segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Transitoriedade do Tempo

Erika de Souza Bueno

Reflexões Sobre as Oportunidades e as Características do Tempo




Nada como um dia após o outro para acalmar os ânimos e reanimar aqueles que sofreram frustrações.

Nada como atentar para a importância do tempo e reaprender lições já vistas anteriormente.

Nada como o tempo para nos ensinar que o branco dos cabelos fala-nos da urgência de transferirmos os conhecimentos acumulados durante os anos.

O tempo ensina, o tempo acalma, o tempo impõe verdades que não queríamos entender.

A duração de um tempo é subjetiva. Um minuto pode ser tão pouco e insignificante quanto pode ser decisivo para a sobrevivência de alguém.

A intensidade de cada momento também não pode ser medida com precisão, pois para cada um é revelada de uma forma.

O tempo pode ser recordado, mas não adiantado. Por ele, as mais diversas circunstâncias vividas por alguém podem ser trazidas à memória em quaisquer lugares.

Para alguns, o tempo tem poder de curar máculas causadas pela ausência física e/ou psicológica de alguém que queríamos que participasse de nossa história.

Se não fosse a divisão do tempo em segundos, minutos, hora, dia, meses e anos, seria muito difícil fazermos uma reflexão sobre o que poderia ser mudado, melhorado em nós.

A cada minuto que passa, a cada dia que termina, temos a oportunidade de parar e repensar as ações e reações causadas por nós e em nós.

O tempo é uma das oportunidades que Deus nos dá para entendermos a brevidade dos nossos dias e a consequente urgência de nos voltarmos a Ele.

Envolvidos com algumas notórias rotinas da vida, muitos pais perdem a oportunidade de atentarem para as necessidades emocionais de seus filhos, não esclarecendo, em tempo oportuno, as dúvidas que nossas crianças sempre têm.

Há quem diga, inclusive, que os netos são a nova oportunidade que a vida dá aos pais de pagarem aos filhos o tempo que não tiveram para eles.

O tempo nos evidencia a urgência e a importância do agora, ou seja, do único momento que é nosso e que temos a oportunidade de corrigirmos as falhas que nem mesmo os anos foram capazes de consertar.

Valorize cada momento de sua vida, valorizando as pessoas que fazem parte dela.

Não deixe de fora de sua história nem mesmo as pessoas que, por desconhecimento e clareza da importância de se cultivar amigos e familiares, insistem em cultivar instabilidades.

Ensine-as que o tempo passa e que a oportunidade para ser feliz e fazer alguém feliz ainda está sendo oferecida a nós, basta que nossos “olhos” não estejam tão enfadados a ponto de não conseguirem mais enxergar.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A queda dos bad boys

EDUARDO MALUF - O Estado de S.Paulo

Não há nenhum crime nos altos salários de jogadores como Neymar e Damião, desde que deem retorno aos clubes e patrocinadores, sejam profissionais e disciplinados e respeitem o público. O ano se encerra com três casos clássicos de atletas que ganham muito, mas não se encaixam nesse perfil. Eles terminam 2011 como derrotados e simbolizam mudança importante no futebol: o espaço dos bad boys tem diminuído a cada temporada. Refiro-me a Adriano, Valdivia e Kleber.

Os jogadores de grandes clubes são pessoas públicas e, consequentemente, vitrine para a sociedade. Têm remuneração invejável, fama e praticam a atividade dos sonhos de muita gente. Mas também existe um preço a pagar. E o comportamento ético, mesmo longe dos gramados, deveria estar embutido no contrato.

Ninguém vê pecado em sair na noite de vez em quando e tomar uma cervejinha. Com moderação. O corpo, afinal, é a ferramenta de trabalho desses famosos rapazes. Um desentendimento esporádico com um colega, treinador ou dirigente também pode ocorrer. O problema é quando se torna algo frequente.

Adriano, que poucas vezes entrou em campo pelo Corinthians, parece ainda longe de recuperar a forma. Nos últimos dias, envolveu-se em nova confusão e corre o risco de perder mais uma oportunidade na carreira. Andrés Sanchez anda expondo por todos os cantos sua irritação com o milionário atleta. Talvez tenha errado ao apostar num personagem com histórico tão complicado.

Valdivia passou dos limites para quem teve tantos problemas físicos e pessoais e pouco contribuiu para o clube que pagou mais do que poderia para recontratá-lo. Além das lesões e noitadas, quase nada fez quando jogou. Mais reclamou com a arbitragem do que deu passes para gols, e chegou a ser cortado de uma partida da seleção chilena por ter aparecido num treino em "estado inadequado", segundo o treinador Claudio Borghi. O ato final não poderia ter sido pior: expulsão contra o Corinthians.

