Capítulo 39 - sadi
Presentes, fundos comuns e acordos de trocas, combinados com auto-suficiência, reduzem drasticamente a necessidade de câmbios econômicos, isto é, de valor calculado. A diversidade das identidades culturais destrói o pedestal da produção de massa, e assim também a sua comercialização. O investimento em tempo-trabalho será difícil de comparar, e a medida exata do valor de troca (através do dinheiro) será praticamente impossível. Mas assim mesmo pode ocorrer que certos ibus (eles ainda têm seu baú particular, o taku) ou bolos se interessem nesse tipo de trocas calculadas, para determinados fins. Essa é a função dos mercados locais, sadi. Esses mercados complementam as possibilidades de troca, determinando uma pequena parte da base existencial dos bolos.
Sob essas condições a circulação de dinheiro deixa de ser perigosa e não pode desenvolver seus efeitos infecciosos – o dinheiro vai ser um meio muito restrito.
A maioria dos bairros e comarcas (cidades) organiza feiras diárias, semanais ou mensais; as regiões mantêm feiras periódicas. Bairros ou cidades estabelecem locais especiais (antigos galpões de fábricas, grandes lojas, hangares, etc.) para seus mercados, de forma que possam funcionar também no inverno ou quando chove. Em torno dos mercados podem florescer inúmeras atividades sociais como bares, teatros, cafés, bilhares, salas de show, etc. Os mercados, como os bazares, serão pontos de encontro, espaços para a vida social e o entretenimento. Ao mesmo tempo, são pretextos para centros de comunicação.
Os mercados serão organizados e supervisionados por comitês (sadi’dala). Esses comitês vão determinar, de acordo com a decisão das respectivas assembléias, quais produtos podem ser trazidos para o mercado e em que condições. Mercados são ideais para produtos não-essenciais, fáceis de transportar, raros, duráveis e altamente sofisticados. Tais produtos terão freqüentemente características únicas, serão construções individuais, especialidades, delicadezas, drogas, joalheria, roupas, programas, etc. Se você precisa de tais itens não pode depender de presentes, e eles também não são próprios para acordos de troca a longo prazo. Se houver um banco de dados, é possível conseguí-los usando o mercado eletrônico.
Como não vão existir cédulas ou moedas internacionais, o mercado local vai ter seu próprio dinheiro não-conversível, ou talvez fichas como as de cassino. Os compradores e vendedores entram num mercado desses sem dinheiro algum e abrem uma conta de crédito no escritório do comitê do mercado (novamente, uma coisa simples de fazer por computação). Aí recebem 100 ou 1.000 cruzados, cruzeiros, shillings, florins, pennies, dólares, ecus, pesos, rublos, etc., que ficam devendo ao banco do mercado. Com esse dinheiro eles podem comprar e vender até o mercado fechar, no fim da tarde. Então eles devolvem as cédulas ou moedas, e um saldo positivo ou negativo é registrado sob seus nomes até o dia seguinte, etc. Essas contas não podem ser transferidas para outros mercados. A acumulação de contas muito grandes (fortunas) poderia ser dificultada pela programação de um dado misterioso no computador que cancelasse de repente todas as contas após períodos de, digamos, seis meses a dois anos. Já que não há aparato policial para punir quebras contratuais, qualquer tipo de negócio seria muito arriscado. Nada disso bane completamente a circulação do dinheiro, porque os ibus ainda poderiam se refugiar no ouro e na prata. Em distritos isolados, a moeda local poderia circular sem problema algum. A auto-suficiência e as outras formas de troca são o que mantêm o dinheiro dentro de certos limites (como acontecia na Idade Média).18
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
DINHEIRO VINDO DO NADA
Capítulo 41 - yakaa
O ibu tem boa índole, simpática e carente de amor, ou é briguento, fechado, violento? Será que só é agressivo porque o pesadelo do trabalho e da repressão o deixou invejoso, frustrado e irritável? Pode ser que sim. E ainda podem existir também ciúme, orgulho ofendido, destrutividade, antipatia, luxúria e assassinato, megalomania, obstinação, agressividade, explosões de raiva, delírios, Não dá para deixar de fora essas possibilidades. Por isso a yaka é necessária ao bolo’bolo.
