Carlos AzevedoEla cumpriu seu papel e, com toda a certeza, não acabou em “pizza”
A CPI da Câmara dos Deputados sobre a crise no futebol tinha pouca chance de dar certo. A iniciativa do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) foi recebida com incredulidade. A disparidade de forças era imensa: de um lado, o deputado de um partido com sete parlamentares na bancada; de outro, o todo-poderoso Ricardo Teixeira, presidente da CBF, virtual “dono” do futebol brasileiro, montado nos milhões da CBF, que usa como se fossem seus; e mais o séquito de dirigentes de federações e de clubes, de empresários e jornalistas que “comem em suas mãos”. Sem esquecer a “bancada da bola”, formada por algumas dezenas de deputados federais e senadores que defendem a CBF no Congresso e em troca recebem ajuda financeira (ilegal, diga-se) para suas campanhas eleitorais.
Gargalhadas na Embaixada da CBF em Brasília
No início de 1999, quando Aldo Rebelo começou a colher assinaturas para a CPI para analisar a regularidade do contrato entre a CBF e a NIKE, houve sonoras gargalhadas na “Embaixada da CBF” em Brasília, na mansão alugada pela CBF e que custou 660 mil reais em despesas só em 2000. Ali, em partidas de futebol, festas concorridas, bem servidas de comidas, bebidas e outras atrações, parlamentares e cartolas confraternizavam e punham-se ao dispor do magnata da CBF. Desde 1998 era a sede da “bancada da bola”.
Para surpresa dos cartolas, Aldo conseguiu o número necessário de assinaturas. A reação foi imediata. Líderes dos grandes partidos pressionaram suas bancadas para retirar as assinaturas. A certa altura, a luta parecia inglória: a cada assinatura conquistada, duas eram retiradas. Mas Aldo conseguiu 206 (são necessárias 171) e seu pedido de abertura da CPI foi acolhido pela Mesa da Câmara.
Como havia conseguido? Algum cochilo da maioria parlamentar. Ricardo Teixeira continuou desdenhando: como uma CPI poderia investigar os negócios de duas empresas privadas? (ele achava que a CBF era uma empresa privada). Aos jornalistas dizia com arrogância que Aldo era um deputado desconhecido querendo aparecer. Mandou Zagallo e Wanderley Luxemburgo enviarem cartas ao Congresso dizendo que na seleção não sofriam ingerência da Nike e, portanto, a CPI era desnecessária.
Desencadeou-se uma campanha contra a CPI, de tal forma que Michel Temer, então presidente da Câmara, resolveu dá-la como extinta. Aldo avisou-o de que iria ao Supremo Federal porque Temer estava desrespeitando o artigo 5º da Constituição: depois de acolhida uma CPI não pode mais ser extinta, a não ser por decisão da própria CPI. Temer recuou.
Os cartolas pararam de rir. Então, a “bancada da bola” jogou pesado. CPIs adormecidas nos meandros da Câmara foram desencavadas e postas a funcionar. A CPI da CBF-Nike teve de amargar o oitavo lugar na fila.
Mas os escândalos no futebol se agravaram. Tanto que o Senado também decidiu abrir uma CPI para investigar os problemas do futebol. A competição entre as duas Casas do Congresso falou mais alto que o lobby da “bancada da bola”. A Câmara dos Deputados apressou-se em instalar sua CPI. Assim, por um golpe do acaso, em 17 de outubro de 2000, dezenove meses depois de requerida, a CPI da CBF-Nike, a CPI improvável, acabou afinal instalada.
