quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A revolução dos 'bichos grilos' mimados da USP


José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do 'Jornal da Tarde' - O Estado de S.Paulo

A Universidade de São Paulo (USP) é a maior instituição pública de ensino superior do Brasil. Com 11 câmpus e 89 mil alunos matriculados, dos quais 50 mil na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira, figura também entre os mais reconhecidos centros de excelência em pesquisa científica e produção de pensamento filosófico do subcontinente latino-americano. No entanto, nenhum de seus mais respeitáveis mestres de Matemática será capaz de explicar de que tipo de legitimidade foram ungidos os 73 vândalos que ocuparam dois prédios - um da administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e outro da Reitoria - para merecerem do reitor anistia "administrativa" pelos danos cometidos contra o patrimônio, de propriedade da cidadania brasileira, que sustenta suas atividades de aprendizado. Nem sequer o grego Aristóteles, preceptor de Alexandre, o Grande, encontraria alguma lógica na concessão dada a, digamos, 600 estudantes para decidirem sobre a permanência de jovens turbulentos e estranhos ao expediente nos dois prédios, a pretexto de protestarem contra a presença da Polícia Milita (PM) no câmpus, que consideram "território sagrado" e inviolável.

Quem se depara com a informação de que os invasores dos prédios só admitiam negociar com a Reitoria se os policiais fossem afastados da Cidade Universitária pode ter a falsa ideia de que, de repente, num pesadelo inimaginável, tivéssemos voltado à ditadura, que reprimia a liberdade acadêmica. Nada disso! Entre janeiro e abril deste ano, os roubos no câmpus aumentaram 13 vezes e os atos de violência - entre os quais estupros e sequestros relâmpagos - cresceram 300%. Em maio, um estudante de Economia foi morto num assalto. O sangue dele foi a gota que fez o cálice transbordar e a direção da USP assinar um convênio com a PM para que soldados fizessem o papel que vinha sendo desempenhado por 130 agentes de segurança patrimonial, que, em dois turnos, vigiavam dezenas de prédios e vários estacionamentos e garantiam a segurança de 100 mil pessoas que circulam todo dia pelas ruas da sede da USP. Em quatro meses de policiamento, os furtos de veículos caíram 92,3%; os sequestros relâmpagos, 87,5%; os roubos, 66,7%; e os delitos de lesão corporal, 77,8%.

Tudo corria muito bem até o dia em que policiais militares que patrulhavam as ruas amplas e arborizadas do aprazível local abordaram três alunos que fumavam maconha no prédio da História e da Geografia. Quando tentaram levá-los para o 91.º Distrito Policial (DP) para registrar a ocorrência, os agentes da lei foram atacados por uma horda de cerca de 200 estudantes. Do entrevero resultaram policiais feridos e seis viaturas apedrejadas. Minorias radicais que controlam diretórios acadêmicos e sindicatos de servidores e professores usaram o incidente como pretexto para um violento protesto contra a presença da polícia "repressora" em "seu" câmpus. Os rebeldes ocuparam um prédio da FFLCH, transformado em QG de sua guerra contra a "neorrepressão".

A congregação da faculdade cujo prédio foi invadido apoiou a invasão e a reivindicação dos amotinados. Mas, numa demonstração de que, felizmente, é possível estudantes aprenderem certo, mesmo quando seus mestres ensinam errado, a maioria dos alunos aprovou, em duas assembleias, a imediata desocupação dos prédios e o policiamento das ruas. A decisão era de uma sensatez cristalina. Afinal, as únicas prejudicadas com a presença de policiamento no local foram as quadrilhas instaladas nas favelas que cercam a sede da universidade, as quais tiveram reduzidos seus lucros no furto de bens, na sevícia de pessoas e na venda de drogas. A serviço dessas quadrilhas - da mesma forma que as Farc, na Colômbia, se tornaram a guarda pretoriana dos traficantes de cocaína e o crime organizado no México se aliou ao terrorismo internacional patrocinado pelo Irã -, os grupelhos esquerdistas desprezaram a decisão democrática dos colegas, ocuparam a Reitoria e exigiram a retirada da polícia para negociar a retirada.

Ao invadirem os prédios, mascarados, os ativistas da revolução dos filhinhos dos papais da USP mostraram que não tinham vergonha de se comportar como os assaltantes de diligências no Velho Oeste americano. E que contavam com a possibilidade de não ser identificados na hora de terem de pagar por seus crimes. Ao aceitar sua exigência de que os anistiaria desses delitos, o reitor João Grandino Rodas agiu com a pusilanimidade com que habitualmente os administradores universitários enfrentam esses delinquentes.

Desde que a escolha dos reitores passou a ser feita pelo voto de alunos, funcionários e professores, a politicagem vem sendo a moeda de troca que tem permitido esse tipo de baderna, nociva ao livre aprendizado e à pesquisa que a sociedade paga caro para manter em instituições como a USP. Felizmente, contudo, a autoridade policial não precisa dos votos dos baderneiros e fez o que devia ser feito: numa operação espetacular e exemplar, retomou os prédios dos invasores e os levou em ônibus para a delegacia, da qual cada "bicho grilo" mimado só saiu depois de pagar fiança de R$ 545, valor razoável para as famílias de privilegiados de elite que não frequentam aulas que poderiam estar sendo ministradas a filhos de pobres, que pagam as contas da USP e não têm chance de frequentar seus cursos caros e disputados.