A yaka torna possíveis as querelas, disputas, lutas e guerras.19 Tédio, tristes histórias de amor, loucura, misantropia, decepções, conflitos acerca de honra e de estilo de vida e até mesmo o êxtase podem levar a yakas. Elas podem acontecer entre:
ibus e bolos
bolos e bolos
tegas e ibus
bolos e vudos
ibus e sumis
vudos e sumis
etc.
Como outras formas de troca (neste caso, de violência física), as yakas (lutas) podem ser regulamentadas por certos acordos comuns, de modo a limitar o risco e o perigo. Ajudar os ibus e os bolos a manter o código da yaka será uma das tarefas das assembléias de bairro e de comarcas:
um desafio formal deve ocorrer na presença de ao menos duas testemunhas;
um desafio sempre pode ser recusado;
as respectivas assembléias (yaka-comitês de bolos, bairros, comarcas, etc.) devem ser convidadas a tentar a reconciliação;
a escolha das armas e da hora do duelo cabe ao desafiado;
o tipo de armadura é parte da arma;
o duelo deve ocorrer na presença de uma delegação dos respectivos comitês;
o respectivo yaka-comitê providencia as armas para ambas as partes;
assim que uma das partes se declara vencida, a luta cessa;
armas cujo alcance é maior do que a capacidade de ver o branco do olho do inimigo são proibidas (cerca de 100 jardas);
somente armas mecânicas (o corpo, bastões, maças, espadas, fundas, lanças, flechas, machados, pedras) são permitidas; nada de revólveres, venenos, granadas, fogo, etc.20
Os comitês de duelo arrumam as armas e o campo de batalha, organizam árbitros (armados, se preciso), cuidam de transportar e medicar os feridos ou moribundos, protegem os espectadores, animais, plantas, etc.
Se comunidades maiores (bolos, bairros, comarcas, etc.) entram em luta, os respectivos comitês de duelo podem ser obrigados a consideráveis esforços. Os danos causados pelas lutas devem ser reparados pelos desafiantes, mesmo em caso de vitória. Os duelos quase nunca estarão ligados a vantagens materiais para os vencedores, já que são muito caros e as partes são obrigadas a viver juntas depois. Assim, a maioria das motivações para duelos estaria no campo das contradições emocionais, culturais ou pessoais. Eles podem servir para aumentar ou diminuir a reputação de uma pessoa (munu). (No caso de prevalecerem as ideologias não-violentas, diminuir.)
É impossível predizer quão freqüentes, violentas e extensas serão as yakas. Elas são um fenômeno cultural, uma forma de comunicação e interação. Já que envolvem muitas desvantagens sociais e materiais (feridas, danos, reputações arruinadas), provam que são a exceção. Duelos e lutas não são jogos, e não podem simplesmente significar a representação ou sublimação da agressividade – não podem ser considerados um tipo de terapia; são riscos sérios e reais. É até mesmo possível que certas identidades culturais tenham que morrer sem lutas periódicas ou permanentes. A violência continua, mas não necessariamente a história.
fim
Solidão e política
09:17 | 22 de Outubro de 2012
Emiliano José*
Está em Aristóteles ser o homem um animal político. Assim, com essa compreensão, o ser humano seria inerentemente político. Hannah Arendt irá contrariar essa formulação, ou enriquecê-la, ao defender que a política surge não no homem, mas sim entre os homens. A liberdade e a espontaneidade dos diferentes homens são pressupostos necessários para o surgimento de um espaço entre eles onde só então se torna possível a política. Isso explica a sua noção de que o sentido da política é a liberdade.
Está em Aristóteles ser o homem um animal político. Assim, com essa compreensão, o ser humano seria inerentemente político. Hannah Arendt irá contrariar essa formulação, ou enriquecê-la, ao defender que a política surge não no homem, mas sim entre os homens. A liberdade e a espontaneidade dos diferentes homens são pressupostos necessários para o surgimento de um espaço entre eles onde só então se torna possível a política. Isso explica a sua noção de que o sentido da política é a liberdade.
O homem, por isso, ao fazer política sempre necessariamente contracenando com outro, tornou-se dotado, de uma maneira especialmente misteriosa, do dom de fazer milagre – a saber, ele pode agir, tomar iniciativas, impor um novo começo. Esse agir, esse começar de novo, esse contracenar permanente com outros homens, é o que se denomina política, o que possibilita a civilização, permite um começar de novo, o surpreender, o avançar nas conquistas democráticas.