Mas ninguém queria participar de uma CPI sem futuro. Os maiores partidos recusaram-se a assumir a sua presidência. Já que Aldo Rebelo havia sido o inspirador desse trambolho, ele que a assumisse. Nos meses seguintes, vários líderes haveriam de se arrepender muitas vezes dessa decisão. Aldo aceitou a presidência e Sílvio Torres, deputado do PSDB, foi indicado para relator. A “bancada da bola” correu para participar formando folgada maioria. E a CPI iniciou seus trabalhos sob a mais completa descrença de jornalistas, parlamentares e torcedores. “Não dura 15 dias”; “a cartolagem vai mandar e desmandar”, era o mínimo que se dizia.Direção firme e flexibilidade política
Mas não foi assim. Na presidência, Aldo impediu que desviassem a CPI de rumo. Aproveitou a confusão inicial e contradições dentro da “bancada da bola”, como o ressentimento de Eurico Miranda contra Ricardo Teixeira, para obter vitórias fundamentais logo no início dos trabalhos. Evitava as manobras dilatórias: “temos que nos concentrar no alvo principal ”, dizia. Conseguiu a façanha de aprovar requerimentos pedindo a quebra do sigilo fiscal e bancário da CBF, de Ricardo Teixeira, da Traffic e de José Hawilla. A votação foi apertada, 14 a 11, nominal, e com muita discussão. A partir desse momento já ninguém ria na CBF e adjacências.
Em represália, a “bancada da bola” passou a bloquear a votação de outros requerimentos importantes, como o pedido de quebra de sigilo das empresas de Ricardo Teixeira. Mas a CPI já contava com o material básico. Faltava investigar. Uma pequena equipe de assessores concentrou-se nos alvos principais e empenhou-se durante alguns meses em rastrear as declarações de renda e as movimentações bancárias. Mas precisava de tempo para investigar. Sabendo disso, a “bancada da bola” movimentou-se para encerrar logo os trabalhos da CPI. Líderes de vários partidos foram convencidos e chegaram até a marcar data para seu fim, 31 de março. Entretanto, os resultados iam aparecendo: a investigação sobre passaportes falsos, feitas pelos deputados Jurandil Juarez (PMDB-AP) e Pedro Celso (PT-DF) repercutia internacionalmente. A denúncia da falsificação de identidade e de tráfico de jogadores menores de idade, feita pelo deputado Eduardo Campos (PSB-PE), mostrou o mundo cão dos subterrâneos do futebol, dos empresários e agentes exploradores. Outros deputados, como Dr. Rosinha (PT-PR), investigavam nos Estados e divulgavam novas informações. Esses fatos e as denúncias que a CPI ia fazendo à imprensa, as incansáveis negociações de Aldo e Sílvio Torres com os líderes, iam adiando o seu fim.A batalha decisiva
Havia sobretudo uma pressão para que Ricardo Teixeira fosse logo ouvido pela CPI. Mas ela ainda não havia reunido todos as informações necessárias para interrogá-lo com eficiência. A CPI conseguiu afinal fazer uma diligência na contabilidade da CBF em sua sede no Rio de Janeiro. Foi possível montar um quadro das irregularidades cometidas na CBF e na grande maioria das 27 federações.
A batalha decisiva seria o depoimento de Ricardo Teixeira. Os deputados que estavam decididos a investigar, e que eram minoria na Comissão, prepararam-se seriamente para o depoimento de 10 de abril. Não subestimaram Ricardo Teixeira. E conseguiram surpreendê-lo. Teixeira não respondeu à maioria das perguntas, fugiu, dizia que não sabia, balbuciava, prometia respostas posteriores. Apresentou dados falsos, mentiu. Sem argumentos, a “bancada da bola” assistiu impotente à derrota do seu chefe.
Depois de um depoimento de nove horas ficou evidente a responsabilidade de Teixeira na má administração da CBF, no uso indevido de seus recursos, nas doações ilegais para políticos em campanha eleitoral, na cooptação e corrupção de dirigentes de federações, na desorganização do futebol brasileiro. E vieram a público preciosos indícios do nebuloso enriquecimento do presidente da CBF e de seus amigos e sócios, da evasão de divisas, da lavagem de dinheiro, da sonegação fiscal.