O câmpus de qualquer instituição acadêmica é sagrado para a transmissão do saber, não para o consumo de drogas. É proibido fumar maconha na nave da Sé, na rua, em boates e na Cidade Universitária. Os "bichos grilos" mimados que se disseram "torturados" por terem sido levados de ônibus - e não nos carrões dos pais - para a delegacia devem ser fichados como bandidos comuns e expulsos da universidade para que outros que querem e precisam estudar recebam a educação que desprezam.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A grilagem recorde

LUIZ FLÁVIO PINTO

A maior propriedade rural do mundo deixou de existir legalmente na semana passada. O juiz Hugo Gama Filho, da 9ª vara da justiça federal de Belém, mandou cancelar o registro imobiliário da Fazenda Curuá, que consta dos assentamentos do cartório de Altamira, no Pará. O imóvel foi inscrito nos livros de propriedade como tendo nada menos do que 4,7 milhões de hectares.

Seu suposto proprietário podia se considerar dono da 23ª maior unidade federativa do Brasil, com tamanho superior ao dos Estados do Rio de Janeiro, Alagoas, Sergipe e do Distrito Federal. Suas pretensões poderiam ainda exceder essas dimensões. Através de outros imóveis, pretendia alcançar uma área de 7 milhões de hectares, duas vezes e meia o tamanho da Bélgica, país onde vivem mais de 10 milhões de habitantes.

Como uma pessoa – física ou jurídica – consegue se apresentar como detentor de uma área dessas proporções e se manter nessa condição por tanto tempo, como aconteceu no caso da Fazenda Curuá?

Responder a esta pergunta de maneira satisfatória e eficaz pode contribuir para fortalecer o primado da lei nos “grotões” do país, as distantes e geralmente abandonadas fronteiras nacionais. De forma inversa, manter tal anomalia significa perpetuar o domínio da violência e do respeito às regras da vida coletiva e ao superior interesse público.

Em primeiro lugar porque o Estatuto da Terra, editado pelo primeiro governo militar pós-1964, o do marechal Castelo Branco, continua em vigor. Esse código agrário sobreviveu à Constituição de 1988 e se revelou superior em confronto com as regras da Carta Magna. O estatuto, com seu propósito de modernizar o campo brasileiro (mesmo que de forma autoritária, à semelhança do que fez o general MacArthur com o Japão ainda semi-feudal, derrotado pelos americanos na Segunda Guerra Mundial), proíbe a constituição de propriedade rural com área acima de 72 mil hectares (ou 600 vezes o maior módulo rural, o destinado ao reflorestamento, com 120 hectares).

A Fazenda Curuá foi registrada com quase 60 vezes o limite legal. Por que o cartorário legalizou a matrícula do imóvel com sua fé pública, ele que é serventuário de justiça, sujeito à polêmica (e questionada pelo Conselho Nacional de Justiça da ministra Eliana Calmon) Corregedoria de Justiça do Estado?

A apropriação ilegal de terras públicas, fenômeno a que se dá a qualificação de grilagem, é simples, embora de aparência complexa para o não iniciado nos seus meandros. Ainda mais porque lendas são criadas em torno da artimanha dos espertos e passam a ser apresentadas como verdade.
Muita gente acredita que a expressão grilagem se deve à prática dos fraudadores de colocar papéis para envelhecer artificialmente em gavetas com grilos.

A verdade é menos engenhosa. A origem é romana e diz respeito ao fato de que a terra usurpada serve para a especulação imobiliária e a formação de latifúndios improdutivos. Tanta terra não cultivada acaba servindo de pasto para grilos. Uma maneira de estigmatizar o roubo de terras públicas de forma popularizada.

O espantoso, no caso da Fazenda Curuá, é que o golpe tenha se mantido por tantos anos. A ação de cancelamento foi proposta em 1996 pelo Instituto de Terras do Pará. Apesar de ter provado que nenhum título de propriedade havia na origem do imóvel, a justiça estadual manteve o registro incólume, decidindo sempre contra o órgão público. Até que o Ministério Público Federal e outros órgãos da União conseguiram desaforar o processo para a justiça federal, que, afinal, reconheceu a ilegalidade da propriedade e cancelou o registro.

Essa tramitação acidentada e pedregosa seria evitado se a justiça do Pará tivesse realmente examinado as provas dos autos. Neles está demonstrado que o uso das terras no rico vale do Xingu, onde está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte e agem com sofreguidão madeireiros e fazendeiros, começou em 1924.

Moradores da região foram autorizados a explorar seringueiras e castanheiras localizadas em terras públicas, através de concessões com tempo determinado de vigência e para fim específico. Exaurida a atividade extrativa vegetal, a área deixou de ter uso, mas algumas pessoas decidiram inscrevê-la em seu nome. Como os cartórios não se preocupavam com o rigor da iniciativa, até mesmo dívidas em jogo deram causa à transmissão da inexistente propriedade de um detentor para outro, formando cadeias sucessórias.

A lesão ao patrimônio público por causa dessas práticas ilícitas permaneceu latente até que uma das maiores empreiteiras do país colocou os olhos nesse mundo de águas, florestas, solos e animais. A C. R. Almeida, criada no Paraná por um polêmico engenheiro, Cecílio do Rego Almeida, que nasceu no próprio Pará, comprou uma firma de Altamira por preço vil (sem sequer pagá-lo por inteiro).