Faço essa introdução tomando de empréstimo noções de Hannah Arendt para repor a importância e a dignidade da política, que vem sendo permanentemente bombardeada nos tempos que vivemos, com ou sem razão. Em geral, nesse bombardeio, misturam-se alhos com bugalhos, e a crítica justa perde-se junto com equívocos que terminam por desqualificar inteiramente a política, como se ela não fosse uma necessidade da vida entre os homens.
Ao dizer que a política nasce entre os homens, Hannah Arendt está dizendo que ninguém faz política solitariamente, como parece óbvio, mas nem sempre o é. O objetivo da política é a garantia da vida em sentido mais amplo, ela dirá. Quanto mais quando a vida, toda a humanidade, está sob ameaça permanente desde meados dos anos 1940, com a invenção da bomba atômica, referência permanente dela, em vários de seus livros. Só a política pode salvar a todos, ao tentar, insistentemente, criar marcos civilizatórios democráticos capazes de eliminar a ameaça atômica.
Penso nas tantas pessoas que dizem descartar a política, que imaginam saídas individuais. Nos que cultivam a idéia de recolhimento ao núcleo familiar, numa solidão que os livre da política, que os alheie da dureza do mundo, que lhes dê paz. A solidão, boa eventual e momentaneamente para os que queiram deparar-se consigo mesmos, pode ser, também, a perda de confiança no outro, a abstinência diante do mundo, o medo da pluralidade, da confrontação com a riqueza dos diferentes, base da vida política.
Quem se recusa a viver no deserto, e o deserto são as condições nem sempre serenas da existência, quem não compartilha seu destino com os demais, com a pluralidade humana, não modifica a existência, não constrói o oásis, o mundo onde podemos nos mover em liberdade – são metáforas mais que apropriadas também de Hannah Arendt, e uma crítica dura aos que se alienam da existência, aos que recusam a política. Creio que a política nos ensina a conviver com o deserto e com o oásis, com a alternância dessas condições.
É no espaço público que o homem assume a responsabilidade pelo mundo, compartilha com os outros essa responsabilidade, coloca sobre seus ombros o destino comum. É com a política que ele abre caminho constantemente para uma convivência fraterna, o que não quer dizer isenta de conflitos e de diferenças, partes constitutivas da vida democrática, parte da política. Penso nos tantos que imaginaram ter encontrado seus oásis com o exercício de qualquer espécie de solidão. Podem até imaginar ter encontrado a paz por algum tempo.
Mas, o deserto volta a bater à sua porta, com sua aspereza e sua beleza. Sua impressionante diversidade, a maravilha da pluralidade sob a aparência da aridez. O mundo reclama o concurso de todos. Não há saída à margem, por mais que se tente. A preocupação com o mundo, o exercício da política, pressupõe algo como uma obrigação, um dever de se preocupar, como chega a dizer Hannah Arendt literalmente. Dela: “que a esperança repouse sobre aqueles que vivem apaixonadamente sob as condições do deserto e que podem agir com coragem: pois o que eles fazem é político”. Viva a política!
*Artigo publicado na edição desta segunda-feira, 22, no jornal A Tarde.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Medíocres e perigosos
O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro – tudo o que consegue juntar mas só têm utilidade para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.
A maioria passou a vida toda tendo tudo aos alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – e cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Outros cresceram em meios menos abastados – e bastou angariar postos na escala social para cuspir nos hábitos de colegas de velhos andares. Quem não chegou aonde chegou – sozinho, frise-se – não merece respeito.
Rico, ex-pobre ou falidos, não importa: o reacionário clássico enxerga em tudo o que é diferente um potencial de destruição. Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar seus direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho na sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros anti-bala não angariam de todo a sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar familiares e ameaçar os seus (porque os seus nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso).
Como não conhece o mundo afora, a não ser pelas viagens programadas em pacotes que garantem o translado até o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).
Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.
Nos anos 70, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.
Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo fazia sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo lugar na fila do fast food.
E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro.
Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio ao seu estado rico tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos que a massa que agora agora quer construir casas em seu bairro, frequentar os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).
Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e sua indignação.
Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve: os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os maconheiros que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, os sem-terra que não querem trabalhar, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola e combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.
O mundo ideal, para o reacionário, é um mundo estático: no fundo, ele não se importa em pagar impostos, desde que não o incomodem.
Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.