A uma hora da madrugada de 11 de abril de 2001 havia um fato novo: a CPI improvável, aquela que tinha tudo para não dar certo, vencera a batalha decisiva.O relatório não foi aprovado, mas valeu
Derrotada, a “bancada da bola” anunciou que iria rejeitar o relatório que estava sendo elaborado sob a direção do deputado Sílvio Torres. Se queria intimidar o relator, foi inútil. Ao tomarem conhecimento do texto, os deputados que apoiavam Teixeira decidiram produzir “outro” relatório, ou melhor, retiraram do texto todas as denúncias e pedidos de indiciamento e produziram um “mostrengo”, um texto sem pé nem cabeça. Em suma, queriam emascular o documento, destruir o trabalho de oito meses. Cumpriam à risca as determinações de Ricardo Teixeira cujo objetivo era impedir de qualquer jeito sua incriminação e, de quebra, desacreditar a CPI. Contavam com folgada maioria e estavam certos de sua vitória. Depois de muitas horas de negociações com a maioria irredutível, Aldo Rebelo e os outros deputados que haviam se empenhado nas investigações, convenceram-se de que as gestões eram infrutíferas e concordaram entre si em tomar uma medida extrema: encerrar a CPI sem que o relatório fosse votado.
A “bancada da bola”, inconformada, armou uma pantomima anti-regimental e “votou” o simulacro de relatório. Inútil, não tinha esse poder. Por sua atitude, aliás, esses deputados viriam a ser depois advertidos pelo Corregedor da Câmara dos Deputados.
O relatório não foi aprovado. Mas a CPI não terminou sem relatório. Porque o texto produzido continuou sendo válido. Foi levado ao Ministério Público, à Receita Federal, Polícia Federal, ao Ministro do Esporte, e oferecido como subsídio à CPI do Futebol do Senado. O texto de mais de 800 páginas foi distribuído à imprensa e colocado à disposição do público no sítio da Câmara Federal. A CPI CBF-Nike havia cumprido seu papel.Os frutos da CPI
A seguir, um resumo dos resultados da CPI:
Contrato CBF-Nike. A CPI investigou detalhadamente o contrato CBF-Nike e tornou evidente a supremacia da multinacional de material esportivo sobre a CBF e sua interferência indevida na seleção brasileira de futebol;
Parceria CBF-Empresas. A CPI escancarou os meandros das parcerias entre a CBF e empresas de marketing esportivo e agentes que enriquecem fabulosamente enquanto o futebol brasileiro mergulha na falência;
Corrupção das federações. Estudou em profundidade a caótica administração do futebol comandada pela CBF, as espúrias relações da entidade nacional com as federações estaduais, que levaram à deterioração da organização confederativa e à transformação das entidades em casas de negócio, sujeitas ao continuísmo, nepotismo e corrupção, à ausência de calendários e outros desmandos;
Administração ruinosa da CBF. A CPI trouxe a público as contas da CBF. O seu relatório mostrou à exaustão a administração ruinosa da entidade, cujos recursos são malbaratados em despesas duvidosas e não justificadas, em altos salários e remunerações indevidas; em doações políticas destinadas a sustentar influências no Parlamento, para desempenhar o papel de “bancada da bola”;
Empréstimos externos da CBF, evasão de divisas. A CPI produziu um estudo detalhado sobre empréstimos tomados pela CBF no Exterior, junto ao Delta Bank, a juros extorsivos e em condições altamente desfavoráveis. Comprovou que os juros eram incompatíveis com os que à época estavam sendo praticados no mercado financeiro, e que tais negócios resultaram em elevados prejuízos para a entidade, com indícios de evasão de divisas. A argumentação de que outras empresas brasileiras haviam tomado empréstimos com juros semelhantes foi desmentida pelas próprias empresas citadas por ele. E o Banco até hoje não conseguiu explicar essas operações suspeitas;
Remuneração ilegal da diretoria da CBF. A CPI demonstrou que as remunerações recebidas pela diretoria da CBF desde 1998 são ilegais porque estão em desacordo com o seu Estatuto de entidade de direito privado sem fins lucrativos. E encaminhou ao Ministério Público pedido de ação civil para que se promova a devolução desses recursos à CBF;
Ricardo Teixeira usa recursos da CBF para pagar sua contas com advogados. O relatório da CPI comprova que o senhor Ricardo Teixeira, presidente da CBF há três gestões, usa os recursos da entidade máxima do futebol como se fosse uma de suas empresas. Por exemplo, fez a CBF pagar despesas com sete escritórios de advocacia para defesa de seus interesses como pessoa física;
Empresas de Hélio Viana sonegam impostos. A CPI trouxe a público as incongruências da contabilidade do grupo de empresas pertencentes a Hélio Viana, sócio de Edson Arantes do Nascimento – Pelé – na Pelé Sports Marketing, em que a movimentação financeira de valores vultosos não é declarada à Receita Federal;
Passaportes falsos, tráfico de menores. O relatório apresenta os resultados das investigações e denúncias feitas pela CPI em plano internacional quanto às máfias de passaportes falsos de jogadores de futebol, de falsificação de identidade e tráfico de crianças, atletas menores de idade levados para serem explorados em outros países. A CPI fez recomendações à FIFA, às autoridades brasileiras, à CBF e apresentou proposta de mudança de legislação para prevenir esses crimes;
Indiciamentos. Em suas conclusões a CPI propôs o indiciamento de 31 pessoas (Ricardo Teixeira, 13 propostas de indiciamento; Hélio Viana, 5; Juan Figer, 5; e mais 19 indiciamentos de dirigentes de federações, agentes, empresários de futebol e outros intermediários).