No ativo da firma estavam as terras cobiçadas. Não conseguindo regularizá-las pela via legal, por ser impossível, o empreiteiro decidiu se apossar da área à base do fato consumado e passando por cima de quem se colocasse no seu caminho. Montou uma pequena base no local, contratou seguranças, seduziu os índios vizinhos e fez uso da máquina pública que se amoldou à sua vontade. Os que resistiram à grilagem foram levados às barras dos tribunais, que sempre decidiram em favor do grileiro.

Os magistrados da justiça estadual não se sensibilizaram sequer pela publicação do Livro Branco da Grilagem, editado pelo Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário, que não deixava dúvida sobre a fraude praticada. Nem pelos resultados das comissões parlamentares de inquérito instauradas em Belém e em Brasília. Ou pelas seguidas manifestações de todas as instâncias do poder público, estadual e federal. Enquanto exerceu sua jurisdição sobre o caso, a justiça do Pará ficou ao lado do grileiro e de seus herdeiros, quando ele morreu, em 2008.

Foi preciso que o processo chegasse à justiça federal para, finalmente, 15 anos depois da propositura da ação pelo Iterpa, secundado por outros agentes públicos, a situação se invertesse. Não é ainda uma decisão definitiva. Os herdeiros da C. R. Almeida deverão recorrer. Mas já sem o registro cartorial que lhes permitia manipular terras como se fossem os donos do 22º maior Estado brasileiro.

Quem sabe, a partir de agora, a intensa grilagem, um dos males que assola a Amazônia, não possa refluir?

domingo, 30 de outubro de 2011

Cazuza, um idiota morto.

Cazuza, um idiota morto.
GENTE!
PARABÉNS PARA QUEM ESCREVEU ISTO COM MUITA CORAGEM.
LEIAM, É IMPORTANTE DIVULGAR.
Esse cidadão dizia "todos os meus heróis morreram de overdose". E era aplaudido.

É ... DEVIAM COLOCAR o txt abaixo NUM OUTDOOR LÁ NA PRAÇA CAZUZA, NO LEBLON...

Psicóloga x Cazuza!

Esta mensagem precisa ser retransmitida para todas as FAMÍLIAS!
Uma psicóloga que escreveu, corajosamente algumas verdades.

Uma psicóloga que assistiu ao filme escreveu o seguinte texto:
'Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora.. As pessoas estão cultivando ídolos errados..
Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza?


Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível.
Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado.

No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos.. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta.
São esses pais que devemos ter como exemplo?
Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora..
Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante.
Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso.
Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não.
Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou.
Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom
para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria?
Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor.
Devo lembrar aos pais que
a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissesem NÃO quando necessário?
Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor .
Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar.. Não se preocupem em ser 'amigo' de seus filhos.

Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi à pessoa que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre.'

Karla Christine (Psicóloga Clínica)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Governo gera déficit na Previdência

Politica 3/8/2011 10:7:31 » Por COBAP Atualizado em 3/8/2011 10:5

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O governo anunciou ontem, 2, que a Previdência Social mais uma vez terá suas receitas destinadas ao apoio à indústria. R$ 4,1 bilhões é o valor estimado para a arrecadação com a folha de pagamento dos setores vestuário e acessórios, calçados e couros e móveis e tecnologia da informação, desonerados.

Enquanto a medida provisória foi implantada com urgência e entrará em vigor já em novembro, a COBAP e Centrais batalham, quase que semanalmente, para conquistar um pequeno avanço no reajuste de benefícios e valorização dos aposentados e pensionistas brasileiros, maiores contribuintes para a Previdência. E quem tem direito ao apoio maior do governo? A indústria.

Reuniões entre a equipe técnica do Ministério da Previdência e defensores dos cidadãos aposentados são marcadas por inúmeras reivindicações e resultados mínimos em passos de tartaruga. Anos a fio de vigílias, manifestações e audiências de milhares de brasileiros idosos e necessitados não tiveram o resultado grandioso e quase imediato da importante indústria brasileira.

Apesar de anunciarem que termina em 2012, a medida não tem lógica previdenciária. Parece que o governo não entendeu ainda que a Previdência tem base contributiva e deve retornar aos contribuintes, que precisam praticamente implorar por migalhas, tentando desmistificar diariamente que há rombo na Previdência.

Enquanto o governo financiar com o dinheiro do trabalhador o enriquecimento dos grandes empresários, estaremos fadados ao velho e falacioso discurso do déficit, que é ressaltado principalmente quando o assunto é fazer justiça a quem contribuiu a vida inteira pelo país. Consideramos um ato de desrespeito e descaso contra o ser humano.

A grande imprensa deveria questionar agora para a presidente Dilma Roussef de onde a tão deficitária Previdência vai tirar dinheiro para financiar esse apoio? Sempre soubemos que a Previdência tem dinheiro para pagar os aposentados e pensionitas. Está aí onde ele é indevidamente aplicado.

Warley Martins

Presidente da COBAP

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Seleção sem eleição


Com a palavra...

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Até a metade da década de 70, os jogadores de futebol carregavam no peito o orgulho de elevar o nome da pátria, tendo em vista que nas demais áreas, apesar de termos excelentes profissionais, éramos relegados a um 5º plano.

Atualmente nossos atletas carregam na alma o logotipo da empresa que os patrocina. A seleção nacional apenas lhes serve como vitrine para aumentar seus polpudos contratos.

Antigamente eles até ajudavam suas comunidades de origem e por isto mereciam a idolatria como um cidadão que se preocupava com os que o cercavam por conhecer na pele e entender o sofrimento daqueles que o aplaudiam.

Atualmente frequentam as “altas rodas” compostas por legisladores pilantras, artistas drogados e são cercados belas mulheres que apenas visam uma pensão vitalícia depois de 2 ou 3 meses de um casamento mal sucedido.