Quando as queixas não são mais suficientes, eles juntam as suas solidões e ódio à coletividade (ironia) e passam a se interessar por política. Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Seus representantes, sabendo como agradar à plateia, são eleitos como guardiões da moralidade. Sobem a tribunas para condenar a devassidão, o aborto, a bebida alcoolica, a vida ao ar livre, as roupas nas escolas. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.
Mas, quando o reacionário se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, bota para fora sua paranóia e pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático). E se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira, na Europa, arrebentam árabes e latinos, na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades (leia mais AQUI).
O reacionário, no fim, não é patrimônio nacional: é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.
Para ele, tudo o que é diferente tem potencial de destruição
Como tem medo de tudo, vive amargurado, lamentando que jamais estenderam um tapete à sua passagem. Conserva uma vida medíocre, ele e suas concepções e nojos do mundo que o cerca. Como tem medo, não anda na rua com receio de alguém levar muito do pouco que tem (nem sempre o reacionário é um quatrocentão). Por isso, só frequenta lugares em que se sente seguro, onde ninguém vai ameaçar, desobedecer ou contradizer suas verdades. Nem dizer que precisa relaxar, levar as coisas menos a sério ou ver graça na leveza das coisas. O reacionário leva a sério a ideia de que é um vencedor.A maioria passou a vida toda tendo tudo aos alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – e cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Outros cresceram em meios menos abastados – e bastou angariar postos na escala social para cuspir nos hábitos de colegas de velhos andares. Quem não chegou aonde chegou – sozinho, frise-se – não merece respeito.
Rico, ex-pobre ou falidos, não importa: o reacionário clássico enxerga em tudo o que é diferente um potencial de destruição. Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar seus direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho na sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros anti-bala não angariam de todo a sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar familiares e ameaçar os seus (porque os seus nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso).
Como não conhece o mundo afora, a não ser pelas viagens programadas em pacotes que garantem o translado até o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).
Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.
Nos anos 70, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.
Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo fazia sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo lugar na fila do fast food.
O reacionário vive com medo. Mas não é inofensivo. Foto: Galeria de GorillaSushi/Flickr
Para não dividir espaços cativos, frutos de séculos de exclusão que ele não reconhece, eleva o tom sobre tudo o que está errado. Sabendo de seus medos e planos de papel, revistas, rádios, televisão, padres, pastores e professores fazem a festa: basta colocar uma chamada alarmista (“Por que você trabalha tanto e o País cresce tão pouco?”) ou música de suspense nas cenas de violência (“descontrolada!”) na tevê para que ele se trema todo e se prepare para o Armagedoon. Como bicho assustado, volta para a caixinha e fica mirabolando planos para garantir mais segurança aos seus. Tudo o que vê, lê e ouve o convence de que tudo é um perigo, tudo é decadente, tudo é importante, tudo é indigno. Por isso não se deve medir esforços para defender suas conquistas morais e materiais.E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro.
Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio ao seu estado rico tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos que a massa que agora agora quer construir casas em seu bairro, frequentar os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).
Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e sua indignação.
Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve: os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os maconheiros que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, os sem-terra que não querem trabalhar, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola e combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende o conceito de família. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita
Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.
Quando as queixas não são mais suficientes, eles juntam as suas solidões e ódio à coletividade (ironia) e passam a se interessar por política. Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Seus representantes, sabendo como agradar à plateia, são eleitos como guardiões da moralidade. Sobem a tribunas para condenar a devassidão, o aborto, a bebida alcoolica, a vida ao ar livre, as roupas nas escolas. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.
Mas, quando o reacionário se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, bota para fora sua paranóia e pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático). E se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira, na Europa, arrebentam árabes e latinos, na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades (leia mais AQUI).
O reacionário, no fim, não é patrimônio nacional: é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Bóson de Higgs

O
inglês Peter Higgs, em 1964, apresentou uma teoria afirmando que o
espaço é permeado por um tipo de campo que influencia as partículas, e
por trás desse campo está seu bóson. Tal bóson foi alcunhado de
partícula de Deus. Alguns físicos teóricos cogitam que essa partícula
elementar era o que faltava para explicar a formação do Universo através
da união das teorias das quatro forças que dão origem à mecânica
universal, a saber: atrações nucleares forte e fraca, magnetismo e gravidade.