Kleber nunca deixou de se dedicar. Arrumou, porém, uma série de problemas com dirigentes e comissão técnica, quase não marcou gols e desfalcou o time em boa parte dos jogos por contusão. No primeiro semestre, desentendeu-se com a diretoria por causa de um interesse do Flamengo em levá-lo para o Rio. Forçou a saída do Palestra Itália de forma inadequada, já que tinha contrato com o Palmeiras. Depois do fracasso da negociação, em confronto com o próprio Flamengo, deu um bico no fair play ao tentar fazer gol num lance em que deveria ter devolvido a bola ao adversário. Mais tarde, entrou em atrito com Felipão e acabou dispensado. O recomeço será no Grêmio.

O trio serve de exemplo para quem acha que só a inspiração é suficiente para fazer sucesso. O futebol não tolera mais desleixo e indisciplina. Em 2012, esses três bad boys têm duas opções: respeitar mais a bola (e os torcedores) e voltar a brilhar ou começar a trilhar o caminho da decadência.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

SEITAS EVANGÉLICAS?



Como definir igrejas evangélicas que abandonaram doutrinas fundamentais da fé cristã, e são consideradas por alguns pesquisadores apologéticos como seitas? Procurar encontrar uma terminologia para definir seitas pseudocristãs, como por exemplo, os Adventistas do Sétimo Dia, é algo bem trabalhoso. Embora tenha lido inúmeros livros apologéticos e variados artigos sobre seitas, nunca encontrei uma terminologia adequada para definir estes grupos religiosos. Estudando o assunto constatei - através de fatos - que alguns grupos ditos cristãos, não poderiam ser de fato incluídos como igrejas cristãs verdadeiras. Foi então que cunhei a terminologia: seitas salvíficas.

Primeiramente teríamos a difícil tarefa de definir a palavra seita, que segundo alguns estudiosos, seria – “Um Grupo de Seguidores de um líder humano”. Se entendermos seitas por esta definição, então teríamos grupos ditos evangélicos que também seriam seitas, a exemplo dos Adventistas do Sétimo Dia, Congregação Cristã no Brasil, Igreja Apostólica Renascer, Igreja Internacional da Graça, Igreja Universal do Reino de Deus. A menos que não queiramos admitir, é inevitável afirmarmos que os ensinos destes grupos se restringem a uns poucos pontos realmente bíblicos do evangelho do Senhor Jesus Cristo ao passo que, seus ensinos particulares são priorizados.

Devemos ter em mente que uma seita não salva, assim como nenhuma igreja verdadeira de fato salva, somente Jesus Cristo é quem salva uma pessoa ( Jo 3.16). Mas se uma seita não salva, e uma pessoa sincera que esteja buscando a Deus, procura uma religião falsa, onde o Cristo verdadeiro não é apresentado, ela não chegará ao verdadeiro conhecimento de Deus. Então como uma pessoa pode estar pertencendo a uma seita e ser salva ao mesmo tempo? Devemos entender neste contexto que o Senhor Jesus observa os corações que verdadeiramente estão desejosos pela salvação na sua Pessoa. A história da Igreja, nos fornece informações que em alguns mosteiros remotos da Idade Média havia alguns monges isoladamente que através de seus escritos nos mostram que desfrutavam de uma comunhão verdadeira com o Senhor Jesus Cristo. Temos que admitir que nunca houve de fato uma apostasia total da Igreja do Senhor, mas sim, uma apostasia parcial, o que não é questionado por nenhum pesquisador sério. Então seria muita prepotência de nossa parte admitir que “todos” os monges que passaram por este planeta não alcançaram a salvação em Cristo.

Algo bem diferente é admitirmos que existe salvação no catolicismo romano atual, onde a apostasia é latente em todos os seus círculos . Certamente na Idade Média ou mesmo antes deste período a salvação em Cristo estava acontecendo em todo o mundo, pois sabemos que a Igreja verdadeira jamais foi destruída pelas forças do mal ( Mt 16.18). Sabemos que a salvação nunca foi encontrada nas mesquitas muçulmanas, nem nas religiões orientais ou tribais, ou mesmo no budismo, mas em Cristo a salvação sempre foi oferecia a todos (I Tm 2.4,5). Acreditamos que as pessoas que dispusessem de uma Bíblia, a salvação lhe era mais acessível, pois é pelo conhecimento das Escrituras que se deslumbra a salvação em Cristo. No caso do seguidores do Catolicismo Romano as probabilidades de obter este conhecimento das Escrituras era bem mais acessível. O que se torna impossível ter acesso ao Deus verdadeiro em outras religiões que não dispunham da Palavra de Deus aos seus seguidores.