Pelo lado das autoridades governamentais, a prática de usar o esporte como biombo para esconder os problemas sociais não se altera. Basta conquistarmos um torneio esportivo de qualquer nível (até um sub-15) para que os corruptos tirem retratos com os atletas e repentinamente se transformem em “honestos” cidadãos sem culpa nas denúncias desnudadas por parte da imprensa ainda não domesticada.

Felizmente, nosso técnico Mano Menezes escalou mal, substituiu mal, esquematizou pior ainda e não conseguiu incutir no bando que se reuniu para a Copa América 2011 o espírito cívico que observamos nas lágrimas de atletas que participam de uma olimpíada mesmo sem ajuda das autoridades esportivas que agora só se dedicam à construção de portentosos estádios onde as “ilicitações” progridem (os valores quintuplicam) a favor de suas contas bancárias. Pelo menos por esta ineficiência devemos agradecimentos ao nosso técnico.

A euforia de uma vitória de nossa equipe tem uma duração máxima de 15 dias. Mas a mídia sabe esticá-la até as portas das eleições sob o patrocínio da elite dominante que prega alegria para o povo com a barriga vazia.

Os títulos que a seleção conquistou não reduzirão o sofrimento que contamina o povo por descaso das autoridades. Também não servirão para unir a população na busca de sua dignidade (se assim fosse, o governo até impediria a participação do time na competição).

Apesar de toda “bola” que corre nos escândalos denunciados, o povo não sabe se unir para protestar contra a subtração de seus impostos a favor daqueles que vivem desfrutando das mordomias oferecidas por estas verbas desviadas.

Que o povo manso continue pensando apenas em como furar as redes dos goleiros adversários.

O futuro de seus herdeiros pode esperar até depois da próxima conquista no esporte. Porque conquista social, só depois de uns 500 anos.

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domingo, 24 de julho de 2011

A lógica de Aristóteles

Filosofia


“Amigo da verdade”, o pensador grego deixou uma obra incompleta que é uma das grandes maravilhas da humanidade

texto José Francisco Botelho ilustração Catarina Bessel I design Adriana Wo

Seguidor e adversário de Platão e neto intelectual de Sócrates, Aristóteles (384-322 a.C.) foi o derradeiro luminar na era de ouro da filosofia grega: com ele, completou-se a tríade de pensadores antigos que mais infl uenciaram a história das ideias. Último rebento do período clássico, ele foi não apenas o pai da escolástica medieval, como também o grande pioneiro e o grande vilão da ciência moderna. Homem enciclopédico, ele tratou de quase todos os assuntos imagináveis entre a terra e o céu – e, por isso mesmo, legou fabulosos absurdos científicos (como a ideia de que a Terra é o centro do universo). Contudo, ele cometeu seus tropeços em uma época em que não havia telescópios, microscópios ou termômetros: é fácil (e cômodo) acusar os sábios do passado de ingenuidade ou estupidez, agora que temos em mãos os recursos acumulados por séculos de tentativas e erros. Por sinal, os cientistas modernos só desbastaram as arestas aristotélicas usando as armas que o próprio Aristóteles laboriosamente afiou: junto às falhas inevitáveis, ele nos legou raciocínios fulgurantes e métodos primorosos, que até hoje integram o mais fino arsenal do pensamento no Ocidente. E isso sem falar na filosofia islâmica, fortemente infl uenciada pela “espada de Aristóteles” – honroso apelido dado pelos antigos persas, rivais políticos dos gregos, ao legado de seu mais admirável inimigo.

Aristóteles Professor de Alexandre, o Grande, e considerado o “pai” da lógica, o filósofo grego atravessou os séculos graças a trabalhos rigorosos e inspiradores. De saber enciclopédico, Aristóteles especulou sobre praticamente todos os campos do conhecimento humano.

Modelo do erudito que une paixão e rigor, moderação e ímpeto, capaz de dedicar energias titânicas à serena análise do mundo, Aristóteles deixou uma obra incompleta e imperfeita que é uma das grandes maravilhas da inteligência humana. Considerado pela cristandade medieval como o pagão mais genial da Antiguidade, ele ganhou séculos após sua morte um cognome de sucinta reverência: Ille Philosophus, ou, simplesmente, “O” Filósofo. Para o bem ou para o mal, é nas pegadas desse gigante que andamos e meditamos há mais de dois milênios.

Discípulo e mestre
Embora tenha ganhado fama em Atenas, Ille Philosophus nasceu na cidade de Estagira, na região da Calcídica, dominada pela vizinha Macedônia. Desde criança, teve sede de conhecimento: praticamente todos os assuntos o interessavam, da biologia à literatura. Aos 18 anos, ele realizou o sonho da maioria dos jovens intelectualmente ambiciosos na época: foi estudar em Atenas, metrópole cultural da Grécia. Ingressou na Academia, escola fundada e chefi ada por Platão. Ao longo de 20 anos, Aristóteles foi o discípulo brilhante de um mestre incomparável. Mas havia meio século de diferença entre eles – além disso, ambos eram gênios, e isso signifi ca que mais cedo ou mais tarde acabariam brigando. Certa vez, Aristóteles alfi netou cortesmente o mestre em uma blague registrada pelos cronistas: “Platão é meu amigo, mas sou mais amigo da verdade”. O velho Platão replicou em espécie àquela petulância juvenil: “Aristóteles é como um potro selvagem, que escoiceia a própria mãe depois de lhe ter bebido todo o leite”.