É interessante notar que antes da descoberta desse bóson, Einstein
passou os últimos anos de sua vida procurando em vão a interação dessas
quatro forças, desenvolvendo uma teoria a qual deu o nome teoria de tudo. Foi o período menos criativo da mente daquele gênio, e os cientistas que perseguem essa idéia são chamados unionistas, porque
querem unir equações das quatro forças em uma só que explicaria tudo.
Milhares de experimentos e observações, cálculos aparatosos que ocupam
infinitos nano baites de supercomputadores e trilhões de neurônios das
cabeças mais privilegiadas do Planeta, estão à caça dessa “coisa” que
seria tudo ao mesmo tempo em que é nada.
O Super Colisor de Hádrons foi construído visando detectar traços
desse fugidio substrato de pó de cocô de micro vírus, e até agora nada.
Obviamente,
apenas uns poucos habitantes do Planeta estão habilitados a falar
sobre ou entendem essa fugaz “entidade” cuja existência foi apenas
calculada matematicamente e cujo comportamento, parece, influi na
criação e extinção das demais subpartículas atômicas e, por tabela,
determinou a criação do universo. E, claro, não estou incluído nessa
diminuta confraria. Não sou uma das poucas pessoas que podem escrever
sobre ele, contudo, sou uma das bilhões aptas a falar de outras coisas
diferentes do bóson de Higgs.
Posto
isso, vejamos o que pode interessar para a imensa maioria da
humanidade o esforço bilionário de recursos materiais e intelectuais
que se despende em torno de uma coisa cuja existência, se formos bem
magnânimos, se formos extremamente liberais, pode ser comparada com a
existência da alma humana. O bóson é tão real quando a alma o é, e, a
despeito da prova matemática, repito, só uns poucos escolhidos dentro de
uma elite diminuta, acreditam na sua realidade, o resto da humanidade
se tiver algum interesse nele pode aceitá-lo por motivo de fé,
simplesmente. Não há qualquer resquício de possibilidade que nalgum
futuro remotamente previsível, essa coisinha invisível sem massa, sem
espectro, sem teor e sem sabor venha a fazer parte das conversas de
botequim; venha se constituir em tema de escola de samba; venha batizar
com seu nome time de futebol varzeano; ou que adentre os lares das
pessoas onde serão discutidas suas propriedades e o quanto estas
trouxeram de benefício para as pessoas comuns, e o quando a vida no
Planeta seria diferente se nada soubéssemos sobre ele. O bóson, a rigor,
não cheira nem fede para o resto da humanidade, se ele for detectado
pelo Grande Colisor de Hádrons ou for definitivamente descartado, nós,
pessoas comuns, nem de longe sofreremos qualquer modificação na nossa
vidinha corriqueira. O bóson é o próprio sexo dos anjos.
Vejam
bem, não sou contra que se pesquise sobre essa partícula, tampouco
partilho a opinião que os recursos empregados nessa busca seriam mais
bem destinados na cura do câncer ou na compra de iates e mansões para
gente sem poder econômico para fazê-lo, quero apenas registrar minha
impressão e meu assombro, nunca na história da humanidade se investiu
tanto em onirismo científico deslumbrado. Abraços, JAIR, Floripa,
25/08/10.
sábado, 7 de julho de 2012
Quanto custou a ‘partícula de Deus’
US$ 10,3 bilhões estão por trás de uma das maiores descobertas da física nas últimas décadas, mas crise na zona do euro pode atrapalhar continuidade dos estudos
06 de julho de 2012 | 18h 14
VEJA TAMBÉM
Na quarta-feira, o Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear (Cern) anunciou a descoberta da apelidada "partícula de Deus", ou bóson de Higgs, que pode ajudar a comunidade científica - e a humanidade - a entender por que existe massa no universo. Ou, em outras palavras, por que todos os objetos existem, de um átomo a um cachorro.
A comprovação prática do bóson de Higgs só foi possível com a construção do maior acelerador de partículas do mundo. Inaugurado em 2008, o LHC (Large Hadron Collider, da sigla em inglês) custou US$ 10,3 bilhões para ser construído. Esse equipamento - gigantesco - tem 27 km de circunferência e está localizado na fronteira da Suíça com a França.
Em tempos de crise econômica, a The Economist comentou o valor da descoberta. Para a revista, a quantia de mais de US$ 10 bilhões gasta no acelerador de partículas é relativamente pequena, considerando a importância do conhecimento gerado sobre como o universo realmente funciona.