Projeto de Lei. A CPI não se limitou a fazer denúncias e pedir os indiciamentos. Apresentou um acurado e abrangente projeto de lei, que já está tramitando na Câmara, que visa à criação do “Estatuto do Esporte”. É uma proposta completa de modernização da legislação sobre o Desporto Nacional, e inclui uma sugestão para a criação de um Ministério do Desporto, separado do setor de Turismo. Quem leu esse projeto – e infelizmente foram poucos até agora – avaliou que traz progressos importantes para a legislação desportiva.
Definitivamente, a CPI CBF-Nike não acabou em “pizza”.Carlos Azevedo é jornalista.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
A CPI que tinha (quase) tudo para não dar certo
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
A TRISTE REALIDADE
Em suas aparições quase diárias, o presidente Lula não deixa de lembrar aos brasileiros que estamos passando por um "período virtuoso", que estamos "no caminho do desenvolvimento sustentado". Tudo seria muito bonito se essa fosse realmente a realidade para todas as empresas e todos os que habitam este país.
O que vemos é, sim, o Brasil crescendo em alguns setores privilegiados, especialmente as grandes empresas voltadas para as exportações e o setor financeiro. O cenário internacional é favorável, o mundo é comprador, há abundância de liquidez, os juros internacionais ainda são baixos e atrativos. Mesmo assim, nossa economia deverá crescer em 2005 algo entre 3,3% e 3,5%, enquanto a economia global estará evoluindo mais de 4% e os países emergentes, onde nos situamos, crescerão mais de 6%. Não há como negar que estamos melhor quando comparados a anos anteriores, mas ainda muito abaixo da nossa potencialidade e do que acontece ao redor do mundo. Tanto é verdade que entre 43 países avaliados pelo Indicador de Competitividade da Fiesp, com dados entre 1997 e 2003, estamos em 39º lugar. Isto é, perdemos vergonhosamente em competitividade, incluindo países como a Argentina (recém-saída de moratória) e a Venezuela, que sobrevive à custa do petróleo.
Entretanto, o que realmente demonstra que estamos longe do "desenvolvimento sustentado" é o estado de penúria da maioria das nossas pequenas e médias empresas. Entre 80% e 90% das que precisam de algum crédito bancário para viver não conseguem pagar os seus impostos em dia. Nossos juros, os mais altos do mundo, tornam o crédito bancário oneroso e inviabilizam as empresas que dependem dele para fazer frente aos seus compromissos. Não bastasse, temos igualmente uma das cargas tributárias mais altas do mundo e, o que ainda é pior, continua crescendo e batendo recordes sucessivos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a carga tributária brasileira deverá alcançar 37,5% do PIB no fim do ano. Além desses valores, que falam por si sós, o Fórum Econômico Mundial, em recente estudo, considera o sistema tributário do País o mais ineficiente entre 117 países pesquisados. E não é difícil entender o porquê dessa situação. Ainda de acordo com o IBPT, de 1996 para cá mais de 6 mil normas tributárias foram editadas a cada ano, atingindo o recorde em 2004, quando 8.819 novas normas vieram complicar ainda mais a vida das empresas e dos brasileiros. Até o começo deste mês de outubro, 5.830 novas normas foram editadas, o que demonstra a impressionante capacidade da nossa burocracia de complicar a vida de quem escolheu o Brasil para viver e ter o seu negócio. O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, informa que "as empresas gastam hoje de 1,5% a 2% do faturamento bruto apenas com administração tributária".