Se tratando de movimentos neopentecostais, devemos observar que tais organizações religiosas geram diversas ambigüidades e muita frustração por meio de suas doutrinas, em inúmeros de seus seguidores, o que é bem explicado no recente livro do Dr. Paulo Romeiro – “Decepcionados com a graça” da conceituada Ed. Mundo cristão. Alguém pode concluir então - ao ler este artigo - que o comentarista estaria afirmando que “todo o mundo neopentecostal” consiste numa aglutinação sectária. Entretanto, devemos entender que o neopentecostalismo trouxe ao mundo cristão mais ensinos perniciosos do que esclarecedores, ou seja, pouco se dedicaram à transmissão do evangelho verdadeiro. As pessoas que procuram uma igreja neopentecostal, pensando se tratar de uma igreja pentecostal, muitas das vezes está “levando gato por lebre”. Inicialmente, ele julgará que aquele “prato que é lhe servido”, trata-se do genuíno evangelho de Cristo e, com o decorrer dos anos, terá - na maioria das vezes - uma grande decepção. Inúmeros artigos disseminados pela rede mundial já não vêem o movimento neopentecostal com seriedade e, na vida prática, estes “ministros” continuam, dia após dia, enchendo seus cofres profanos, com as moedas de um povo sincero.

Acredito sinceramente que as igrejas mencionadas acima sejam seitas; não merecem o devido crédito teológico, ou mesmo de uma pessoa que, piedosamente, deseja servir a Jesus Cristo. Não questiono a legitimidade da fé de nosso povo, mas o faço em relação aos seus líderes. Com a finalidade de qualificar estes segmentos evangélicos, criei a terminologia, “seitas salvíficas”. E, embora defenda veementemente este ponto de vista, sinto-me compelido a admitir que, afinal, o profundo amor de Deus alcançará grande parte daqueles que freqüentam estas instituições religiosas, pois Deus jamais rejeitará um penitente ( Jo 5.24). Todavia, os já referidos líderes, responderão pelos seus ensinos obtusos, dúbios e fraudulentos que mais produzem divisões do que edificação ( 2 Pd. 2.1-3).

Dentre as igrejas supramencionadas, a única que não deve ser arrolada como parte do movimento neopentecostal é a Congregação Cristã no Brasil - primeira igreja pentecostal formada em solo nacional em 1910, fundada por Louis Francescon.

Esta igreja, em minha opinião, pode ser classificada uma seita salvífica, pois tenho certeza de que existam pessoas salvas por Cristo no seio desta comunidade. Contudo, seu exclusivismo militante; seus ensinos flagrantemente anti-Bíblicos; a defesa obsessiva dos costumes que cegamente praticam como se fossem indispensáveis à salvação; a relutância em praticar o evangelismo público, bem como, sua jactância diante das demais igrejas cristãs no Brasil, figura como algo absolutamente inaceitável para qualquer pessoa que transmite e pratica o verdadeiro evangelho.

Existem pelo menos cinco motivos pelos quais considero estas igrejas seitas:
1- Os membros destes movimentos não são conhecidos em grande parte pelos seus lideres, ou seja estes ministros não conhecem o seu rebanho, algo inconciliável para um ministério pastoral.
2- Eruditos mundialmente respeitados como o Dr. Norman Geisler consideram o movimento palavra da fé como seitas, o que compartilho devido minha visita aos EUA, onde permaneci por meses, conhecendo de perto o movimento da fé. O movimento da fé são as igrejas carismáticas da América que compartilham com a teologia do movimento da fé.
3- Assim como o deus do movimento da fé é um deus falso, o deus do neopentecostalismo brasileiro também o é. É um deus bem diferente do Deus Bíblico apresentado pelas Escrituras. No livro “Templo, teatro e mercado, p. 369,374”, Leonildo S. Campos apresenta o deus do neopentecostalismo:
“ O Deus que emerge das afirmações iurdianas é uma divindade escrava de suas promessas, dentro de uma lógica implacável, assim argumenta o pastor: Deus promete saúde e prosperidade, exige que o fiel faça a sua parte, contribuindo para a “casa de Deus”. Cumpridas todas as exigências, com muita fé e nenhuma dúvida, o milagre só tem que acontecer. Basta exigir de Deus a realização de tais desejos. Mas e se não der certo? Ainda dentro dessa lógica, a culpa é do fiel, que deve ter tido falta de fé em algum momento do processo. Aos olhos de uma população empobrecida, crédula, em busca de soluções de menor esforço, carente de auto-estima e otimismo, a cura divina se paresenta como um meio atraente e irresistível, principalmente aos que se sentem sem luz dentro de um enorme túnel. É claro que nem todas as expectativas de cura são atendidas”.
4- Os adeptos do movimento neopentecostal em grande parte apresentam um diagnostico igual ao dos sectaristas, com síndrome de perseguição, relutância em raciocinar biblicamente e não aceitam serem refutados.
5- O movimento neopentecostal sempre está inovando seus cultos com os mais absurdos atrativos para uma igreja cristã, contanto que a Igreja Cristã verdadeira não precisa de nenhuma inovação pois é o evangelho que transforma o individuo em nova criatura, não necessitando de atrativos mundanos para atrair os pecadores à Cristo.