O artigo da The Economist diz que já passou o tempo em que os cientistas estavam próximos do poder e que o dinheiro era farto - como na época da bomba atômica. Hoje, a comunidade científica suplica o reconhecimento da importância das pesquisas, em um mundo em que o dinheiro está curto.
Crise?
O Cern, que abriga o acelerador de partículas, tem 20 países-membros mantenedores. Os cinco principais financiadores são Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha.
A crise abala toda a zona do euro, mas Itália e Espanha, por exemplo, são alguns dos países mais atingidos. Juntas, essas duas nações respondem por quase 20% de todo o financiamento do Cern.
Sozinha, a Alemanha financia 20% do centro de pesquisas, enquanto a França, 15%, e o Reino Unido, 13%.
Neste ano, o orçamento para o Cern manter suas atividades é de US$ 1,2 bilhão. Para 2013, o financiamento já está aprovado, mas os valores ainda não foram divulgados. Depois do ano que vem ainda não há garantias de continuidade.
"É claro que o Cern está sujeito à condição econômica dos países-membros", disse a assessoria do centro de pesquisas. Também segundo o departamento de imprensa do Cern, para entender completamente os desdobramentos dos estudos, o programa tem expectativa de durar pelo menos mais 20 anos.
Além do financiamento via países-membros, alguns experimentos, como o Atlas e o CMS, de onde partiram as descobertas sobre o bóson de Higgs, também recebem dinheiro de institutos e universidades que participam do programa de pesquisa.
São 629 universidades e institutos de pesquisa participantes das atividades do Cern, sendo que 300 estão localizadas em países-membros.
A partícula
O físico teórico escocês Peter Higgs previu, somente em teoria, a existência de uma partícula capaz de dar massa a todas as outras. Isso foi em 1964. Agora, quase 50 anos depois, a teoria foi comprovada na prática.
Mas não foi simples. Foram 500 trilhões de colisões geradas no acelerador de partículas, o LHC, em três anos de operação. O bóson de Higgs foi visto somente em algumas dezenas delas.
A pesquisa continua. Segundo o Cern, a descoberta anunciada nesta semana faz parte de um trabalho mais amplo. A tentativa é de se entender por que a antimatéria parece não existir e saber como a matéria se comportou no início do universo. Também entender o invisível, já que somente 4% da matéria do universo é pode ser vista, segundo os pesquisadores.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
CERN anuncia descoberta do que pode ser a 'partícula de Deus'
Cientistas Centro
Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN) anunciaram nesta quarta-feira em uma
conferência em Genebra, na Suíça, terem descoberto uma nova partícula
subatômica que pode ser o tão procurado Bóson de Higgs, conhecido como a
"partícula de Deus" e considerado crucial para entender a formação do
Universo.
Joe Incandela, responsável máximo pelo Compact Muon Solenoid (CMS), um dos maiores detectores do LHC, situado na fronteira entre a França e a Suíça, afirmou que pesquisadores alcançaram um certo nível de "descoberta" a respeito do bóson de Higgs.
Segundo ele, uma partícula foi, de fato, encontrada. Por enquanto, o que falta aos pesquisadores é descobrir se essa partícula é o bóson de Higgs ou não. A equipe do CMS anunciou um excesso de 5 sigmas, o que equivale ao "padrão ouro" para anunciar descobertas, ou seja, uma chance menor que 1 em 1 milhão de ser uma coincidência. "Este resultado ainda é preliminar, mas achamos que é forte e sólido", afirma Incandela.
Fabiola Gianotti, representante do Atlas, outro importante detector do LHC, também confirmou a observação de uma nova partícula ao nível de 5 sigmas, o que implica que a probabilidade de erro é de uma em três milhões.
"Observamos em nossos dados sinais claros de uma nova partícula, ao nível de 5 sigmas, em uma região de massa ao redor de 126 gigaelétron-volts (GeV)", disse a porta-voz do Atlas durante a apresentação dos resultados deste experimento. O GeV é a medida padrão para a massa das partículas subatômicas. Um GeV é equivalente à massa aproximada de um próton. Gianotti destacou também que o excelente funcionamento do Grande Colisor de Hádrons (LHC) e "o esforço de muita gente nos permitiu chegar a esta emocionante etapa". Cientistas acreditam que a descoberta de uma nova partícula que pode ser o bóson de Higgs pode ser crucial na formação do universo.