Após a morte de seu tutor e rival, em 347 a.C., Aristóteles deixou Atenas e passou alguns anos vivendo como pensador itinerante pela costa do Mediterrâneo. Foi à Macedônia, a convite do então monarca Felipe II, que o encarregou de uma missão formidável: educar o rebelde e fogoso príncipe Alexandre. Assim, o discípulo do maior fi - lósofo da época tornou-se mestre do futuro conquistador do mundo conhecido. Aos 13 anos, Alexandre já era dado a bebedeiras homéricas e olímpicos devaneios de grandeza marcial. Nem mesmo os dotes professorais de Aristóteles puderam amansar aquele espírito nascido para o som e a fúria das batalhas. Aos 15 anos, Alexandre subiu ao trono, deixou de lado seus superfi ciais estudos de fi losofi a e saiu pelo mundo a cometer as proezas e barbaridades que lhe renderam o apelido de “O Grande”. Ao que tudo indica, no entanto, manteve uma afeição vagamente fi lial pelo antigo e frustrado professor: durante suas campanhas intermináveis, costumava enviar-lhe, das terras conquistadas, os mais fabulosos espécimes de fl ora e de fauna – e, com essa ajuda do ex-aluno, Aristóteles montaria o primeiro jardim zoológico do mundo.

Pensador universal
O filósofo retornou a Atenas em 334 a.C. e fundou uma nova escola, o Liceu, para rivalizar com a Academia platônica. Sua reputação de brilhantismo atraiu multidões de alunos de todas as partes da Grécia. As aulas eram dadas ao ar livre, em meio a passeios por alamedas de árvores – por isso, os seguidores de Aristóteles ganharam o nome de “peripatéticos” (aqueles que andam, em grego). Nesse período, Aristóteles produziu uma obra de proporções mitológicas. Historiadores modernos lhe atribuem algumas centenas de livros, embora anedotas antigas falem em mais de mil volumes; o certo é que, de seu trabalho hercúleo, apenas uma pequena parcela sobreviveu. Minúsculo resquício dessa biblioteca lendária, a coleção conhecida como Corpus Aristotelicum é assim mesmo uma vasta enciclopédia universal: são 47 livros que tratam de assuntos tão variados quanto a meteorologia, a mecânica dos astros, a fisiologia animal, os meandros da política e da ética, as glórias e os enigmas da poesia. Mas esse inestimável compêndio do saber compõe-se apenas de anotações sumárias e sem retoques, que Aristóteles fazia às pressas para suas lições – e que mais tarde foram compiladas pelos discípulos peri-patéticos. Os livros que o filósofo publicou em vida – escritos com esmerada retórica – perderam-se após a queda do Império Romano, no século 5. Os extraviados trabalhos de Aristóteles são um dos grandes tesouros invisíveis da literatura mundial – por injustiça poética, tudo o que conhecemos são os rabiscos de sua genialidade.

Aristóteles levou a cabo sua epopeia do conhecimento em meio a torvelinhos políticos. Atenas fora conquistada pelos macedônios em 333 a.C. – e, embora adorado por seus alunos, o antigo professor de Alexandre era detestado pelos patriotas atenienses, que o viam como o apaniguado de um déspota. Após a súbita morte do conquistador, em 323 a.C., o império macedônico ruiu e seus aliados passaram a ser perseguidos na Grécia. Como ocorrera com Sócrates décadas antes, Aristóteles foi ameaçado com a prisão e a pena de morte. “Não darei aos atenienses outra chance de pecar contra a filosofia”, disse, antes de fugir para a ilha de Cálcis – onde morreu um ano depois, doente, solitário e exilado.

A ferramenta lógica
Aristóteles talvez tenha sido o mais eclético dos pensadores, mas há um denominador comum que cimenta suas refl exões: antes de tudo, ele foi o pai da lógica, a arte ou a técnica do pensamento metódico e disciplinado. Isso não signifi ca que os fi lósofos anteriores fossem ilógicos; mas Aristóteles foi o primeiro autor a elaborar um sistema rigoroso de critérios para o raciocínio. A função da lógica é domar a louca energia do pensamento – sem diminuí-la. Não é um fim, mas um meio: um instrumento preliminar para a refl exão sobre a realidade. Por isso, as anotações que Aristóteles compôs sobre o assunto foram reunidas com o nome de Organon – em grego, “a Ferramenta”.

Parte árdua e essencial do Corpus Aristotelicum, o Organon é uma leitura de grandes desafi os e de imensuráveis recompensas – com sua luz difícil e surpreendente, a Ferramenta aristotélica ainda hoje tem a capacidade de aclarar e azeitar as engrenagens da mente humana. Mais que um manual de etiquetas do pensamento, é um ensaio sobre os possíveis acertos e eternos enganos na construção do conhecimento. Para Aristóteles, o ato de conhecer começa pelos sentidos – e nisso ele diferia de Platão, que via na inconstância das percepções uma dança de enganosos fantasmas. “Para cada sentido que perdêssemos”, escreveu Aristóteles, “haveria também uma ciência irremediavelmente extraviada.” Vendo, ouvindo, sentindo, gravamos uma série de impressões sobre a infi nidade de coisas e seres que formam o universo – é o arquivo da experiência, formado pela memória e avivado pela imaginação. Mentalmente, computamos o que os indivíduos têm em comum e no que diferem, formando sobre eles conceitos gerais. Essa acrobacia do múltiplo ao inteligível, do particular ao universal, é o que Aristóteles chama de indução. Um exemplo de conhecimento indutivo: nossa experiência sugere que todas as pessoas que conhecemos (ou das quais ouvimos falar) nascem, envelhecem e um dia morrem; disso induzimos o princípio de que “todos os humanos são mortais”.