Acredito que as opiniões ventiladas através deste artigo, não sejam exatamente, consensuais. Não obstante, também creio se trata de uma maneira mais clara de entendermos o cristianismo pós-moderno. A confusão criada por estes grupos nos coage a agir com maior precisão, quando nos referimos a eles. Quero recomendar àqueles que desejam ser verdadeiros discípulos de Jesus, que procurem uma igreja evangélica comprovadamente bíblica, onde as autênticas doutrinas cristãs sejam continuamente enfatizadas e cristãos genuinamente transformados por Jesus Cristo, congreguem, sem legalismo, nem exclusivismo. Somente a Palavra de Deus trará o refrigério que as pessoas estão buscando para suas vidas ( Mt 11.28,29).

Marcos Lopez - Presidente da Sociedade dos Pensadores Cristãos

A democracia e a economia


Autor(es): Renato Janine Ribeiro
Valor Econômico - 21/11/2011

Em nosso tempo, nada rivaliza com a economia, em termos de poder. Menos de dois séculos atrás, Karl Marx chocava o mundo ao dizer que a política (estou simplificando) seguia a economia. Faz cinquenta anos, a direita usava argumentos religiosos, espirituais, morais para enfrentar o "materialismo ateu", que reduzia a riqueza do ser humano, criado à imagem de Deus, à vulgaridade econômica. Mas como bem disse, embora grosseiramente, James Carville, o marqueteiro de Bill Clinton que foi decisivo para elegê-lo presidente dos Estados Unidos: "O que conta é a economia, seu estúpido".

Esse fato tem vários desdobramentos. O primeiro fortalece a democracia. Acabou, quase por completo, pelo menos nos países em que há comunicação de massas, a ideia de que os pobres acatariam sua condição porque Deus assim o quis. Uma notável peça de Pedro Calderón de la Barca, "O grande teatro do mundo", sustentava, na década de 1630, que cada um deveria contentar-se com sua condição social, do miserável até o monarca, e cumprir o seu papel (daí, a referência ao teatro) adequadamente. Hoje, nem pensar. Em nossa sociedade, todos querem viver melhor. Mesmo quem está no topo da escala social e poderia nada almejar a mais, continua desejando subir. Quanto aos mais pobres, nenhum argumento religioso os convencerá de que devem suportar sua situação, digamos, cristãmente. Um arcebispo de Diamantina, líder da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, disse certa vez que precisa haver pobres, e mesmo muito pobres - porque, se não houver, como os ricos conseguirão ir para o céu, não podendo exercer a virtude da caridade? Admirável essa preocupação de salvar os ricos no Além, ainda que às custas dos pobres aqui e agora. Mas acabou. Ninguém mais diria essa tolice, hoje.

Portanto, os pobres querem, dos governos, que os ajudem a melhorar de vida e a deixar a pobreza. A classe média quer subir na vida e os ricos, pouco numerosos mas com bala na agulha, também. Isso faz que, em países como o nosso, a grande maioria de pobres tenha bem claro o que deseja da democracia: que ela seja social, isto é, que não fique só na política, mas mexa também na estratificação da sociedade, tornando-a mais justa. Esse fator, fortemente democrático, está ligado ao primado da economia em nossos tempos.

Mas há outro lado, que é pouco democrático. Porque quem entende da economia? Bem poucos. O sufrágio universal se impôs. Os eleitores têm cada vez mais consciência do que desejam e querem. Mas o instrumento para realizar essa prosperidade crescente, ou pelo menos para acabar com a miséria, reduzir a pobreza e baixar a desigualdade, é arcano - isto é, de difícil compreensão. Em outras palavras: está numa ciência (ainda que não exata), cujo domínio exige especialização e conhecimento profundo. Daí que as eleições tenham alcance limitado. Isso porque, entre o dia da eleição, que é quando se manifesta a democracia, isto é, a soberania popular, e os quatro anos de gestão dos negócios públicos, onde a economia prevalece, há uma distância - e mesmo um abismo.