Não é por outra razão que, devido às crescentes dificuldades das empresas, a Fiesp elaborou novo projeto de refinanciamento das dívidas tributárias, cuja proposta já se encontra nas mãos da equipe econômica para análise e aprovação. Injusto para as empresas que procuram, de todas as maneiras, pagar seus impostos em dia, mas, sem dúvida, se trata de mais uma tentativa de pôr todas as pequenas e médias empresas dentro da legalidade. O Refis 1 (Programa de Recuperação Fiscal) não conseguiu atingir os objetivos propostos, visto que, das 129.177 empresas que aderiram ao programa, hoje restam pouco mais de 25 mil. Em 2003, um segundo programa - o Paes - foi aprovado e implementado e os resultados também não são animadores. Dos 374.635 contribuintes inscritos, pouco mais de 200 mil permanecem no programa, cumprindo os compromissos assumidos. É convicção da Fiesp que as empresas em dificuldades têm de ter alternativas para equacionar suas dívidas, mesmo porque os valores já envolvidos são bastantes significativos. O estoque de dívidas tributárias do Refis é superior a R$ 52 bilhões, enquanto o estoque do Paes é ainda maior, superior a R$ 75 bilhões.
De acordo com informações do Departamento Jurídico da Fiesp, há boa vontade do governo em tentar buscar essa solução, que seria quase que definitiva, pois abrigaria as empresas que já estão nos programas anteriores e as que ainda não aderiram a programa algum. É uma proposta que está sendo negociada com o governo Lula em diversas áreas para - se e quando aprovada - ter o "referendum" do Congresso.
É, pois, uma iniciativa louvável a da Fiesp e a expectativa é que nossas autoridades em Brasília encontrem tempo para fazer com que ela se torne realidade o mais rápido possível. Isto feito, cremos igualmente que está chegando a hora de trabalharmos nas causas, e não apenas nas conseqüências. Os juros precisam cair urgentemente, antes que seja tarde demais, isto é, fatos novos façam o Banco Central manter sua política monetária conservadora, que mereceu "nota zero" do vice-presidente da República, José de Alencar.
Passo seguinte, que o ministro Palocci não só cumpra sua promessa de não aumentar a carga tributária em 2005, mas, principalmente, dê início a um processo de redução sistemática ao longo dos próximos anos. Ninguém pretende que a carga tributária caia dos atuais 37,5% do PIB em alguns meses ou anos. Mas o que não é aceitável é deixarmos tudo como está, com o Estado avançando cada vez mais no bolso do contribuinte. Se quisermos um País justo, e não essa triste realidade em que vivemos, a hora da virada tem de ser agora, neste governo. Menos palavras e mais ação é o que exige o povo brasileiro.
domingo, 18 de novembro de 2007
Protestos virtuais
Autor: Paulo Castelo Branco –
Os novos movimentos de protesto popular se tornaram inoperantes nestes tempos de tantas falcatruas. As alegações dos governos de que não houve aumento da corrupção, e sim, incremento das investigações pode levar a população a se sentir segura quanto à veracidade das informações procedentes do poder instituído.
Sem a presença da UNE (União Nacional dos Estudantes – para quem já esqueceu), nos debates e nas ruas, parece que a situação do país é tranqüila, seguindo o rumo certo da democracia plena. A vitória dos ex-militantes de esquerda amorteceu os sentimentos profundos que explodiam nas manifestações que chegavam a colocar na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, milhares de brasileiros unidos em busca da utopia.