O bóson de Higgs
O escocês Peter Higgs previu em um artigo publicado em 1964 no periódico científico Physical Review Letters que é uma partícula o que dá massa à matéria. Chamada de bóson de Higgs, em homenagem ao britânico, ela é mais conhecida como "partícula-Deus" ou "partícula de Deus" (esse segundo mais no Brasil) e seria a última peça no quebra-cabeça do Modelo Padrão, a teoria que descreve as partículas elementares.
Segundo o Modelo Padrão, os bósons são as partículas que interagem com outras e criam as forças fundamentais - forte e fraca, que atuam no núcleo atômico, e eletromagnética (há ainda a gravidade, para a qual alguns teóricos defendem existir o gráviton, ainda não comprovado). Higgs afirmou que a massa não seria das próprias partículas, mas resultado da ação de um bóson que reage mais com umas do que com outras.
Como isso ocorre? Os físicos explicam que as partículas colidem com o bóson de Higgs e ficam mais lentas, o que lhes dá massa - e isso difere elas das partículas de pura energia, como o fóton. Algumas colidem mais, outras menos, e isso explica a diferença na massa.
Tendo como primeiro objetivo achar o bóson de Higgs, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) construiu o LHC, um dos experimentos científicos mais caros da história.
Joe Incandela, responsável máximo pelo Compact Muon Solenoid (CMS), um dos maiores detectores do LHC, situado na fronteira entre a França e a Suíça, afirmou que pesquisadores alcançaram um certo nível de "descoberta" a respeito do bóson de Higgs.
Segundo ele, uma partícula foi, de fato, encontrada. Por enquanto, o que falta aos pesquisadores é descobrir se essa partícula é o bóson de Higgs ou não. A equipe do CMS anunciou um excesso de 5 sigmas, o que equivale ao "padrão ouro" para anunciar descobertas, ou seja, uma chance menor que 1 em 1 milhão de ser uma coincidência. "Este resultado ainda é preliminar, mas achamos que é forte e sólido", afirma Incandela.
Fabiola Gianotti, representante do Atlas, outro importante detector do LHC, também confirmou a observação de uma nova partícula ao nível de 5 sigmas, o que implica que a probabilidade de erro é de uma em três milhões.
"Observamos em nossos dados sinais claros de uma nova partícula, ao nível de 5 sigmas, em uma região de massa ao redor de 126 gigaelétron-volts (GeV)", disse a porta-voz do Atlas durante a apresentação dos resultados deste experimento. O GeV é a medida padrão para a massa das partículas subatômicas. Um GeV é equivalente à massa aproximada de um próton. Gianotti destacou também que o excelente funcionamento do Grande Colisor de Hádrons (LHC) e "o esforço de muita gente nos permitiu chegar a esta emocionante etapa". Cientistas acreditam que a descoberta de uma nova partícula que pode ser o bóson de Higgs pode ser crucial na formação do universo.
O bóson de Higgs
O escocês Peter Higgs previu em um artigo publicado em 1964 no periódico científico Physical Review Letters que é uma partícula o que dá massa à matéria. Chamada de bóson de Higgs, em homenagem ao britânico, ela é mais conhecida como "partícula-Deus" ou "partícula de Deus" (esse segundo mais no Brasil) e seria a última peça no quebra-cabeça do Modelo Padrão, a teoria que descreve as partículas elementares.
Segundo o Modelo Padrão, os bósons são as partículas que interagem com outras e criam as forças fundamentais - forte e fraca, que atuam no núcleo atômico, e eletromagnética (há ainda a gravidade, para a qual alguns teóricos defendem existir o gráviton, ainda não comprovado). Higgs afirmou que a massa não seria das próprias partículas, mas resultado da ação de um bóson que reage mais com umas do que com outras.
Como isso ocorre? Os físicos explicam que as partículas colidem com o bóson de Higgs e ficam mais lentas, o que lhes dá massa - e isso difere elas das partículas de pura energia, como o fóton. Algumas colidem mais, outras menos, e isso explica a diferença na massa.
Tendo como primeiro objetivo achar o bóson de Higgs, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern, na sigla em francês) construiu o LHC, um dos experimentos científicos mais caros da história.
Tags: bóson, CIÊNCIA, deus, higgs, nuclear
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