Tudo isso, tanto o aspecto democrático que consiste num povo que não aceita mais a pobreza como natural ou santa, quanto o lado pouco democrático de uma gestão das coisas cuja compreensão escapa à esmagadora maioria, traz consequências para as democracias. Primeira e óbvia: nunca se promete uma recessão, um empobrecimento. O que se oferece é o contrário. Vejam a Califórnia, tema de reportagem de novembro na "Vanity Fair", acessível na Internet: o Estado quebrou, vários municípios ricos quebraram, sobretudo porque uma emenda constitucional de perfil conservador exige dois terços do Legislativo para aumentar qualquer imposto. Kaputt. É um caso extremo, mas que mostra que políticos, quando concorrem a uma eleição, têm de omitir o que vão fazer, ou mesmo mentir. De onde José Serra tiraria os aumentos que prometeu, no mês final antes da eleição de 2010, para o salário mínimo e a bolsa-família? Não o acuso; apenas digo que nenhum político pode agir de outro modo. Vão prometer. Então, a emancipação do povo, que consiste em ele não acatar mais a pobreza, vem junto com sua infantilização: ao povo, não se conta a verdade.

Daí, outra consequência: o primeiro ano de governo é de cortes e talvez de recessão. Já o ano da eleição tem que ser próspero, custe o que custar. Os economistas ficam de cabelos em pé ao verem isso, claro. Mas, por outro lado, suas receitas só eles entendem. Pouca gente mais. Alguém acredita que FHC entenda profundamente de economia? Ele conhece finamente a sociedade, seus processos e sua política. Emprestou sua competência para viabilizar o Plano Real, e com ele ganhou dois mandatos presidenciais. Mas a economia tem segredos. Por isso, quem entende dela - ou quem convence os outros que entende dela - tem acesso direto aos governantes.

E aqui vem nosso último problema. Quase todo o receituário dos economistas, salvo os keynesianos e os (poucos) marxistas, é conservador. Propõe corte de gastos públicos, redução de direitos sociais, até mini-recessões. Não há como defender isso junto ao povo, seja este grego, italiano ou brasileiro. Há alternativas? Claro que sim. A Argentina renasceu sem esse receituário. O Brasil superou 2008 sem essas receitas. A Islândia se recusou a cumpri-las. Claro que, em outros casos, o caminho será outro. Mas geralmente só se diz a receita quase única, aquela que nunca passaria numa eleição. Daí que, se a democracia exige uma economia em crescente prosperidade, a atuação dos economistas nem sempre seja muito democrática.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

A aventura de educar os filhos

Alessandro Garcia







Atualmente, não é a ignorância a principal responsável pela dúvida sobre de que forma se deve realizar determinada ação ou proceder em determinado caso. A abundância de conhecimentos é o que produz mais perplexidade, maiores qüestionamentos e desorientação sobre um enorme leque de possibilidades que se abre. Nisto, se inclui com certeza, a paternidade e a forma de se educar os filhos, uma “arte” que nunca primou pela facilidade, mas que, nos dias atuais, encontra ainda mais empecilhos frente às técnicas diversas, e especialistas das mais diferentes correntes a afirmar o que se deve e o que não se deve ser feito. O que se deve ensinar aos filhos é o título do livro e a pergunta que a filósofa espanhola Victoria Camps propõe para tornar ainda mais saudável tal debate, e tentar enriquecer todo e qualquer meio onde a questão da educação dos filhos se faz presente.

Desde o começo, vê-se que a autora não pretende dar uma resposta definitiva sobre o tema. Já no prólogo esclarece não ser especialista em psicologia, nem em pedagogia ou qualquer outra disciplina que poderia ser mais apropriada para tratar sobre o tema. Utiliza-se, então, do que conhece: a filosofia e a experiência de ser mãe de três filhos (para ela, a tarefa de educar uma criança possui muito mais segredos e meandros do que os que poderiam ser transcritos em forma de um manual de instruções). É para a vida que um filho é criado. Não há, portanto, regras rígidas e pré-estabelecidas para se obter êxito na boa educação de uma criança. Da mesma maneira que fatalmente uma mulher chega a ser mãe sem ter se preparado fundamentalmente para sê-lo, as receitas também de nada serviriam para tentar moldar os descendentes de quem se encarrega desta louca e maravilhosa tarefa.

Se não há regras, no entanto, fica a cargo do instinto (ou, quem sabe, de um certo “talento natural”) a educação de um filho? Bem, se não há receita, para que serve escrever (e mesmo ler) um livro cujo título se propõe à elucidação? E, por favor, não se culpe uma possível tradução oportunista: o título original do livro aparece com a mesma tentadora frase em resposta às dúvidas de qualquer pai ou mãe (Qué hay que enseñar a Los Hijos).