É claro que, em qualquer indução, há uma parcela de risco: ninguém pode conhecer diretamente o destino de todos os homens e mulheres, do passado remoto ao vertiginoso futuro. A indução, portanto, não gera certezas, mas axiomas – princípios aceitos pelo senso comum, embora indemonstráveis na prática.

Limites do conhecimento
Os axiomas são o ponto de partida para o segundo tipo de raciocínio na lógica aristotélica: a dedução ou silogismo, que faz o caminho inverso à indução, estabelecendo fatos particulares a partir de verdades supostamente universais. O silogismo clássico é formado por duas afi rmativas iniciais – as premissas – e uma conclusão. Premissas verdadeiras necessariamente produzem uma conclusão válida. O exemplo dado por Aristóteles e repetido nos manuais de lógica ao longo de séculos é o seguinte: “Todos os homens são mortais; Sócrates é um homem; logo, Sócrates é mortal”. O silogismo é como uma máquina de raciocínios coerentes – mas, se partir de premissas falsas, produzirá conclusões coerentemente mentirosas. Considere a seguinte dedução: “Todos os homens são anfíbios; Sócrates é um homem; logo, quando menino, Sócrates tinha brânquias e vivia debaixo d’água”. A conclusão é absurda porque uma das premissas também o é: o mecanismo lógico, no entanto, permanece intacto. Daí o alerta lançado por Aristóteles contra o perigo dos sofismas – argumentos que distorcem a lógica para criar um verniz de razão.

Ao destrinchar essas engrenagens, Aristóteles plantou a semente do pensamento científi co – mas também deixou (talvez sem perceber) um implícito grão de insegurança no coração de todo conhecimento humano. Como podemos ter certeza absoluta de que nossos axiomas estão corretos, de que nosso bom senso não é mera especulação e de que nossos sentidos nos revelam o real? Visão, audição, tato, paladar e olfato formam uma redoma deliciosa ou terrível da qual não podemos escapar: e aqui dentro nosso intelecto tem de se haver como puder. Essa ponta solta seria puxada no século 17 pelo filósofo irlandês George Berkeley – para quem os sentidos são ilusões, e a realidade, uma fantasia da mente. A saga da lógica aristotélica alimentou não apenas a fé racional da ciência, mas também os extremos lúdicos do ceticismo – para o qual tudo o que sabemos e pensamos talvez não passe de um fascinante sofisma.

Além desse insolúvel duelo entre o conhecimento e a incerteza, Aristóteles deixou um legado moral ao afi rmar a dignidade da vida contemplativa. Para ele, o intelecto e o gosto estético são os maiores dons humanos – e nossa felicidade possível está na fruição desinteressada dessas faculdades: “o funcionamento da inteligência é um fi m em si mesmo, e em si mesmo encontra o prazer que o faz funcionar mais”. Em meio ao caos do mundo, o sábio aristotélico sempre encontrará refúgio no cálido império da refl exão. Alexandre, caçador de glórias e homem de ação por excelência, ignorou magnifi camente os preceitos de seu professor, que assim defi ne o ideal de conduta humana na obra Ética a Nicômaco: “O sábio tem modos serenos; sua voz é grave; sua ação é comedida. Suporta os acidentes da vida com dignidade e graça, tirando o máximo proveito das circunstâncias. Ele é o melhor amigo de si mesmo e se delicia com a privacidade, ao passo que o homem sem virtudes é inimigo de si próprio e teme, acima de tudo, a solidão”.

Descartes A razão

Filosofia



Com sua fé racional e metódica, o filósofo francês inaugurou a modernidade varrendo o entulho no terreno da mente

texto José Francisco Botelho | ilustração Estudio Area

Considerado por muitos o fundador da filosofia moderna, o francês René Descartes foi um dos mais charmosos heróis e um dos mais atacados vilões na história do pensamento. Matemático brilhante e cientista profundamente inspirado, ele legou à reflexão filosófica certo viés mecanicista que ainda não a abandonou de todo – por isso foi acusado de plantar uma semente de frieza no coração do pensamento ocidental. Contudo, foi esse amante dos números e das combinações geométricas quem produziu o sopro de vida mais revolucionário a enfunar as velas da filosofia desde os tempos de Aristóteles – e não é de espantar que sua jornada intelectual tenha dado frutos mistos. Paladino da razão, ele impôs a si mesmo uma missão demasiado formidável: encontrar um método unificado para a decifração dos múltiplos enigmas do universo, desde as profundezas da física até as alturas da teologia, passando pelos dramas da vida humana. Em sua busca impetuosa por conhecimento, Descartes estudou a trajetória dos astros, dissecou cadáveres, embrenhou-se em selvas algébricas, especulou sobre a natureza divina e tentou solucionar as misteriosas imbricações do corpo e da alma – aplicando a tudo a mesma fé racional e metódica.