Foram muitas as ocasiões, desde a redemocratização, nas quais o povo foi para as ruas exigindo o fim da corrupção, do desemprego, dos impostos extorsivos, da insegurança pública e da falta de assistência à saúde.
Nesses novos tempos, o que vemos são os estudantes em busca de meia-entrada em tudo e recebendo as benesses do poder. Até mesmo as esperanças com a nova liderança estudantil se esvaem no silêncio de suas estrelas quando devem se pronunciar sobre as mazelas do país. É triste a constatação da leveza das palavras e das ações, que são tão distantes dos tempos dos Josés que lideravam os movimentos estudantis à época da ditadura: José Dirceu e José Serra; e agora, Josés?
A acomodação popular é conseqüência da falta de líderes. Os que existem foram cooptados pelo poder e silenciam, ou são extremamente moderados em seus pronunciamentos. O movimento sindical está satisfeito com tudo que acontece, e até os sem-terra ficam sossegados, despertando somente quando os recursos oficiais que os mantêm minguam. O último movimento popular de que se tem notícia foi o “Cansei”, que, parece, se cansou mesmo.
Mas existe um trabalho de bastidores que os políticos têm considerado muito bom para a governabilidade. É o protesto virtual que abarrota de mensagens as caixas-postais dos computadores oficiais. No mais recente episódio – o que examinava a cassação do presidente do Senado Federal, senador Renan Calheiros –, as informações publicadas na imprensa diziam que milhares de internautas pediam sessão e votação abertas e a cassação do senador.
As máquinas não suportaram tantas mensagens de protesto. É sabido que este método de protesto é infrutífero. Os senadores não precisam ter acesso direto aos e-mails, que são lidos por assessores. E, a prática é simples: aperta-se a tecla “selecionar tudo” e, em seguida, a tecla “”. Pronto. Sem polícia, sem violência e sem transtornos. As vias públicas ficam liberadas, os políticos tranqüilos e o povo sem respostas.
A solução do protesto virtual vem se juntar ao namoro no chat e à traição conjugal sem conseqüências para a família. Hoje é possível acompanhar os movimentos dentro de casa através de câmeras ligadas ao computador. É assim que muitos crimes são desvendados, muitos desaparecidos são localizados, e, também, muitas contas bancárias são violadas. É o mundo moderno, e ninguém, em sã consciência, se colocará contrariamente à evolução.
O que nos deixa perplexos é a desunião na defesa do interesse público. A população brasileira está inerte e voltada para seus problemas pessoais. Os que possuem condições financeiras se confinam em suas fortalezas, e os pobres se amedrontam com a violência urbana e, também, se curvam à força dos marginais que dominam as comunidades e as periferias das cidades.
Mesmo quando a criminalidade e a violência quase destroem a vida dos cidadãos de bem, eles se sentem impotentes para exigir das autoridades a proteção policial e programas sociais que minimizam as agruras. Se as autoridades instalarem computadores nas comunidades e na periferia, nenhum cidadão terá motivação para protestar pessoalmente contra os descalabros dos governos e governantes que se homiziam nos palácios cercados de segurança e se movimentam em viaturas, aviões e vagões blindados e com vidros escuros. Os protestos virtuais chegarão e serão deletados.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
COMO POSSO CONDUZIR MEU FILHO A CAMINHOS ERRADOS?
Como posso conduzir meu filho a caminhos errados?
1. Desde pequeno, dê ao seu filho tudo que ele deseja.
2. Ache graça quando seu filho disser palavrões, pois assim ele ficará convencido da sua originalidade.
3. Não lhe dê orientação espiritual. Espere que ele mesmo escolha "sua religião" depois dos 21 anos de idade.
4. Nunca lhe diga que ele fez algo errado, pois isso poderia deixá-lo com complexo de culpa.
5. Deixe que seu filho leia o que quiser... A louça deve ser esterilizada, mas o espírito dele pode ser alimentado com lixo.
6. Arrume pacientemente tudo que ele deixar jogado: livros, sapatos, meias. Coloque tudo em seu lugar. Assim ele se acostumará a transferir a responsabilidade sempre para os outros.