Victoria Camps, como boa filósofa que mostra ser, nada mais faz do que contribuir – e de maneira bem significativa – para as questões que invariavelmente se levantam nestas horas. E sua contribuição se dá de uma maneira prática e direta. Se é verdade que a abundância de conhecimentos gera mais perplexidade, a autora não se perde em rodeios ao abordar assuntos que considera de fundamental importância. Por isso, o livro é dividido em dezenove capítulos, nomeados com uma idéia ou conceito, que servem tanto para elaborar perguntas (e suscitar reflexões quanto para abordar pontos primordiais sobre o que se é considerado virtude e passível de ser ensinado aos filhos.

E são idéias e conceitos essenciais – felicidade, caráter, responsabilidade, auto-estima, respeito, gratidão, liberdade, amabilidade, etc. – que podem ser lidos como se consulta um dicionário (neste caso, buscando o significado que a autora coloca e que usa, na maioria das vezes, a partir do senso comum). Ou ainda regando-se ao prazer de estabelecer diálogo com a autora sobre determinados temas que se vinculam uns aos outros, como quem conversa com uma "mãe amiga" sobre os desafios da criação de uma criança. Afinal, é a despretensão que norteia as páginas do livro: despretensão de dar respostas definitivas, porque simplesmente não há respostas definitivas.

Começando pela "felicidade", a autora recorre a Sêneca para afirmar que “a vida feliz é a que está em conformidade com a natureza das coisas”. Frase que em si já é um ótimo argumento para reforçar que ser feliz pode ser simplesmente saber aceitar. Aceitar a própria realidade: a sua e a dos filhos que não devem ser o resultado das frustrações dos pais ou dos seus desejos pessoais não realizados.

No fim das contas, vê-se nisso uma certa ingenuidade; a mesma que abriga desejos de conquista da felicidade. Vista como algo táctil, ou como um objetivo a ser alcançado, ela nada mais é do que o próprio prazer da realização de tantas pequenas e grandes coisas. Ter em vista, continuamente, esta verdade, já poderia ser um grande "atalho" para muitos pais que nada mais querem a não ser felicidade dos filhos.

No entanto, educar uma criança para felicidade, para, digamos a "não-realização" imediata e para a fuga dos modelos de oferecidos pela sociedade é a grande questão. Como levar uma criança a entender que "felicidade" não está necessariamente na conquista mais "belo", no mais "rico" e no mais "forte"? Cabe aos pais se perguntarem se não são os próprios fomentadores da disputa da satisfação a qualquer preço.

Conforme vão se apresentando os capítulos, descobre-se o quanto é difícil proporcionar a tão sonhada "boa educação". Se a necessidade de se desvencilhar de regras rígidas esbarra em uma tentativa de “educar na liberdade”, quão irresponsáveis e indisciplinados não poderão ser nossos filhos? E como embutir-lhes o respeito sem produzir, ao mesmo tempo, o medo? São perguntas que se estendem por exatas 118 páginas e qie funcionam quase como um terapia de grupo de pais. Pois, longe da imposição pedagógica, dos “macetes” ou das formas “modernas” de educação, o que se tem neste livro é um material de leitura fácil e agradável.

Como não poderia deixar de aparecer em um livro desta espécie, são gastas algumas páginas para um pequeno debate acerca da televisão. É um dos poucos momentos em que seu discurso se iguala ao de todos os detratores da TV, com argumentos já vistos e revistos. Considero perda de tempo acusar, igualmente, a publicidade como "manipuladora" e dar eco a teorias antiquadas que vêem os programas televisivos como "monstros devoradores da infância": “As crianças – há estatísticas que o confirmam – passam horas demais vendo televisão, e vendo certos programas que vão da trivialidade ao mau gosto, quando não caem no decididamente desaconselhável.”

São pontos, no entanto, que, de maneira alguma, ofuscam o valor da obra (e da sua conveniente contribuição em tempos onde tudo é "fácil", "rápido" e "descartável"). Livros assim servem como um lembrete de como é preciso manter-se atento às pequenas peculiaridades e aos grandes esforços durante a educação das crianças. Uma tarefa que não se reduz a pequenas receitas, e para a qual são necessários permanentes atenção e amor.