Pensador de interesses infinitos, Descartes foi também um dos estilistas mais rematados e menos pedantes na literatura filosófica. Suas obras contêm voos narrativos de dar inveja a muitos ficcionistas – em vez de nos empurrar conclusões prontas, o autor dos clássicos Discurso do Método e Meditações Metafísicas preferiu narrar, passo a passo e com translúcida franqueza, os caminhos e descaminhos de suas reflexões. Ler Descartes é pensar junto com ele – e, mesmo quando discordamos de suas conclusões, é impossível não admirar a sinceridade e o esmero de seu relato. Nisso, ele simboliza o inverso daquela figura tão comum nos dias de hoje: a do especialista hermético, que jamais abandona a proteção e o conforto dos jargões. Espécie de romancista do pensamento abstrato, René Descartes quis dirigir-se de forma franca e compreensível a todos os seres dotados de razão e bom senso – e nisso ele triunfou com maestria poucas vezes igualada. Foi, acima de tudo, o filósofo da clareza.

DescartesFilósofo, físico e matemático, René Descartes, o pensador que introduziu a dúvida na filosofia, nasceu na França em 1596 e morreu na gélida Estocolmo (Suécia) em 1650.

Cheio de opiniõesDescartes nasceu na região francesa de La Touraine em 1596, no seio de uma família abastada. Sua mãe morreu de tuberculose antes que o filho completasse 1 ano; o pai era um ocupadíssimo magistrado que passava a maior parte do ano longe de casa. Pálido, frágil, sempre assolado por tosses e febres, René teve uma infância solitária e hipocondríaca. Aos 8 anos, foi estudar como interno no célebre colégio jesuíta de La Flèche – lá, a agudeza de sua mente logo se tornou tão proverbial quanto sua delicadeza física. Os professores permitiam que ele ficasse na cama até o meiodia, e o pequeno Descartes aproveitava as manhãs para devorar livros atrás de livros, bem acomodado entre travesseiros e lençóis (sem dúvida, um método dos mais eficazes para aquisição de conhecimento). As tardes eram dedicadas ao esporte típico de um cavalheiro: a esgrima. Apesar das tribulações respiratórias, René tornou-se um espadachim de respeito e chegou mesmo a escrever um tratado sobre armas brancas. O gosto pela solidão, a indolência matinal e a dupla habilidade com palavras e com floretes foram traços que o acompanhariam pelo resto da vida.

Entre os doutos jesuítas, Descartes desfrutou os rigorosos benefícios de uma educação clássica: leu os gregos e os latinos, encantou-se bem cedo pela poesia e encontrou na matemática a paixão de sua vida. Ainda muito jovem, contudo, seu entusiasmo erudito deu lugar a um crescente escândalo intelectual. Transitando pelas obras dos grandes filósofos de diversas épocas, Descartes não encontrou soluções definitivas para os enigmas da alma e do universo, mas uma infindável e encarniçada batalha de opiniões: Aristóteles quase sempre discordava de Platão; ambos eram desprezados pelos céticos, que por sua vez caíam na zombaria dos cínicos; e os batalhões de escolásticos medievais – todos igualmente sábios e pios – sequer concordavam em qual seria a melhor forma de provar a existência de Deus... Anos mais tarde ele escreveria em um de seus trechos autobiográficos: “Considerando quantas opiniões diversas, sustentadas por homens excelsos, havia sobre uma única e mesma matéria, eu reputava quase como falso tudo quanto era apenas verossímil... Pois nada se poderia imaginar de tão estranho e de tão pouco crível que algum dos filósofos já não houvesse dito”.

Exasperado com tamanha algazarra, Descartes decidiu abandonar as querelas eruditas e buscar iluminação no “grande livro do mundo”. Em 1618, viajou aos Países Baixos e alistou-se no exército do príncipe de Orange, que combatia uma invasão espanhola (Descartes, que era católico sincero, combateu ao lado dos protestantes – mais uma interessante esquisitice na vida desse andarilho excêntrico). Mais tarde, serviu nas tropas do duque Maximiliano da Bavária, participando nos primeiros embates da Guerra dos Trinta Anos. Nessa época, a filosofia ainda era para ele mais uma inquietação que um ofício. Até que um dia, aos 23 anos, em meio a andanças militares, Descartes teve a revelação que mudou os rumos de sua vida.

No inverno de 1619, as tropas do duque Maximiliano da Baviera estavam estacionadas na aldeia de Ulm, no sul da Alemanha. A neve tombava com abundância e ventos gélidos varriam o lugarejo. O exército inimigo estava bem longe e os soldados não tinham muito que fazer. Para escapar ao frio, Descartes passava a maior parte do tempo enfurnado em um quarto aquecido, aproveitando o ócio para meditar. Como sempre, atormentava- o a velha questão: por que haveria tanta discórdia entre os sábios? Qual seria o método correto para decifrar o universo? No dia 10 de novembro, a resposta subitamente surgiu, na forma de uma metáfora arquitetônica. Descartes imaginou, primeiramente, uma cidade construída ao sabor das gerações humanas, com prédios acumulando-se ao léu. Em seguida, pensou em uma cidade perfeitamente planejada por um único arquiteto, com ruas alinhadas em traçado impecável. Por fim, concluiu: “Não há tanta perfeição nas obras compostas pela mão de diversos mestres, como naquelas em que um só trabalhou. Assim, os edifícios construídos por um só arquiteto são mais belos que aqueles que muitos tentaram reformar... E parece-me que as ideias que avolumaram pouco a pouco, compostas pelas opiniões de muitas pessoas, não se acham tão próximas da verdade quanto o simples raciocínio de um homem de bom senso”.
Autonomia mentalOu seja: na busca pela verdade, as ponderações de um único indivíduo podem valer mais que todo o peso das tradições acumuladas. O que Descartes descobriu no aconchego da estufa, enquanto a neve caía lá fora, foi o valor absoluto da autonomia intelectual. Para pensar corretamente, é preciso antes abolir todos os privilégios e toda a autoridade dos mestres; é preciso colocar em cheque todos os pressupostos, todas as filiações, todos os medos, e valerse apenas daquilo que é comum à humanidade inteira: a razão.