7. Discuta freqüentemente diante dele, para que mais tarde ele não fique chocado quando a família se desestruturar.
8. Dê-lhe tudo em comida, bebida e conforto que o coração dele desejar. Leia cada desejo nos seus olhos! Recusas poderiam ter perigosas frustrações por conseqüência.
9. Defenda-o sempre contra os vizinhos, professores e a polícia; todos têm algo contra seu filho!
10. Prepare-se para uma vida sem alegrias - pois é exatamente isso que o espera!
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Amizade tem preço?
Depois das amizades “virtuais” favorecidas pelo isolamento causado pelas novas tecnologias, chega à vez das amizades falsas no mundo real, criadas pela sociedade do consumo, onde tudo é mercadoria.
Aquele velho ditado que dinheiro não compra tudo está cada vez mais ultrapassado. Depois do Sex Personal Trainer e do Personal Stylist, chega ao mercado uma nova atividade que carrega o mesmo glamour do nome em inglês, mas que está criando muito mais polêmica: o “Personal Friend”.
Personal friend: é o “amigo” que não julga suas atitudes e sabe guardar segredo.
Basta ter uma polpuda conta bancária.
Traduzindo ao pé da letra: é um amigo de aluguel, que custa em media de R$ 300,00 reais por 50 minutos.
Alguns preferem acreditar que se trata de uma perspectiva de grande negócio, mas ao meu ver isso só reflete a decadência do ser humano em conviver com outras pessoas.
Como disse uma amiga em um dos meus post’s anteriores...
“Para o mundo que eu quero descer!”
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
A corrupção no Brasil é endêmica
Dorival Behrend Silva
Este mal que assola o país de norte a sul, nasceu quando
os Portugueses aqui botaram os pés, distribuindo espelhinhos para os índio que não sabiam o que era corrupção, em troca de pau brasil.
É um mal que veio com as caravelas trazidas pelo vento,
como o pólem de uma flor, e fecundou em todo território nacional.
No País onde as leis foram feitas para proteger, garantir e sustentar reis sanguessugas e o poder dos senhores do Estado, mantendo a sua fartura em detrimento e
exploração do povo, que não tinha direitos a não ser a escravidão pura ou branca, só podíamos estar
atolados nesta lama pútrida.
Na falta de uma consciência de ser parte de uma nação, nosso povo tem como uma das suas características a
mania de levar vantagem em tudo e de pensar
somente no seu umbigo.
A nossa mentalidade de burlar as leis, e de que elas
foram feitas para os outros é que nos torna reféns deste mal, que hoje nos assombra ( a Corrupção), crime,
que parece comum para todos nós e que aparentemente
não nos afeta diretamente.
Ledo engano.
A corrupção tem nos trazido muitos males.
Tanto no governo como no meio privado.
O dinheiro desviado é desviado diretamente dos nossos bolsos.
Temos que trabalhar mais para pagar esta despesa.
Temos que pagar mais impostos, mais multas, mais juros,
etc. para sustentar tamanho roubo e rombo
e ainda temos; péssima assistência social, péssima
qualidade de ensino, péssima saúde, péssima infra
estrutura, péssima segurança, péssima justiça, péssima qualidade de serviços públicos, péssimos políticos etc.
A corrupção só vai acabar quando tivermos educação suficiente para entendermos que esta sem vergonha, não nos trás benefícios, e principalmente, quando os Corruptos e Corruptores forem exemplarmente punidos,
com Leis que realmente sejam eficazes e duras, pois tais elementos são criminosos de grande periculosidade.
Quando tivermos no coração, amor por nossa Pátria. Quando tivermos consciência e orgulho sermos uma Nação, educada, livre e democrática, de respeito ao ser humano e às Leis que regem nossa Sociedade então
talvez nos livraremos desse mal ou com certeza diminuirá
em muito.
sábado, 3 de novembro de 2007
A CULTURA CAIPIRA
É preciso pensar no caipira
como um homem que manteve
a herança portuguesa nas
suas antigas formas
A cultura caipira não é e nunca foi um reino separado, uma espécie de cultura primitiva
independente, como a dos índios. Ela representa a adaptação do colonizador ao Brasil e
portanto, veio na maior parte de fora, sendo sob diversos aspectos sobrevivência do
modo de ser, pensar e agir do português antigo.