A pobreza cultural nossa de cada dia

Alessandro Garcia



Vivemos em um terrível mundo de disparidades, em que as extremidades realmente saltam aos olhos pelas diferenças de universos em que estão inseridas e isto não é mais novidade para ninguém. Ainda assim, por vezes, eu permito me chocar quando me dou ao trabalho de pensar, onde, meu Deus, vamos acabar todos. Passando por cima de todas as admoestações políticas, que não servem para este espaço (e nem tenho cacife para tentar engendrar algum tipo de consideração do gênero), o mundo há tempos está insurgido por lutas que pedem igualdade de condições para todos e condições menos horripilantes de miséria a que metade do mundo está condenada. A OIT – Organização Internacional do Trabalho, braço da Organização das Nações Unidas, acaba de revelar a informação de que cerca de três bilhões de pessoas – logo, a metade da população do planeta – vive na pobreza com uma renda de menos de US$ 2 por dia. São quase todas pessoas que moram em países em desenvolvimento. Não, não me estenderei ainda mais por dados que possam ressaltar todo o caráter político por trás de informações como esta, pelos motivos que enunciei acima. O que me vale de mote é quando dados como estes se apresentam a mim de maneira tão crua e assustadora, mas que, na realidade, servem também como indicadores da miséria nossa de cada dia a que estamos mergulhados e que cada vez mais se reflete a partir destas constatações.

Sem qualquer sentimento de culpa pelo profundo mal-estar do mundo, é profundamente irônico ler estas informações quando navego pelos sites a procura de novidades no universo cultural. Não porque me deixe relevar por grandiosos sentimentos de piedade para com o próximo – ainda que isto exista em mim. Mas é que junto com estes fatos, vai se somando a tal miséria nossa de cada dia que aparece em porcentagens e em fatos menos assustadores do que a imagem de uma criança desnutrida a rastejar pelo chão árido de algum país distante ou em alguma viela muito próxima. A tal miséria nossa de cada dia se revela em cada passada de olhos pelos canais de televisão. Na medida em que cada vez mais nos afundamos nas mazelas apresentadas por toda esta gama de programas que infestam as tardes malditas da tv aberta, mais se torna palpável aos mais atentos, a sordidez das pobres vidinhas que se dobram aos apelos destes programetes. Para alguns ainda é possível manter um distanciamento através, por exemplo, de algum canal de tv por assinatura – o que é o meu caso. Quando pessoas como eu têm a opção de se afastar da cada vez mais detestável grade de programas que os canais abertos oferecem, parece que nem tudo está perdido. Mas, longe de querer me igualar aos mais extremados e contundentes críticos, que acusam a televisão de todos os males do mundo, as coisas têm se encaixado com tal perfeição que parece que caminhamos com cada vez mas rapidez para um período de obscuridade cultural assustador.

Leio em algum lugar por aí que João Gordo – o apresentador metaleiro da emissora MTV – protagonizará um programa nos moldes do The Osbournes, também veiculado pela mesma emissora, em que a intimidade da família de um figurão do rock, Ozzy Osbourne, era vigiada na sua modorra cotidiana, com as poucas e insignificantes tensões que a filmagem da vida de uma família pode proporcionar, por mais famosa que sejam os elementos desta. João Gordo vai ter a sua vida e da sua mulher vigiada, enquanto faz as suas coisas de sempre, dentro do seu apartamento, para deleite da quantidade de espectadores que se dispuserem a assisti-lo. E eu me pergunto: pra quê isso? Uma vez descobertos, os tais reality shows se multiplicam nos mais diversos formatos e nas mais diferentes emissoras. Todos querem provar o gostinho da audiência elevada pela observação cotidiana do "nada" de alguém.

A noção assustadora de que, ao final de uma semana de trabalho (quando o tem), um membro de uma classe menos favorecida financeiramente tenha de ficar restrito no seu fim de semana aos maçantes programas de auditório em que se intercalam as maiores atrações populares em sua forma repetitiva e idiotizante de música, é quase como imaginar alguém condenado a viver em um buraco escuro e úmido, alimentando-se das pequenas porções de ração que alguém lhe joga à boca. Estas sensações musicais a que estes miseráveis culturais ficam restritos, tão gentilmente oferecidas para seu deleite, são a ração jogada à boca do condenado, grato por que, afinal, ao menos pode alimentar-se. Sem opões, é verdade. Imaginar que a ascensão destes grupos e cantores fabricados como produto midiático se deu pelo reconhecimento que as camadas populares lhes deram pelo ótimo divertimento oferecido, é enganar-se na ignorância. Ainda que estes fazedores de música sejam algumas vezes tão vítimas quanto os consumidores – uma vez que também estão cercados por sua própria e irrecuperável ignorância que os força a crer na qualidade e na necessidade de seu trabalho – é desesperador pensar que se possa reconhecer a validade de seu trabalho como forma de entretenimento para o mais miserável dos homens.

