista em relação aos abusos cometidos pelos hermanos são as empresas e os cidadãos brasileiros nos países vizinhos. "O Brasil está pagando o preço por ter uma economia saudável, em crescimento e aberta para o mundo", disse a VEJA o advogado americano Allen Weiner, professor da Universidade Stanford e ex-diplomata. "Países vizinhos que não gozam do mesmo sucesso naturalmente pensam que isso ocorre porque os brasileiros estão tirando vantagem deles. A tendência é isso aumentar cada vez mais." O momento anuncia um drama pior. No Paraguai, os produtores brasileiros de soja foram escolhidos como alvos prioritários da reforma agrária do novo presidente. Na semana passada, brasileiros que vivem em dois departamentos da fronteira foram intimados a dar explicações ao Indert, o instituto de terras paraguaio. Eles terão de dizer quando compraram suas terras, de quem e quanto pagaram por elas. Na Bolívia, em duas reuniões da Federação dos Camponeses do Norte de Santa Cruz, ficou decidido que as primeiras terras a ser invadidas serão as dos brasileiros.
Desde que Evo Morales ocupou impunemente com tropas duas refinarias da Petrobras em 2006, bater primeiro, conversar depois virou a regra nas relações bilaterais. Na época, Lula defendeu a ação como direito da Bolívia – como se o Brasil também não tivesse direitos previstos nos acordos assinados. Desta vez, ele usou uma metáfora familiar para explicar o imobilismo. "Você imagina, na sua casa, quando você morava com três ou quatro irmãos menores, você podia estar com a razão, mas eles ficavam te cobrando coisas", disse o presidente. O Equador seria esse irmão menor, que não tem razão, mas precisa ser tolerado. Correa alegou que problemas no funcionamento da usina hidrelétrica de San Francisco, parada há três meses por motivos técnicos, haviam motivado a medida. Segundo a Odebrecht, a culpa é dos técnicos equatorianos que fizeram o projeto da usina. Eles não levaram em conta a existência do vulcão Tungurahua, a 20 quilômetros da unidade. Uma erupção em agosto de 2006 aumentou em 35 vezes a concentração de sedimentos na água do Rio Pastaza, os quais danificaram as turbinas.
Nas doze reuniões tensas que ocorreram nas últimas quatro semanas para encontrar uma solução, a construtora se comprometeu a colocar a usina em funcionamento no dia 4 de outubro, nesta semana. Os funcionários equatorianos deixaram claro que cumpriam ordens diretas do presidente e que um acordo não seria possível. Correa precisou de um factóide nacionalista para aprovar seu projeto de Constituição em um referendo no domingo 28. Se conseguir metade mais um dos votos, terá poderes para dissolver o Congresso e poderá se reeleger. Azar do Brasil. "Ao expulsar a Odebrecht e ameaçar brasileiros, Correa solapou o Judiciário e agiu como se estivesse em estado de sítio", diz a advogada Maristela Basso, especialista em direito internacional e professora da Universidade de São Paulo (USP). "É preciso deixar de considerar esses presidentes como amigos camaradas para vê-los como realmente são, chefes de estado que subvertem o estado de direito." Em outras palavras, chega de apanhar calado.
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