Quando um caipira diz "pregunta", "a mó que", "despois", "vassuncê", "tchão (chão)",
"dgente (gente)" não está estragando por ignorância a língua portuguesa; mas apenas
conservando antigos modos de falar que se transformaram na mãe-pátria e aqui.
Até o famoso "erre retroflexo", o "erre de Itur" ou "Tieter", que se pensou devido a
influência do índio, viu-se depois que pode ter vindo de certas regiões de Portugal.
Como veio o desafio, a fogueira de São João, o compadrio, a dança de São Gonçalo, a
Festa do Divino, a maioria das crendices, esconjuros, hábitos e concepções.
É preciso pensar no caipira como um homem que manteve a herança portuguesa nas suas
formas antigas. Mas é preciso também pensar na transformação que ele sofreu aqui, fazendo
do velho homem rural brasileiro o que ele é. "Tabareu", "matuto", "capiau", "caipira",
o que mais haja, ele é produto e ao mesmo tempo agente muito ativo de um grande processo
de diferenciação cultural própria. Na extensa gama dos tipos sertanejos brasileiros ,
poderia ser considerado "caipira" o rural tradicional do sudoeste e porções do oeste,
fruto de uma adaptação da herança fortemente misturada com a indígena, às condições físicas
e sociais do Novo-Mundo.
Nessa linha de formação social e cultural, o caipira se define como um homem rústico
de evolução muito lenta, tendo por fórmula de equilíbrio a fusão intensa da cultura
portuguêsa com a aborígene e conservando a fala, os usos, as técnicas, os cantos,
as lendas que a cultura da cidade ia destruindo, alterando essencialmente ou caricaturando
Em compensação, no quadro de sua cultura o caipira pode ser extraordinário. É capaz, por
exemplo, de sentir e conhecer a fundo o mundo natural, usando-o com uma sabedoria e
eficácia que nenhum de nós possui.
O nosso caipira, do ancestral português herdou com a língua e a religião a maioria dos
costumes e crenças; do ancestral índio herdou a familiaridade com o mato, o faro na caça,
a arte das ervas, o ritmo do bate-pé (que noutros lugares chama-se cateretê), a caudalosa
eloquência do cururu.
O cururu e a dança da Santa Cruz são dois exemplos muito bons de encontro de culturas.
Parece terem sido elaborados sob influência dos jesuítas, que aproveitaram as danças
indígenas e o gosto do Índio pelo discurso e o desafio para enxertar a doutrina cristã.
Nada mais caipira que o cururu e a dança de Santa Cruz, que só existem em áreas de forte
impregnação originária dos antigos piratininganos. E nada mais misturado de elementos
portugueses e indígenas como tanta coisa que observamos nas catiras, nas histórias, nas
técnicas do homem rural pobre e isolado de velha origem paulista. Na primeira metade do
século, o caipira ainda era espoliado e miserável na maioria dos casos, porque com a passar
do tempo e do progresso, quem permaneceu caipira foi a parte da velha população rural
sujeita às formas mais drásticas de expropriação econômica, confinada, e quase compelida
a ser o que fôra, quando a lei do mundo a levaria a querer uma vida mais aberta e farta,
teoricamente possível.
Foi então que o caipira se tornou cada vez mais espetáculo, assunto de curiosidade e
divertimento do homem da cidade, que, instalado na sua civilização e querendo ressaltar
este "previlégio", usava aquele irmão para provar como ele tinha prosperado.
A tarefa, portanto, é procurar o que há nele de autêntico. Autêntico, não tanto no sentido
do impossível do originalmente puro, porque em arte tudo está mudando sempre; mas no
sentido de buscar os produtos que representam o modo de ser e a técnica poético-musical
do caipira como ele foi e como ainda é, não como querem que ele seja.
Por Antônio Cândido
Ensaista e Crítico literário emérito