O que me obriga a destacar a tamanha diferença de nuances que os mundos polarizados dos mais e menos favorecidos apresentam, é quando penso o quão estranho é a possibilidade de pertencer ao primeiro grupo e ter todos os privilégios e sensações e opções e conhecimentos diversos que tal condição me oferece, e, ainda assim, ser quase obrigado a permanecer na conivência de quem tem que aceitar que a vida é assim mesmo (sempre existirão os esfarrapados, e a eles ofereçamos as sobras – inclusive e principalmente as culturais). Mesmo que o debate seja maior e se estenda e deva se estender principalmente ao processo inicial (sobre a forma de colocar alguma comida na boca de tantos famintos), a miséria pequena de cada dia também assusta e mostra suas garras com mais intensidade que os incautos podem perceber. E são cada vez maiores as chances de, realmente, não percebermos, mergulhados que estamos em um território de mesmice, num conformismo doido, aceitando tudo como a realidade incontornável que deve ser. Não se importar que sejam cada vez maiores os grupos musicais de encomenda a paparem prêmios em festivais de grandes emissoras, que cada vez mais tenhamos que estar passíveis frente ao emburrecimento de todo uma população na frente das idiotizantes telenovelas com suas tramas banais e absurdas, que achemos engraçado sujeitos se espancando em quadros televisivos com suas peculiares “pegadinhas”, que os livros sejam bens de consumo inalcançáveis ao mais humilde e desejoso trabalhador braçal, e que cinema e teatro sejam praticamente uma piada para estes mesmos... Tudo isto forma uma armadilha perfeita para o nosso embrutecimento e aceitação do quadro como, realmente, imutável.

Parece que tais observações em nada se assemelham às do primeiro parágrafo deste texto, mas é esta miséria cotidiana que se soma à miséria dos famintos e contribui para que a civilização mergulhe cada vez mais em um manancial de barbaridades e futilidades que já não têm mais volta. Por que, se tem volta, eu não tenho a mínima idéia de qual é.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

MULHERES RICAS. ATÉ QUE PONTO CHEGAMOS

Depois de assistir ao primeiro episódio de “Mulheres Ricas”, sugiro um acréscimo à famosa frase atribuída a Joãosinho Trinta. Ficaria assim: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual – e quem gosta de exibir riqueza bom sujeito não é”.

Eis a ideia central do programa que a Band começou a apresentar nesta segunda-feira: ver até que ponto um grupo formado por ricas, ex-ricas e querendo-ser-ricas têm coragem de expor a própria imagem em situações constrangedoras, falando bobagens, fingindo gastar dinheiro e simulando felicidade.

Dirigido por alguém competente, com um mínimo de malícia, “Mulheres Ricas” poderia ser um divertimento fascinante. Infelizmente não foi o caso. Ficou bem longe disso, aliás.

O primeiro episódio teve a aparência de um filme institucional destinado a promover o lançamento de um grande empreendimento, um misto de shopping center, prédios residenciais e casas de luxo.

Provocadas, as cinco participantes não deixaram pedra sobre pedra e deram show de extravagância e de frases feitas. Tudo tão autêntico quanto a fachada da Daslu, que imita uma “Villa” italiana.

“Ser rico é uma delícia. O rico tem obrigação de gastar”, explicou a joalheira Lydia Sayeg. “Ter um cabeleireiro só para mim é a realização de um sonho”, revelou Val Marchiori sobre o sujeito que vive à sua disposição, “24 horas por dia”.

“Minha família é de uma origem muito boa, rafinada”, contou Narcisa Tamborindeguy, refinando o português. “A Sissi pensa que é gente”, observou Brunete Fracaroli oferecendo água mineral no copo para o seu maltês.

Mais surpreendente que a vaidade das protagonistas de “Mulheres Ricas” foi a disposição exibida por alguns coadjuvantes de partilhar os seus dotes com o público.

Gente como o maitre do restaurante Gero, que levou pessoalmente uma refeição ao apartamento de Val, ou o marido de Debora Rodrigues, que falou da felicidade de ter casado com uma mulher que apareceu na capa da “Playboy”, ou ainda o namorado de Narcisa, um conhecido jornalista, apresentado por ela como um gênio, para não falar do coitado que Brunete disse ser “um dos meus braços direitos”.

Não posso deixar de observar que a Band mais uma vez mostrou todo o respeito pelos horários de sua grade. Programado para estrear às 22h20, “Mulheres Ricas” foi ao ar doze minutos antes, às 22h08, assim que a novela “Fina Estampa” terminou na Globo. Coisa de país rico, desenvolvido.

Em tempo: Mais informações sobre “Mulheres Ricas” você encontra aqui; uma entrevista com Narcisa pode ser lida aqui.