O dom de distinguir o falso do verdadeiro existe em todos os homens, argumenta Descartes – o problema é que a maioria deles utiliza esse instrumento de forma rasteira, contentando-se com verdades parciais ou incompletas, que foram herdadas e não conquistadas. Antes de construir seu próprio edifício filosófico, Descartes decidiu varrer o entulho no terreno da mente – e só poderia fazer isso atacando impiedosamente os alicerces de tudo aquilo em que acreditava. Para chegar à mínima das certezas, era preciso mergulhar de cabeça no oceano da dúvida. E eis aí um dos aparentes paradoxos que fazem de Descartes um dos personagens inesquecíveis na saga do pensamento mundial. Racionalista fervoroso, sedento de verdades absolutas, o eclético espadachim de La Touraine duelou a vida inteira contra a incerteza – mas acabou concluindo que só se derrota esse portentoso adversário com as armas que ele próprio nos fornece. Duvidar metodicamente de tudo, até que a mente depare com algum princípio inquestionável – essa é a essência da “dúvida cartesiana”, cerne do método racional, que o filósofo-matemático tratou de aplicar a todas as equações do universo.

Descartes descobriu que, para pensar corretamente, é preciso abolir todos os privilégios e toda a autoridade dos mestres e valer-se daquilo que é comum à humanidade inteira: a razão

O primeiro alvo da dúvida cartesiana são nossas certezas mais imediatas – aquelas fornecidas pelos sentidos. Imerso em reflexão no calor da estufa bávara, Descartes se pergunta: será mesmo verdade que estou aqui, num quarto aquecido, com a neve a tombar copiosamente lá fora? Certamente, é isso que os sentidos afirmam – contudo, quando sonhamos, também acreditamos na realidade do sonho, e só ao acordar descobrimos que tudo foi ilusão... Para ilustrar o escopo radical de sua dúvida, Descartes elabora uma hipótese com delicioso sabor fantástico: imaginemos que o mundo seja governado por um espírito maligno; imaginemos que essa divindade embusteira tenha criado nossa mente com o único intuito de nos enganar; nesse caso, como poderíamos ter certeza quanto ao testemunho de nossos sentidos, ou mesmo quanto às verdades aparentemente óbvias da matemática? “Ora, quem me poderá assegurar que esse deus não tenha feito com que não haja nenhuma terra, nenhum céu, nenhum corpo, nenhum lugar e que, não obstante, eu tenha os sentimentos de todas essas coisas?”, escreve o pensador nas Meditações Metafísicas. “E pode ocorrer mesmo que esse deus tenha desejado que eu me engane todas as vezes em que faço a adição de dois mais três, ou em que enumero os lados de um quadrado”. Ou seja: tudo o que vemos, ouvimos, pensamos e calculamos pode não passar de uma fraude cósmica, e o conhecimento humano talvez seja apenas uma magnífica tirada de humor diabólico.

E é precisamente nesse ponto, quando a consistência do conhecimento está prestes a se dissolver em sonho ou em pesadelo, que Descartes efetua sua estocada magistral: nem mesmo o mais poderoso dos demônios, nem mesmo o mais astuto dos deuses poderia me enganar e me iludir se eu não existisse. Ainda que eu duvide de tudo, não posso duvidar de minha própria dúvida e, por conseguinte, de meu próprio pensamento. Da dúvida extrema, Descartes faz emergir sua primeira certeza, cunhada na frase mais famosa da filosofia: “Penso, logo existo”. O pensamento, e não a matéria, é a evidência de que existimos – sobre essa verdade dura como pedra, arduamente resgatada no naufrágio das falsas certezas, Descartes ergue o monumento reformado de sua filosofia.

Após o período passado no exército, Descartes dedicou o resto da vida à reflexão. Exilou-se na Holanda, onde viveu totalmente sozinho, lendo, pensando, fazendo experimentos dos mais variados e relatando por escrito suas aventuras mentais. Por mais que buscasse a solidão, seus livros correram a Europa atraindo tanto discípulos quanto detratores – e o grande misantropo acabou vitimado por sua própria fama. Em 1649, a rainha Cristina da Dinamarca – que tinha suas veleidades intelectuais, como tantos monarcas da época – resolveu contratar Descartes como instrutor pessoal em assuntos filosóficos. Em uma carta, o pensador recusou educadamente o convite. Cristina insistiu, levemente ofendida. Com medo de incorrer na ira de uma soberana, Descartes acabou cedendo. Cristina exigiu três aulas por semana – todas às 5 da manhã. Por alguns meses, Descartes foi obrigado a acordar de madrugada, no inclemente inverno escandinavo – verdadeiro suplício para um dorminhoco hipocondríaco. Por causa dos caprichos de sua real pupila, o autor das Meditações Metafísicas foi fatalmente derrubado por uma pneumonia em 11 de fevereiro de 1650.

Mais que um método, mais que uma doutrina, ele nos deixou um símbolo. Seu intelecto ao mesmo tempo sereno e atribulado, oscilante entre o sonho e a realidade, sempre em busca de um inatingível graal filosófico, serviria nos séculos seguintes como um farol hipnótico para as mentes inquietas – e como eterno convite ou eterno desafio à coragem de pensar.